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cosmópolis
CIVILIZAÇÃO

O triunfo da humanidade vegetariana
Por Carlos Alberto Dória

Futurologia do antropólogo Lévi-Strauss mostra o beco sem saída da dieta carnívora moderna

Com muitos anos de atraso, finalmente chega aos leitores de fala portuguesa uma reflexão essencial de Lévi-Strauss sobre o canibalismo ocidental moderno. Ele já havia tratado do assunto em 1993, num artigo jornalístico (“Siamo tutti canibali”, “La Repubblica”, 1993), voltando ao tema praticamente nos mesmos termos em número recente da revista “Novos Estudos Cebrap”. Não sem atualidade, somos brindados com suas reflexões sobre o mal da “vaca louca” e outros males que se insinuam na vida moderna através da alimentação.

O tema é atual na medida em que é recorrente o horror que se instala no cotidiano por essa via. Cada vez mais, não são falhas sanitárias passageiras dos sistemas de produção de alimentos que parecem nos ameaçar. É toda uma fronteira da cultura -aquela que nos faz onívoros- que se mostra frágil. Salmões infectados por parasitos, causando difilobotríase, são um caso recente dos riscos múltiplos a que estamos permanentemente expostos.

Veterinários têm se dedicado a mostrar o impacto da qualidade das águas, do parasitismo, da origem e da genética dos pescados, das formas de manipulação e conservação, da piscicultura como atividade industrial -tudo como elementos que atuam diminuindo os níveis de confiança naquilo que levamos à boca. Em outras palavras, a “naturalidade” como sinônimo de “pureza” só existe no plano ideal, já que os sistemas alimentares se fecham e se interpenetram, encerrando a todos -homens e animais- numa promíscua senda alimentar na qual nos comemos uns aos outros.

Uma visão simplista de ecologistas nos ensina que isso se deve aos crescentes desequilíbrios ambientais, fato comprovável pelo grau de comprometimento do ar e das fontes de água pela atividade antrópica. A rigor, para muitos deles, a natureza é um sistema de equilíbrio onde o homem é uma ameaça ecológica externa. Mas concepções dinâmicas da natureza mostram-na claramente como um produto histórico, fruto de processos instáveis que jamais convergem para um ponto de equilíbrio, nos quais o homem está igualmente subsumido.

É claro que a noção de equilíbrio favorece a defesa consciente de sistemas ecológicos discretos, mas os objetivos políticos não estão inscritos na natureza. Mesmo a transgenia, como toda a seleção artificial, só pode ser vista como um processo adaptativo do homem, um traço da sua cultura e não uma mudança imposta à natureza, apesar de possíveis impactos que provoque nela.

É justamente da intervenção humana que se trata, e portanto da cultura. É ela, por exemplo, que nos faz onívoros. Contudo não foi sempre assim. A bíblia mostra uma humanidade não-carnívora no tempo mitológico antes da Torre de Babel, quando os homens e os animais não eram distintos uns dos outros e podiam se comunicar entre si. Tampouco este processo é irreversível. Há documentos que se referem à proibição de consumo de animais no Japão de 700 a. C., assim como outros que mostram como o imperador Ashoka difundiu uma dieta vegetariana na Índia de 200 a. C., garantindo especialmente os produtos lácteos para as funções religiosas.

Dirá Lévi-Strauss que, se no passado já nos vimos irmanados às espécies animais, então o que a nossa cultura moderna pratica é uma sorte de canibalismo, apesar do horror que essa palavra desperta, como se tocasse nosso “lado Hannibal” adormecido. E este canibalismo foi imposto ao próprio mundo animal. Basta observar as rações que são ministradas a vacas, frangos e peixes cuja reprodução controlamos -compostas em boa medida de carcaças e rejeitos dos próprios animais abatidos para o consumo humano. Uma doença como a “vaca louca”, e inclusive o risco de sua propagação interespécies, mostra a armadilha que criamos para nós mesmos pela imposição do canibalismo aos animais.

Este vínculo entre alimentação carnívora e “canibalismo ampliado” que adquire atualidade a partir da “vaca louca”, assim como a voga dos movimentos em defesa dos animais, “atesta que percebemos cada vez mais nitidamente a contradição que se encerra em nossos costumes”.

O antropólogo francês recorre a alguns textos considerados “menores” de Auguste Comte para demonstrar a nossa visão sobre o papel dos animais para a coletividade humana.

Comte dividia os animais em três categorias: os selvagens; as espécies protegidas (aquelas domesticadas ao longo da história, como os bovinos, suínos etc.) que chamava de “laboratórios nutritivos” por terem sido transformados para suprir a humanidade dos compostos orgânicos que necessita para a subsistência e, assim, excluídos da pura animalidade; e a categoria das “espécies sociáveis”, como o cão, o gato. Considerava ainda os herbívoros como carentes de dotes mentais que os permitisse serem utilizáveis como o cão e o gato, e preconizava convertê-los em carnívoros, aumentando-lhes a inteligência -como à época de Comte já se fazia com as vacas na Noruega, alimentando-as com peixe seco quando faltava forragem.

Lévi-Strauss considera proféticas essas reflexões utópicas de Comte, especialmente a transmutação de herbívoros em carnívoros, embora a profecia não tenha se passado como Comte imaginou: “A transformação não foi obtida em benefício dos ativos auxiliares do homem, mas em detrimento dos animais qualificados por Comte como laboratórios nutritivos -erro fatal, já que, como ele próprio alertou, ‘o excesso de animalidade lhes será prejudicial’. Prejudicial não apenas a eles, mas também a nós: ao lhes conferirmos um excesso de animalidade (convertendo-os antes em canibais que em carnívoros) não estaríamos involuntariamente transformando nossos ‘laboratórios nutritivos’ em laboratórios mortíferos?”.

Doenças como a “vaca louca” ou as infestações dos salmões por teníase nada mais são do que males modernos da civilização industrial ao converter espécies naturais em “laboratórios nutritivos” cujos insumos incluem o reaproveitamento de parte desses seres como rações em sua alimentação, otimizando custos de produção e taxas de conversão proteica. Políticas sanitárias rigorosas que possam proteger a saúde dos animais são adotadas por toda parte, gerando inclusive novas categorias mercantís: os animais com “label”, com origem e manejo controlado e o mais próximo possível da antiga “naturalidade”. O ressurgimento do “frango caipira” entre nós é exemplo suficiente.

Mas também este caminho delineia um cenário sobre o qual Lévi-Strauss tem algo a dizer. “Num mundo em que a população global provavelmente terá dobrado em menos de um século, o gado e outros animais de criação se tornarão temíveis concorrentes do homem. Calcula-se que nos Estados Unidos dois terços da produção de cereais se destinam a alimentá-los. E não nos esqueçamos de que esses animais, em forma de carne, nos fornecem um número de calorias bem inferior àquele que consumiram no curso de suas vidas (no caso das galinhas, segundo me disseram, um quinto)”.

Ainda que se imagine que os aumentos de produtividade de cereais possam ser enormes -mas a transgenia também suscita preocupações- é possível que a humanidade venha a necessitar, no futuro, de toda a quantidade de grãos produzidos anualmente para sobreviver, impondo mesmo a ocupação de todas as terras cultiváveis em escala global (que, por sua vez, diminuem em extensão à medida que a própria população cresce e as compromete pela ação antrópica). Ou seja, pelos cálculos da economia calórica e proteica, a sobrevivência humana um dia será ameaçada pela produção dos “laboratórios nutritivos” de Comte.

No entanto, diz Lévi-Strauss, como há um salto enorme no aproveitamento calórico quando nos alimentamos de grãos, “todos os humanos deverão calcar seu regime alimentar naquele dos indianos e dos chineses, em que a carne animal cobre uma parte muito pequena da necessidade de proteínas e calorias”. Ora, uma humanidade integralmente vegetariana é um percurso evolutivo que se vislumbra já com a diminuição espontânea do consumo de carne, acelerada por acontecimentos como o da “vaca louca”.

Nesse cenário, não necessariamente se abandonará por completo o consumo de carne, mas ele recuperará um aspecto que há muito perdeu. “Comprada em lojas de luxo, a carne provirá somente da caça. Nossos antigos rebanhos, abandonados, serão caça como outra qualquer em um campo entregue à selvageria.” Só em ocasiões excepcionais a carne figurará no cardápio, como o peru de Natal, sendo consumida ritualisticamente, quase como os antigos canibais. Assim, conclui o antropólogo: “Romper hábitos milenares -essa é talvez a lição de sabedoria que um dia haveremos de aprender com as vacas loucas”.

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Carlos Alberto Dória
É sociólogo e ensaísta, autor, entre outros livros, de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e o recém-lançado "Os Federais da Cultura" (ed. Biruta).

1 - Claude Lévi-Strauss, “A Lição das Vacas Loucas”, “Novos Estudos Cebrap”, nº 70, Cebrap, São Paulo, 2004 (trata-se da tradução de texto aparecido em “Études Rurales”, nº 157-58, 2001).


2 - Christian Delagoutte, “Les risques biologiques et chimiques”, http://www.la-cuisine-collective.fr/dossier/haccp/articles.asp?id=69


3 - Lévi-Strauss, op. cit, p. 81


4 - Lévi-Strauss, op. cit., p. 82.


5 - Lévi-Strauss, op. cit., p. 83


6 - Lévi-Strauss, idem.


7 - Lévi-Strauss, op. cit., p. 84.

 
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