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Diário de um artista em residência ![]() Pont des Arts, em Paris
Marcia Costa No Ano do Brasil na França, impressões de um brasileiro a respeito da cidade de Paris O avião mergulhou dentro das nuvens e pousou num país onde o mar é mulher. Há um bege revestindo a paisagem na rua, menos quando se estufa o peito para abrir de manhã as cortinas do ateliê e depara-se com um lá fora branco e gelado. Há os flocos de neve que não velam inteiramente minha visão da janela do prédio ao lado, de onde há dias vejo um par de mãos tocando um piano para mim silencioso. De vez em quando há o canto de um pássaro estranho. Há pontes, muitas pontes sobre o rio. É preciso atravessá-las todas, mesmo que isso não faça sentido em relação à necessidade do trajeto. É necessário atravessá-las para ao menos se sentir sobre a universal metáfora que as pontes carregam. Há o Cartola cantando um samba aqui dentro enquanto lá fora neva. E isto revela uma pequena amostra dos contrastes que o tamanho do mundo é capaz. Ainda há folhas caídas pelo chão na rua, provavelmente restos do outono, e isto me faz pensar na Marilá trocando as folhas secas por cores. Há poucas cores, talvez pelo inverno. A cidade é realmente dominada por tons de bege. Há os enormes pés-direitos das igrejas sustentando lá no alto o singelo peso de Deus. Há muita bosta de cachorro na rua, prato cheio para o mau humor de gente como a gente que odeia cachorro. Há o livro de cartas entre o Torquato Neto e o Hélio Oiticica que eu trouxe, mostrando a incrível coincidência que vai se repetindo, era após era, vida após vida, arte após arte, o ser um humano. Havia ontem, numa baciada do lado de fora de uma livraria, uma pilha de livros do Hélio Oiticica por um euro cada. Há uma elegância em usar o corpo nos pequenos gestos. Elegância que também sabe ser escrota de forma elegante. E também a elegância errada da ponte Alexandre III. E ainda a elegância das pixações e grafites, dos rappers pela rua, destoando da elegância pedante que domina e que sufoca um pouco. Há o farol que depois de fechar para os pedestres ainda espera um bom tempo para que eles passem antes de abrir para os carros. Há carros minúsculos que parecem de brinquedo. Há, espalhado pela cidade, um monte de carrosséis. Espalhados pela cidade há também um monte de menininhos bonitos de olhar um pouco molhado, como o Rimbaud naquela foto clássica que se vende em cada esquina. Há muitas livrarias e muitos livros. Muitos. Parece que andaram escrevendo um pouco além da conta. Pela cidade há também um exército de japoneses, coreanos, chineses e afins tirando toneladas de fotos, duplicando o mundo atabalhoadamente e dando, às vezes, a sensação de se estar no Promocenter. Há um sol que brilha forte mas sem esquentar, como se houvesse um acordo entre o sol e o ar frio, cada um respeitando os limites um do outro. Há muito papel jogado no chão. Há Belleville, onde não há mais bicicletas. Ao nível do olhar há um comércio pesado e popular e, olhando pra cima, os prédios altos e estreitos em ruas também estreitas e, num deles, provavelmente mora a mãe portuguesa com o filho ciclista. Há muitas pessoas cruzando a cidade de bicicleta e mais parecem personagens. Como se tivessem surgido ali na rua de trás, passado pela gente e ido desaparecer ali no final da ponte: breves e curtos como os personagens devem ser. Há cartões postais pornográficos vendidos na rua, como o de um cara chupando o pau do outro que vi um garotinho de uns seis anos olhando e me segurei para não dizer: calma garotinho, não é nada disso do que você está pensando! Há, além de uma elegância nos gestos, uma libertinagem nada camuflada, para usar termos também elegantes. Há as estátuas das rainhas e poderosas ao redor da praça principal do Jardim de Luxembourg que têm algo também explícito na arquitetura e nos palácios: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Nos cemitérios há um monte de gente célebre morta, pra quem gosta dessas coisas. Nas praças há as crianças jogando pingue-pong de camiseta e no letreiro luminoso da farmácia marca dois graus. Há muito casaco de pele desfilando cafonice. Há um ar próprio, daqui. Que também origina uma cor própria, daqui. Há os cartões postais antigos sendo vendidos ao longo do rio. Como em qualquer lugar do mundo vão sobrando um monte de coisas das passagens das pessoas. Aqui, restar e ficar convivem sob um mesmo verbo: rester. Je reste.
Da próxima vez que eu estiver em frente ao mar, tentarei senti-lo feminino, como ele é em francês: la mer. Não sei se serei capaz, pois talvez eu me relacione com o mar através de sua masculinidade. O mar está bravo, diziam os pescadores da minha infância, hesitantes se deveriam ou não enfrentá-lo. E eu olhava o mar apertando os olhos para que ele não doesse na minha visão ainda pequena e infantil, vendo nele um homem que estava nervoso, um pai que tinha ficado severo, um país difícil negando hospitalidade. De repente, os pescadores jogavam o barco na água insistindo com força sobre a rejeição das ondas. E iam, de peitos e braços fortes, enfrentar o mar de homens para homem. Antes que eu sobrasse sozinho na praia, vinha meu pai, de peito e braços fortes, encaixava sua mão na minha e me puxava leve para casa. O encontro também é feminino. La rencontre. Mas a arte é masculina. L'art. A nuvem é masculina. Le nuage. A árvore é masculina. L'arbre. O ano é feminino. L'année. A noite é masculina. Le soir. O fim é feminino. La fin. O medo é feminino. La peur. A cama é masculina. Le lit. O quarto é feminino. La chambre. A primavera é masculina. Le printemps. A ponte é masculina. Le pont. O calor é feminino. La chaleur. Há uma esperança feminina, l'espérance, mas há também uma masculina, l'espoir. Mas tudo o que há de esperança em mim, sempre será feminino. Eu nunca tinha percebido que talvez eu me relacione com as coisas do mundo de acordo à masculinidade ou à feminilidade que meu idioma a elas dá. Eu teria de alterar profundamente algo em mim, que nem sei o que é, para mergulhar num mar mulher ou dormir profundamente numa cama homem. E como deve ser para os ingleses que não masculinizam nem feminizam nada do mundo ao seu redor? A gente nasce é além de um país? A gente nasce é num idioma?
Sim, é o Ano do Brasil na França, mas ninguém ainda me pagou um jantar nem me deu parabéns por eu ter nascido além trópicos. Aliás, tenho me perguntado que negócio é esse de ano do Brasil? Esse negócio de homenagem de graça... ih, sei não... como diria vovó, seguro morreu de velho! Será que eles estão é querendo comer a gente? Melhor eu começar a andar com a bunda na parede. Homenagem pra cá, homenagem pra lá, arte indígena brasileira no Grand Palais (Palácio Grande), exposição sobre MPB na Cité de la Musique (Cidade da Música), mas perdoar a dívida externa brasileira que é bom, ninguém perdoa. Aliás, ando desconfiado de que esse ouro todo nas estátuas daqui é de Ouro Preto. Ou estou confundindo com a Inglaterra? Bom, xá pra lá, melhor não meter a mão nesse vespeiro... Pensei em comprar uma camiseta da seleção. Assim, devidamente trajado de brazuca, peut être (talvez) me dêem desconto no mercado e eu possa comprar aubergine (berinjela), afinal é o ano do Brasil na França. Berinjela aqui é ouro: quando cheguei, embaixo de neve, custava cinco euros. Agora abaixou de preço, está um e oitenta, mas continua caro. A queda do preço deve ser por causa da chegada da printemps (primavera). Esses franceses... Só porque botaram na berinjela um nome mais pomposo acham que podem cobrar o preço que querem. Mas meus planos da camisa verde e amarela vão além dos descontos no G20 e no Franprix, os supermarchés (supermercados) daqui. Perambulando pela cidade devidamente travestido de Garoto de Ipanema, cinco estrelas no peito, espero ser cumprimentado por todos com um sorriso largo e um bonjour! (bom dia!) radiante. E que fiquem tão contentes com a minha presença que até se atrapalhem de tantos bons tratos, tipo tia velha recebendo visita. E distribuam-me baguettes a torto e a direito, sacolas e sacolas de fromage de chèvre (queijo de cabra), vinhos e sorvetes. E ainda mandem importar, delivery, direto de São Paulo, uma pizza de rúcula, tomate seco e mussarela de búfala. Mas, voltando ao lado sério do Ano do Brasil na França, andaram me perguntando se fui ver a exposição de arte indígena brasileira no Grand Palais (Palácio Grande). Fiz um muxoxo. Por um segundo até pensei em explicar que estou careca e sem dente de ver isso, que no fundo acho quase kitsch, e que o que eu queria era ver a Monalisa exposta no Xingu, caso os índios brasileiros resolvessem homenagear a França. Mas deixei o comentário para lá, meu francês ainda é macarrônico, ou melhor, croassônico, il ne est pas très bom (ele não é lá essas cosias) para sustentar discussão com aprofundamentos conceituais. Então eu disse que não fui e fiz cara de retardado. Nesse ano em que completo 30, comecei um projeto a médio prazo para ter cara de modelo-manequim-retardado, que é para não precisar ter opinião nem precisar dizer se gostei ou não das coisas e o porquê. Se alguém já fez o curso, xeroque-me a apostila e me mande, s'il vous plaît (por favor). Mas, voltando ao projeto "Quero ser homenageado no ano do Brasil na França, senão faço mandinga", trajando a bela camiseta da seleção canarinho, quero ainda entrar de graça em todos os museus. Eu até tinha ganhado a carteirinha que me dava livre acesso, mas perdi a fiadaputa. Então, quero chegar nos guichês dos museus, reluzindo meu verde e amarelo, e dizer: Bonjour, je suis brésilien (Bom dia, eu sou brasileiro), e a moça do guichê, com um sorriso de orelha a orelha irá me dar parabéns por eu ser da terra do Santos Dumont (o real pai da aviação, segundo minhas aulas de OSPB) e, ainda sustentando o sorriso na cara, me fará sentar num sofá do melhor designer francês, me servirá champagne (champanhe), e pedirá aos seguranças que tragam obra por obra do museu para eu regarder (ver). Isso será maravilhoso, principalmente no Louvre que é grande demais e, lá pelas tantas, você dá de cara com um Veermer e exclama: “Jesus! Um Veermer! Ai meu Deus, tá me dando cãibra na perna!”. Espero que assim, com minhas entradas apoteóticas e gratuitas em museus, eu economize alguns cruzeuros (esse sábio neologismo é da sábia autoria de Julia Rodrigues, a mais francesa das falsas francesas que conheço). Tive a idéia de também aproveitar as facilidades que o Ano do Brasil na França me darão e, com a minha insuperável camiseta que Pelé, Tostão e Garrincha defenderam, pedir um módico desconto ao tio Dolce, ao tio Gabana, ao tio Kenzo, ao tio Lacoste e ao tio Hugo Boss. Não que eu goste das roupas que eles cozem, não, mas posso tentar acheter (comprar) algumas por um preço mais em conta e revender na porta da SP Fashion Week, garantindo uns cruzeuros para quando eu voltar. Ah! Ontem, andando inocentemente pelas ruas do Marais, dei de cara com a atriz do “Lua de Fel”. Sei lá o nome dela, quem souber ganha um gateau (doce) que mando via Messenger depois. Linda, linda, linda... deu até vontade de abordá-la e dizer excuse moi (desculpe-me) de tão linda! Só é uma pena que Brigitte (aquela, a Bardot) parece que não vive aqui. Se cruzo com ela é capaz de eu dar um tuf! na orelha dela, para largar a mão de ficar falando mal de viado por aí, parar com essa doidice de ficar cuidando de gato fedido e ir logo pedir um desconto ao Pitanguy, nosso ilustre membro da Academia Brasileira de Letras, esse sim, um grande brazuca (sic, bof! pardon). Bom, desculpem a digressão, mas ainda dentro do meu projeto "Ei, é o Ano do Brasil na França, me paga um café!", espero fazer alguma balada de graça, afinal sou filho de Deus (e, segundo os ufanistas, Ele é brasileiro). Esses dias bebi uma bière (cerveja) por sete euros. Sete euros! Sim, vinte e cinco reais! Me senti tão culpado, mas tão culpado, que nem bebi a segunda. Era capaz de ficar bêbado e chorando pelos cantos, mostrando para todo o mundo a carteira vazia, bad money trip. Espero que, agora com a camiseta que Ronaldinho também usa, na próxima balada disputem no tapa para ver quem é que vai me pagar uma breja. Ou que eu ganhe um vip brazilian open bar. E o DJ ainda me pergunte lá de cima se estou gostando do som. E, quando eu estiver saindo à francesa, filas de carros parados na porta me ofereçam carona e cada motorista, um mais loiro e alto que o outro, diga, sorridente e perfumado: Félicitation, vous êtes brésilien! (Parabéns, você é brasileiro!). |