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Como já dissemos, em se tratando de coletivos artísticos no Brasil, nossa tradição é algo quebradiça. E de certa forma, por andarem em terrenos ainda virgens, em parte, os grupos e coletivos meio que tateiam por um caminho inexplorado, como desbravadores em terra incógnita.

Mas as informações estão por aí, e é importante conhecer o que já fez nestas mesmas áreas, em outros países. A globalização não é uma coisa nova, por certo, mas seus problemas se refletem em todos os lugares, e as conseqüências, nefastas que sejam, atingem mais ou menos todos de formas às vezes semelhantes, às vezes não.

De modo que experiências que às vezes funcionaram num lugar podem funcionar de forma semelhante (ou não) em outro. As experiências, os erros e acertos, as decepções e os triunfos podem ter muito a ensinar a todos, principalmente em áreas como a arte ativista e colaborativa. As experiências se multiplicam a cada instante, da mesma forma que o número de coletivos, e isso em nível global.

Meios como a internet possibilitam cada vez mais o acesso a essas informações e à troca de experiências e idéias. Fechar-se a essas possibilidades pode significar cometer os mesmos erros que com o conhecimento devido não se cometeria.


7. Medo da internet?

Outra questão que se põe a muitos coletivos brasileiros parece ser uma certa fobia da internet. Em que pesem vários grupos utilizarem a net como meio de divulgação de seu trabalho ou meio de discussão via listas, as imensas -e relativamente baratas- potencialidades deste meio ainda parecem passar ao largo das estratégias de ação de boa parte destes coletivos.

Um exemplo interessante de uso da rede pode ser observado por exemplo na comunidade dos artistas dos stickers, que fizeram dos fotologs um instrumento quase “de guerrilha” para divulgação de adesivos, troca e comunicação com seus pares, havendo fortes laços de identificação e formação de comunidades.

Mas as possibilidades são imensas. Comunidades virtuais como o Orkut podem possibilitar novas coletividades de ação, assim como outros usos da rede, seja criando sites falsos, imitando sites do mainstream (pense por exemplo numa paródia do Globo.com), seja articulando campanhas via web, seja espalhando boatos, ou criando personalidades fictícias, e assim abrindo outros campos de atuação para os coletivos que desejem novas formas de intervenção.

A internet não é uma “obra de arte”, mas a sua ação nela, ou através dela, pode ser.


8. À guisa de epílogo: ainda a mídia

A mídia pode criar seus hypes e engoli-los a seu bel prazer. Isso não tira nem acrescenta muito ao mecanismo espontâneo de surgimento de coletivos por aí. A lógica destas formações independe dela. Mas também não se deve desprezar o seu poder, principalmente em se tratando de efetuar choques semióticos na “realidade”.

Já não se trata de uma questão de “ser manipulado pela mídia”, mas de manipulá-la. Como está sempre ávida por notícias e novidades, os coletivos podem fazer bom uso da mídia através de táticas de comunicação-guerrilha, seja através de boatos, de falsas ações, de autênticos “trotes”, chamando a atenção dela para o que se quer dizer.

Se a desinformação é uma característica de nossos tempos, por que os artistas não podem fazer uso dela? Intervir em eventos de grande atenção de mídia, realizar perfomances, pranksterismo ou ações nestes focos de atenção pode trazer resultados surpreendentes. Neste caso, vale mais do que nunca a afirmação de Jello Biafra: “Não odeie a mídia, transforme-se nela”.

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link-se

Bijari - www.bijari.com.br

Experiência Imersiva Ambiental (EIA) - http://www.v2studio.com/i/eia/identidade.php

Esqueleto Coletivo - http://www.esqueleto.tk/

Catadores de Histórias - www.catadores.fotoblog.uol.com.br

Media Sana - www.mediasana.org

Texto do Centro de Mídia Independente sobre a ação na av. Roberto Marinho - http://midiaindependente.org/pt/green/2004/10/292489.shtml

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Ricardo Rosas
É escritor, trabalha com ativismo e mídia tática e organiza festivais relacionados ao tema. É editor do site Rizoma (www.rizoma.net).

 
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