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prosa.poesia
MÉXICO

Um poeta percorre o mundo
Por Alfredo Fressia

Gutiérrez Vega tem um dos mais ricos itinerários da poesia latino-americana atual; leia quatro poemas

“Eu entendo a obra como um itinerário onde se deixa constância dos lugares onde a gente passa e onde a gente se detém”, afirmava o poeta Hugo Gutiérrez Vega (nascido em Guadalajara, México, em 1934) numa entrevista concedida a Marco Antonio Campos, em 2002. E acrescentava: “Acho que uma das utilidades que meus livros podem ter é que podem ser vistos como uma sorte de guia turístico”. Sem dúvida, a afirmação tem uma forte carga de ironia e uma certa modéstia ostensiva, mas é verdade que a obra de Gutiérrez Vega inclui vários itinerários.

Há nela certamente um itinerário geográfico, em grande parte devedor do trabalho do autor como diplomata. Por outro lado, existe um itinerário vasto de preferências literárias onde predomina largamente a influência dos espanhóis da Geração de 1927 e a poesia inglesa (Rafael Alberti, Luis Cernuda, T.S. Eliot, para citar alguns exemplos, são direta e indiretamente citados na obra do mexicano). Finalmente, o autor vai criando um itinerário do lado íntimo, muitas vezes de estirpe “becqueriana” (isto é, ao modo do romântico Gustavo Adolfo Bécquer, Sevilha,1836-1870) e quase confessional, um diálogo com a vida mesma, como um material bruto que o poeta transfigura sistematicamente em arte.

Assim, entrar na obra de Gutiérrez Vega supõe conhecer minimamente a sua biografia, um “curriculum” (“Por favor, seu curriculum” é o nome de um de seus poemas) que o poeta pode ironizar, mas que na obra permanece carregado de significados. As fichas bio-bibliográficas costumam indicar que Gutiérrez se formou em direito no México, estudou letras inglesas em Michigan, literatura italiana em Roma e sociologia da comunicação em Londres. Ocupou cargos diplomáticos em Roma, Londres, Madri, Washington, Grécia, Líbano, Chipre, Romênia, Moldávia, Irã, Rússia, Brasil e Porto Rico. Pode parecer excessivo -para um currículo e para uma obra poética que dá conta de um percurso desses- mas se deve acrescentar ainda o trabalho do autor como professor universitário visitante que o levou da Argentina à Noruega.

Em qualquer caso, a poesia é o lugar mais fiel da biografia de Gutiérrez Vega, iniciado com “Buscado amor”, de 1965, uma “busca” que, até agora, nunca se deteve. Poderia se dizer que é a obra poética o que impede que a gente se sinta quase atordoado perante esse “curriculum”, do qual se excluem aqui os livros de ensaios e os prêmios, diplomas e distinções recebidos, aos quais o poeta dá a dimensão exata: “O único diploma que tenho e que julgo realmente importante é um da Royal London Dentists, a organização de dentistas de Londres que diz: ´Ao senhor Hugo Gutiérrez Veja, por sua conduta valorosa na cadeira do dentista´. Desse estou muito orgulhoso”. (Entrevista a Susana Alicia Rosas).


Busca da literalidade

De fato, é evidente na atitude existencial do autor e na sua obra, a tentativa, conseguida, de separar as funções oficiais e acadêmicas do artista, isto é, do poeta mas também do ator Gutiérrez. O ator de teatro e o poeta ocupam uma espécie de contra-currículo, um espaço de criatividade e reflexão que inclui a cultura erudita e livresca, mas também a popular, o cinema e suas referências -e a ternura necessária para aproximar-se das criaturas humildes dos seus “Retratos”. Vem certamente daí o rechaço que o poeta manifesta contra a metáfora requintada e o hermetismo. Decididamente Valéry e a maior parte dos simbolistas não figuram entre as muitas menções literárias desta obra.

Três anos depois do massacre de Tlatelolco (ocorrido na capital mexicana em 2 de outubro de 1968, quando um grupo de jovens manifestantes, em número nunca definido, foi assassinado pela polícia), diz o poeta: “Você disse que meus poemas eram pedestres./ Eu esclareci que só tentava contar coisas/ E que fazia três anos/ Que já não tinha sentido isso de recriar a realidade” (em “Desde Inglaterra”, 1971). Se a arte é realmente possível depois do horror, para seguir a formulação de Adorno, ela deve despojar-se, para existir, de todo “metaforeio” (sic), sob pena de cair no ridículo: “Os poetas disseram versos/ e agitaram suas plumas no grande salão.// Dia seguinte várias faxineiras/ exibiram plumas de pavão/ nos velhos chapéus./ Elas opinam que os recitais são úteis/ para a República” (idem).

Gutiérrez não hesita em chamar um dos seus livros “Poemas para el perro de la carnicería y algunos homenajes” (1979) e insiste em que escreve com “literalidade”. É verdade que algumas vezes sua linguagem torna-se quase só denotativa. Isto ocorre quando o poeta, que usa normalmente uma frase sem cortes sintáticos (que poderiam escurecer o significado), parece guiar a referencialidade da língua na direção da prosa.

O leitor pode encontrar na obra de Gutiérrez alguns poemas que aceitariam ser transcritos no registro plano da prosa, isto é, poderia suprimir-se neles a espiral serpenteante do verso, esse que em princípio existe porque inclui pela sua simples presença informações novas e literalmente sutis. Em compensação, seus livros contêm alguns esplêndidos poemas diretamente “em prosa”, poderosos objetos de linguagem tocados pelo enigma do significado poético, esse grão de sal na medusa.

Do seu vasto itinerário geográfico o poeta privilegiou na sua obra alguns lugares, especialmente Espanha, Inglaterra (e o universo anglo-saxão num plano mais vasto), Brasil e Grécia. Em todos os casos, México sempre está obsessivamente presente nesta poesia, bússola de um viajante à procura do seu próprio centro. “Minha poesia e meus livros são de viagens, mas com os pés postos -cravados- na casa da minha infância.”

Gutiérrez ocupou um cargo diplomático no Brasil -foi cônsul no Rio de Janeiro- e ficou seduzido por este país. Um “diário” dessa sedução encontra-se no poemário “Andar en Brasil”, de 1988. Há ali poemas como “Cantos de Salvador de Bahía” ou “La tarde en Minas Gerais” que dão conta dessa relação de amor. O leitor que tenha imaginado que, pela sua estética, Gutiérrez dialoga com a obra de Manuel Bandeira, não se engana em absoluto, e prova disso é o poema “Pensando en Bandeira”.


Duas ou três coisas sobre o mundo

Gutiérrez diz: “Não sei mais que algumas coisas/ sobre o mundo,/ seu estrondo/ e as mil ciladas/ da primavera” (em “Outros poemas”, de 1994). Esse saber do mundo -duas ou três coisas que o poeta sabe dele- constitui um dos itinerários mais instigantes desta obra. E é também um itinerário de natureza ética, porque, artista “moderno”, o poeta sabe que a primeira pessoa é sempre coletiva: “a primeira pessoa me preocupa,/ mas sei que não é minha:/ todos somos a mesma coisa;/ tudo é uno,/ uno é o todo,/ cada homem é, no fim,/ todo este mundo/ e o mundo/ é um lugar/ desconhecido” (em “Cantos de Tomelloso y otros poemas”, 1984). O amor, o humor, o distanciamento e a ironia, todos estes instrumentos servem ao poeta para contemplar o mundo, suas ruas, seus mistérios, a vida mais íntima, os seres familiares -com tantos poetas, homenageados vários-, a dor, a passagem do tempo, o desamparo humano (e ainda animal, nesta obra que contém um bestiário familiar, cheio de gatos e alguns cães).

Em 2002 o poeta reuniu a sua poesia completa numa sóbria edição titulada “Peregrinaciones, Poesía 1965-2001”, editado pelo Fondo de Cultura Económica, México (564 págs). O livro se inicia com uma iluminada Introdução do poeta e crítico Marco Antonio Campos, e se encerra com um diálogo entre Campos e Gutiérrez. “Depois da leitura da sua obra tem-se a impressão de que você escreveu um só livro”, afirma Campos. Se fosse preciso escolher neste livro vasto, variado e único, fortemente marcado pela biografia autoral e pela ética, é provável que a trilogia “grega” dos anos 1990 suscitasse a unanimidade da seleção. Trata-se dos poemários “Los soles griegos” (1990), “Cantos del Despotado de Morea” (1994) e “Una estación en Amorgós” (1997). A freqüente ironia autoral torna-se aqui ternura perante a impressionante paisagem física e humana das ilhas. Algumas personagens de Amorgós conseguem incorporar-se para sempre na experiência do leitor (Dimítri o padeiro, o médico Stratos, a prostituta Areti, o Papa Yorgos).

Em “Cantos...” a viagem situa-se também no tempo histórico, e os poemas se organizam quase como numa obra dramática (produto afinal do ator Gutiérrez). Situados no momento em que a notícia da queda de Bizâncio em mãos dos turcos chega ao Peloponeso (Moréia), a obra toma a proporção atemporal da tragédia e do fim de um mundo.

O discurso em que o chefe do Despotado resume a tarefa de um político está sem dúvida entre o que de melhor se escreveu na poesia hispano-americana (“Estou certo de que ninguém se lembrará de mim/ e isto significa que fui um Déspota eficiente (...) Não tive tempo de ser feliz/ e assim o consignei nos meus poemas mais sinceros”). O Déspota, como o poeta, se incluirá entre os desamparados do mundo, que despertam ternura. E o próprio Gutiérrez diz: “Desta maneira me solidarizo e canonizo todos os seres pequenos, e também me auto-canonizo pois eu faço parte desse grupo de pequenos”.

***

QUATRO POEMAS DE GUTIÉRREZ VEGA
Tradução de Alfredo Fressia

Nota roja

A Cesare Pavese

Salir una mañana de la casa
sin tomar el café, sin decir nada,
sin besar ni a la esposa ni a los hijos.
Salir e irse perdiendo por las calles,
tomar aquel tranvía,
recorrer el jardín sin ver que el sol
va colgando sus soles diminutos
de la rama del árbol.
Recorrer el jardín
sin ver que un niño nos está contemplando,
sin ver las cabelleras rubias, morenas, pálidas...

Pasar cargando una sonrisa muerta
con la boca cerrada hasta hacer daño.

Entrar en los hoteles,
hallar uno silencioso y lejano,
tenderse entre las sábanas lavadas
y sin decir palabra, sin abrir la ventana
para que el sol no meta su esperanza
apretar el gatillo.

He dicho nada.
Ni el sol,
ni la flor que nos dieron las muchachas.

(in “Desde Inglaterra”, 1971)


Nota vermelha

A Cesare Pavese

Sair de casa uma manhã
sem tomar o café, sem dizer nada,
sem beijar nem a esposa nem os filhos.
Sair e ir se perdendo pelas ruas,
tomar esse bonde,
percorrer o jardim sem ver que sol
pendura seus sóis diminutos
no ramo da árvore.
Percorrer o jardim
sem ver que uma criança nos contempla,
sem ver as cabeleiras loiras, morenas, pálidas...

Passar carregando um sorriso morto
Com a boca fechada até doer.

Entrar nos hotéis,
achar um silencioso e distante,
estender-se entre os lençóis lavados
e sem dizer uma palavra, sem abrir a janela
para que o sol não meta sua esperança
apertar o gatilho.

Eu disse nada.
Nem o sol,
Nem a flor que nos deram as meninas.


Autobiográfico

Para que se enteren de lo fácil que es
manipularme, obligarme a decir
y hacer cosas,
que en el fondo
no quiero
ni decir
ni hacer,
les diré:
mi signo es acuario,
he profesado
por lo menos
cuatro ideologías y dos religiones,
he tenido nueve trabajos diferentes
y no acostumbro
hacer huesos viejos
en ninguna parte.
Diré también
que las mañanas del domingo
no sé quién soy,
no recuerdo mi nombre,
y al verme en el espejo del baño
con la barba enmarañada
y los ojos balanceándose
en el antepecho de las órbitas,
me saludo
con una cortesía esmeradísima
y me deseo un futuro brillante;
dejo de compadecerme
y me tiendo una mano
que llegaría a otra mano
si no fuera por el maldito cristal,
y si no fuera
porque al día siguiente será lunes
y porque la vida
estará llena de lunes
que siguen y siguen
hasta que un domingo
al tender la mano
otra mano saldrá del espejo
y ya nunca habrá lunes.

(in “Cuando el placer termine”, 1977)


Autobiográfico

 
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