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dossiê
VILÉM FLUSSER

O pensador malcomportado
Por José Augusto Ribeiro


O pensador Vilém Flusser
Reprodução

No Brasil, Flusser desenvolveu reflexão pioneira sobre linguagem, arte e tecnologia

Quando embarcou no navio que o traria da Inglaterra para o Brasil, Vilém Flusser carregava dois livros a tiracolo: um de preces do judaísmo e o “Fausto” de Goethe. O primeiro, presenteado por sua mãe, perdeu-se na viagem, mas não o segundo. E se algo mais afina Fausto e Flusser, deve ser a vontade de sabedoria, ou o conhecimento da filosofia e da teologia. Porque, enquanto um tratou com o diabo, o outro tratou sobre deus e o diabo. A vender a alma para preservar a jovialidade, Flusser preferiu “suspender a crença”, mirar o futuro e investigar a condição humana.

Vilém Flusser nasceu a 12 de maio de 1920, em Praga, na antiga Tchecoslováquia. Ingressou no curso de filosofia da Universidade Carolíngia, aos 19 anos, e emigrou para Londres logo em seguida, quando da invasão das tropas nazistas a sua cidade natal. Frequentou por dois semestres a London School of Economics, mas, com a notícia da queda de Paris, decidiu partir em direção ao Brasil, acompanhado de Edith Barth, com quem se casaria, em 1940, no Rio de Janeiro. O casal se mudou para a capital paulista no mesmo ano, e, em 1950, Flusser se naturalizaria brasileiro.

Durante quase 20 anos, de 1940 a 1960, Flusser trabalhou com o sogro na fábrica de rádios Astória, no Bom Retiro. Em paralelo, dedicava-se a estudos informais e noturnos de filosofia e literatura. Neste período, estaria completamente isolado dos círculos intelectuais, não fosse a presença dos companheiros tchecos, também radicados em São Paulo, Alexandre Bloch e Helmut Wolff.

A formulação dos primeiros pensamentos “em português” viria no final da década de 1950, quando Vilém Flusser começa a promover encontros semanais, em sua casa, com os amigos ainda adolescentes de sua filha, Dinah, então aluna do colégio Dante Alighieri, uma das escolas da elite paulistana. Desta turma, faziam parte Celso Lafer, Alan Meyer, Mauro Chaves, José Carlos Ismael e Maria Lília Leão, que mais tarde se tornariam, respectivamente, ministro das Relações Exteriores (nos governos Collor e FHC); psicanalista; advogado, escritor e produtor de teatro; crítico de cinema; e pesquisadora e produtora de TV.

“À medida que estes encontros se tornavam regulares, o assunto também ia se adensando. Como não falávamos o idioma alemão, arrisco dizer que uma das conseqüências da formação deste grupo foi levar o Flusser a se dedicar mais e mais a pensar em português e também a escrever seus textos na língua do país onde estava vivendo. O primeiro destes textos foi ‘Praga, a cidade de Kafka’, que encaminhamos para o ‘Suplemento literário’ d’‘O Estado de S. Paulo’, em 1961”, conta Celso Lafer, referindo-se ao ano em que Flusser dá início à colaboração regular com o jornal paulista.

Em 1960, porém, Flusser já começara a escrever para a “Revista Brasileira de Filosofia”, coordenada pelo Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF), fundado por Miguel Reale. Dois anos mais tarde, o pensador tcheco tornava-se membro titular do IBF, e, em 1964, assumiria a co-editoria da publicação do instituto, onde, neste ínterim, ministrou cursos sobre filosofia da língua. Surge daí a matriz do “pensamento flusseriano”, ou seja, a aliança da filosofia (em especial, Husserl, Heidegger, Wittgenstein, Schopenhauer e Camus) com a lingüística, resultando em escritos que combinam o ritmo ensaístico com o fraseado poético. Não à toa seu “estilo” é denominado “ficção filosófica”, o que de certa maneira atrapalhou mas não impediu a atividade acadêmica.

“Flusser tinha um imenso conhecimento sobre a língua e a filosofia, em especial sobre a fenomenologia e o existencialismo. Não era, de maneira nenhuma, um pensador bem-comportado. Ao contrário, integrava o grupo dos pensadores carnívoros, à maneira antropofágica, da estirpe de um Oswald de Andrade. No Brasil, Flusser abriu um largo horizonte para o pensamento alemão”, afirma Lafer.

Data de 1963 a edição do primeiro livro de Vilém Flusser, “Língua e realidade”, em que o autor defende a idéia de que, a cada língua ou grupo lingüístico, corresponde um sistema conceitual mediador da relação do homem com a realidade. Daí o filósofo tcheco extrairia, anos depois, um método de trabalho que previa a redação de um mesmo texto em dois, três ou quatro idiomas -o que, para ele, também significava dois, três ou quatro pontos de vista-, a fim de obter o desenvolvimento de um raciocínio “mais completo”, com a ajuda de traduções e reescrituras consecutivas.

O filósofo Raider Guldin define bem o papel da tradução neste processo de escrita: “As discrepâncias entre as diferentes línguas são transformadas em um momento criativo, e o abismo que se deve atravessar durante a tradução assume um papel completamente novo: torna-se um local de encontro, iniciatório e inspirador, com as potencialidades residentes além das fronteiras da língua”. Para Guldin, a “auto-tradução” garantia ao autor um distanciamento crítico em relação às próprias linhas.

Em 1965, Flusser publica o “diabólico” -o adjetivo é do autor- “A história do diabo”, livro em que retoma aspectos positivos da figura histórica do diabo, em contraposição à tradição dos ocidentais que “o pintam com cores negativas”, como opositor de deus. O título será reeditado em maio pela editora AnnaBlume.

Embora não tivesse formação sistemática nem em filosofia nem em ciências exatas, Flusser fez uma passagem rápida pela USP, como professor de filosofia da ciência no Departamento de Humanidades da Escola Politécnica, no período entre 1967 e 1971. Ainda em 1967, o filósofo dá um importante passo na carreira acadêmica que construiu no Brasil, com a criação e formatação do curso de teoria da comunicação da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado).

“O curso de comunicação do Flusser na Faap era fruto de uma conjunção de teorias da física, da política, da filosofia e da arte. Ele desenvolvia pensamentos singulares como, por exemplo, opor informação e comunicação, dizendo que ‘ao máximo de comunicação corresponde o mínimo de informação’. Eu acompanhava a aula dele de manhã e reproduzia o mesmo conteúdo à noite”, lembra o artista plástico Gabriel Borba, assistente de Flusser na coordenadoria da disciplina.

O pensador já alimentava, à época, certo deslumbre, não sem uma dose de ingenuidade, com a tecnologia e os meios de comunicação de massa. “O interesse dele durante o curso era, sobretudo, na idéia de que o sistema de comunicação pudesse transformar o mundo, fazer uma revolução. Ele já falava de computadores, de vídeo, idealizava programas de televisão interativos etc. E embora só falasse disso, acho que ele nunca se sentou na frente de um computador”, completa Borba, que também trabalhou com Flusser como ilustrador da coluna “Posto Zero”, que o filósofo tcheco manteve no jornal “Folha de S. Paulo”, de janeiro a abril de 1972. Há quem defina os artigos produzidos neste período como “retratos fenomenológicos do cotidiano brasileiro”.

“O nome da coluna na ‘Folha’ explica, por exemplo, a filosofia de vida do Flusser. Para ele, a única forma de você conhecer o mundo sem precisar sofrer -sofrer no sentido de ser prisioneiro-, é você sair, distanciar-se dos fatos e olhá-los desde o tal ‘posto zero’. Eu brigava muito com ele por causa disso, porque ele era um fenomenólogo e eu, um jovem na época, queria ação”, diz Borba.

A partir de amizades firmadas com Mira Schendel e Samson Flexor, Vilém Flusser enveredou pelo circuito de artes plásticas no Brasil, escrevendo críticas e realizando palestras e seminários. Mas a ligação mais intensa com a produção artística é posterior à fase brasileira do pensador, que em 1972 voltou à Europa -passando, primeiro, pela Itália e, mais tarde, fixando residência na França. Seu trabalho de maior repercussão desenvolvido no Brasil, no campo das artes visuais, talvez seja a curadoria do segmento de videoarte na 12ª Bienal de São Paulo, realizada em 1973, edição para a qual Flusser convidou os suíços Jean Otth e Gerald Minkoff e os franceses Hervé Fisher, Fred Forest e Horia Damien.

“A participação do Flusser nesta Bienal foi caótica. Porque os convidados dele não eram os convidados oficiais, quer dizer, não eram os convidados da diretoria da Bienal. Então, todos ficaram sem hospedagem, e o Forest, por exemplo, teve que dormir na minha casa. Se não me engano, o Minkoff nem apresentou trabalho. A exposição de arte-comunicação foi uma loucura, ao mesmo tempo em que causou grande impacto pelo ineditismo”, narra Gabriel Borba, que trabalhou como assistente de Flusser na empreitada.

O filósofo voltaria a trabalhar para a Fundação Bienal de São Paulo em outras duas edições do evento: em 1981, quando participou de um ciclo de conferências intitulado “Imagem-tecno-imagens”, e quatro anos depois, com uma palestra sobre “arte, artesanato e artefato”. Também em 1985 sairia no Brasil o livro “Filosofia da caixa preta”, em que Flusser discute a produção e reprodução técnica da imagem, desenvolvendo um conceito que muitas vezes é relacionado com o pós-modernismo, em parte por conta do prefixo comum. Trata-se da noção de pós-história, a respeito do primado da imagem técnica (fotográfica, cinematográfica etc.) sobre o texto na construção de narrativas no século 20.

Publicado originalmente em alemão, em 1983 -e com o título “Por uma filosofia da fotografia”-, “Filosofia da caixa preta” ganhou edições inglesa, norueguesa, italiana, sueca, húngara, mexicana, tcheca, espanhola, francesa, chinesa... A obra rendeu-lhe, enfim, prestígio internacional, sobretudo como comentarista de fotografia e vídeo. Até que Flusser foi convidado a comandar uma coluna na revista norte-americana “Artforum”, de 1986 até sua morte, em 1991, num acidente de automóvel, nos arredores de Praga. No espaço chamado “Curie’s children”, discutia pesquisas artísticas ligadas à arte robótica, à arte que ele denominava “transgênica”, além de comentários acerca, por exemplo, da Guerra do Golfo (1990-1991).

“Interessa-me mais o Flusser que pensou a arte com mediação tecnológica e, neste sentido, ele é quase contemporâneo de outros pensadores, como Edmond Couchot, que já estava envolvido com isso 30 anos atrás”, diz Arlindo Machado, professor de comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Nas décadas de 1970 e 1980, Flusser influenciou toda uma geração de artistas no Brasil com os artigos que publicou na ‘Artforum’ e com as visitas freqüentes ao país. Não por acaso, avançamos bastante no campo das interseções entre arte e tecnologia”, completa Machado, citando artistas como Mário Ramiro, Artur Matuck, Otavio Donasci e Eduardo Kac. E, de fato, basta pensarmos na produção artística destes nomes para chegarmos à conclusão de que o futuro de que falava Flusser é agora.

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Livros de Flusser disponíveis no Brasil:

“Língua e realidade”. Ed. Annablume. 288 págs. R$ 38.
“História do diabo”. Ed. Annablume. A ser lançado em maio.
“Fenomenologia do Brasileiro”. Ed. da UFRJ. 176 págs. R$ 17.
“Da religiosidade”. Ed. Iluminuras. 176 págs. R$ 16.
“Ensaio sobre a fotografia”. Ed. Relógio d’Água. R$ 35.

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José Augusto Ribeiro
É jornalista, membro do conselho de editorial da revista "Número".

 
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