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dossiê
VILÉM FLUSSER

Para Flusser, é melhor filosofar em português
Por Eva Batlickova

Professora tcheca apresenta o livro "Língua e realidade"

Para leitores de fino gosto e vontade de algo fora do comum, a editora Annablume relançou o livro do tcheco-brasileiro Vilém Flusser “Língua e realidade”, um dos mais interessantes ensaios filosóficos escritos em língua portuguesa. Isto tem muito a ver com a excepcional personalidade de Flusser. Ele viveu sua infância e juventude entre duas guerras mundiais em Praga, então capital da Tchecoslováquia, cidade com atmosfera romântica criada pelas inúmeras igrejas e outros monumentos góticos. Aos 19 anos, foi forçado a fugir diante da perseguição fascista por sua origem judaica. Depois de curta estadia em Londres, em 1940, Flusser e a mulher da sua vida, Edith, migraram para o Brasil, para finalmente residirem em São Paulo por mais de 30 anos.

Vilém Flusser entrou na história da cidade como um intelectual engajado -escrevia ensaios para “O Estado de S. Paulo”, ensinava nas universidades e no terraço da sua casa rodeado de jovens, e escrevia livros. Seu campo de interesse foi imenso, porém toda a sua atividade foi marcada pela experiência pessoal com um dos terrores mais bestiais da história humana. Por isso, o seu maior empenho foi consagrado a revelar e chamar atenção para mecanismos ameaçadores à liberdade humana, em todas as suas formas, muitas vezes sofisticadas e escondidas.

Durante a sua atuação no Brasil, colocou no centro de seu questionamento filosófico a linguagem e seu poder de criar e dominar a vida de seus praticantes, e também o perigo do seu abuso como propaganda política para manipular pensamento e comportamento. Exatamente esta questão que é desenvolvida em “Língua e realidade”, livro mais importante da época brasileira de Vilém Flusser.

Este grande ensaio foi lançado em 1963 como a primeira obra de autor. Todavia, de acordo com seus manuscritos, trata-se já do seu terceiro livro, o mais extenso, o mais elaborado e o mais maduro de todos os seus trabalhos dessa temporada -e sem exagero um dos primeiros livros filosóficos com acesso moderno à linguagem. Flusser tinha como mestres Ludwig Wittgenstein e Edmund Husserl, juntando à teoria lingüística do primeiro a fenomenologia do segundo. Deste modo, o pensador criou o seu próprio método de análise fenomenológica da linguagem, temperada pelo antiessencialismo da filosofia oriental, a que também se dedicou nos primeiros anos da sua estadia no Brasil.

“Língua e realidade” é interessante por várias razões camufladas em seus vários planos. Num nível mais nítido, o livro apresenta a teoria de Vilém Flusser baseada na identificação de linguagem com realidade. Deste ponto de vista, o filósofo participa na discussão pós-analítica regular rejeitando o conceito referencial de linguagem. No entanto, este plano não é o único eixo da obra. Há também um plano poético, cheio de metáforas, imagens coloridas emocionantes e outro, que poderíamos denominar "ficção científica flusseriana", todo emaranhado por uma ligeireza lúdica. Este conjunto fantástico torna o livro muito atraente para o vasto público de leitores e ao mesmo tempo confuso para críticos profissionais e filósofos “sérios”.

O propósito básico de “Língua e realidade” é revelar a essência, estrutura e dinâmica da linguagem. Flusser se distancia das concepções tradicionais vinculadas ao empirismo e ao atomismo positivista, captando a língua como um elemento vivo que transforma o caos dos dados imediatos no cosmos das palavras preenchidas de sentido no âmbito da língua concreta. Esta afirmação traz consigo muitas conclusões importantes, como relatividade e pluralidade das realidades humanas, porque, quantas línguas se fala no mundo, tantas realidades existem com as suas próprias verdades. Cada língua possui o seu característico clima de realidade, assim, o papel maior de tradução é reconstruir este diferente tipo de ser -obviamente, papel que nunca pode ser cumprido no limite da perfeição. Flusser sugere que a possibilidade de tradução só é viabilizada graças ao parentesco ontológico entre as línguas, e quanto mais as línguas seriam afastadas menos compreensível se torna a tradução, até a intraduzibilidade quase total e assim incompreensibilidade entre culturas muito diferentes.

O filósofo analisa três grandes grupos lingüísticos -línguas flexionais, aglutinantes e isolantes- acentuando as diferenças principais entre eles. Sob o seu olhar meticuloso, a lógica se revela como regra válida exclusivamente para as línguas flexionais e, deste modo, ele a desvaloriza como princípio universal do pensamento humano. Conseqüentemente modifica o estatuto da ciência ocidental, que nunca consegue confirmar a realidade em si, tampouco a verdade absoluta, porque sua legitimidade é sempre limitada.

Depois da desmitificação de lógica, empresta a sua atenção à filosofia, estando convencido de que toda a discussão filosófica ocidental se baseia em traduções insuficientes. Para demonstrar esta tese, Flusser submete à análise lingüística os conceitos metafísicos tradicionais de maneira bem parecida à desconstrução derridariana, naquele tempo ainda não inventada. O filósofo desenvolve um jogo instigante com as línguas, chegando a resultados impressionantes. Um exemplo maravilhoso encontramos na análise da formação do tempo futuro na língua portuguesa formado pelo verbo auxiliar “ir”, isto é, o verbo literalmente ligado com movimento espacial. Flusser acha o português a única língua que junta o tempo com o espaço, abrangendo, assim, implicitamente as teorias da física moderna, como as de Einstein e de Heisenberg.

Trata-se de exemplo significativo para mostrar a capacidade de Flusser de entreligar a ciência com a ficção e criar um quadro plástico que aproxima a primeira do grande público. Aliás, ele próprio muitas vezes afirmava que a sua intenção não era dar respostas, mas colocar perguntas para apresentar as maiores questões da sua época e ampliar a discussão sobre elas, no fim das contas o próprio princípio da filosofia, infelizmente muitas vezes omitido. Ele conseguiu apresentar a ciência sob nova luz, como um dos produtos culturais de mesmo valor que a arte e a religião. Flusser não pretende destruir ou desprezar a ciência ocidental, somente quer mostrar seus limites para enfraquecer seu dogmatismo -e tornar transparente o poder que atua sobre nossas vidas. Ele tenta mostrar que a existência humana não cabe no espaço entre as fronteiras da lógica e que o intelecto humano tem muito mais possibilidades para se realizar.

Tudo o que foi mencionado sobre o livro “Língua e realidade” até agora testemunha, sem dúvida, a sua excepcionalidade. Mas o que me parece realmente revolucionário é o fato de Flusser conseguir aproveitar a sua teoria, libertando a língua das algemas da lógica e do discurso tradicional, e isso no próprio procedimento de escrever: elabora um livro científico ultrapassando as regras científicas. É a prova de que na personalidade dele se junta o grande pensador com o grande artista e, vale a pena dizer, também um grande admirador da língua portuguesa. Vilém Flusser muitas vezes a destaca como uma língua ideal para a filosofia de novo tipo, por não ser contaminada pela terminologia tradicional metafísica, assim aberta às novas idéias, projetos e ao novo tipo de pensamento. Para ele, era a língua portuguesa a verdadeira língua do futuro.

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Eva Batlickova

É mestre e doutoranda em filosofia pela Universidade Masaryk, Brno (República Tcheca).



 
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