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Embaralham-se as fronteiras entre ficção e realidade, se tudo faz parte de um jogo. Os jogos se tornam o nosso terreno ontológico; logo, a futura ontologia é necessariamente “game theory”. Os jogos se regulam e reproduzem a partir dos aparelhos, cumprindo função divergente que termina por despolitizar a sociedade. Despolitiza objetivamente, ao convencer a sociedade da futilidade de toda ação política; despolitiza subjetivamente, ao entorpecer a faculdade crítica da sociedade. O problema da droga, contraparte lógica e sintomática das funções do aparelho, se situa do lado subjetivo. Podem colocar o Exército na rua, podem lançar “n” campanhas de esclarecimento dos malefícios da droga, que o “problema” apenas recrudesce -porque não é o problema, mas sim semblante da verdadeira questão.

A pós-história está raiando, diz Flusser, e sob duas formas de estupidez: dos aparelhos programadores e dos bárbaros destruidores de aparelhos (que não percebem que os “games” têm por objetivo final serem “zerados”). Não se luta contra a estupidez do progresso chamando a si mesmo de “progressista”, como faz a esquerda. Luta-se contra a estupidez do progresso retardando-o ou trocando a solidão na massa pela solidão do guarda de um farol. Não se trata de apenas cultivar samambaias na varanda, mas sim daquela solidão privada em que Deus aparecia aos profetas. É apenas de dentro dessa solidão que se pode diagnosticar a loucura e a estupidez que assolam o nosso tempo: um tempo que combina maior democracia com muito mais ignorância: combinação explosiva.

Tal diagnóstico “exige ironia crítica quanto a nós mesmos, distanciamento de si próprio que cada qual é obrigado a efetuar por si próprio, na solidão de um ensimesmamento que perfura o si-mesmo”. Ironia e auto-ironia crítica lembram o distanciamento brechtiano porque tomam a si mesmas pelo espetáculo e dependem da suspensão das crenças, o que equivale a não acreditar piamente nos conceitos. Por isso, “pós-história” é um conceito irônico, em contraposição à seriedade patética que cerca o chamado “pós-moderno”.

A sua pós-história remete ao fim da história, que por sua vez remete a Hegel. Entretanto, quando Fukuyama, em 1992, recunha a expressão “fim da história” de forma neoliberalista, prejudica toda a discussão. Depois de Fukuyama, parece não ficar pedra sobre pedra no terreno da história. A concepção de história, e em conseqüência de pós-história, para Flusser, é diferente. A história, para Flusser, é produto e ferramenta de e para uma explicação abstrata e unidimensional do mundo.

Andreas Ströhl esclarece que o conceito flusseriano de pós-história parte de uma mudança básica de paradigmas nos códigos com os quais nos comunicamos: enquanto outros teóricos contemporâneos usam métodos indutivos, acumulando dados para explicar os fenômenos da cultura que entendem pós-moderna, Flusser argumenta por abstração dedutiva, assumindo o risco de formular hipóteses através das suas fabulações filosóficas. Enquanto para eles um dos efeitos da pós-modernidade seria também uma mudança nas formas de comunicação, para Flusser o surgimento da imagem técnica é a causa central de todos os efeitos descritos como pós-históricos por ele e como pós-modernos pelos outros.

Esses outros perceberam mutações gigantescas na organização das sociedades ocidentais e anunciaram então o advento de uma nova formação social que batizaram de pós-moderna, na qual a comunicação eletrônica se tornaria a forma predominante de interação social. No lugar de explorar o potencial oferecido por este mundo governado pelos “media”, os teóricos da pós-modernidade dedicam-se a lamentar a decadência dos valores tradicionais ou, ao contrário, dedicam-se a lamentar o colapso da síntese modernista que tentava conter a decadência por meio de equilíbrio incerto ou através de estabilidade paradoxal. Se, como é menos típico, esses teóricos conseguem evitar a nostalgia, terminam por cair na tentação de fazer predições otimistas sobre a liberação do ser humano pela maravilha da tecnologia. Entretanto, essas predições logo se revelam pueris, em face da multiplicação das guerras e do espetáculo midiático das guerras “limpas” e on line>.

Flusser recusa tanto a nostalgia simples quanto o elogio oportunista, à la Bill Gates, da “estrada do futuro”. Esse caminho, nem lá nem cá, dificulta a sua recepção: os acadêmicos europeus, como já acontecera no Brasil, se irritaram com aquele estilo provocativo de filosofar. Andreas recorda a lei não escrita dos anos 80 que obrigava os intelectuais a serem pessimistas, se possível apocalípticos. A geração sem futuro do fim dos anos 70 teria sido seguida pela geração Null Bock (sem vontade, sem tesão) na Alemanha dos anos 80. Ambas se relacionavam de forma muito próxima com um Zeitgeist (espírito de época) intelectual que era já um Endzeitgeist (fim do espírito de época).

À náusea da sociedade de consumo sucedia-se a convicção de que o fim estava próximo: aniquilação total por guerra nuclear ou catástrofe ecológica. Neste quadro, Flusser ficou conhecido na Alemanha. À frente do pano de fundo negro, sua figura e seu pensamento pareciam irradiar luz benevolente e radical ao mesmo tempo, fascinando e afastando: os otimistas achavam-no ou muito pessimista ou otimista demais, enquanto os pessimistas não o entendiam. Ele contradizia o humanismo tradicional. Definir os seres humanos como meras protuberâncias de um aparato para a criação de informação chocava-se não só com as noções usuais a respeito da natureza dos seres humanos como também com noções correntes acerca da natureza da informação. Sua análise sobre o processo da desmaterialização foi mal-entendida e criticada como cínica pelos próprios cínicos. Suas visões se baseavam na suposição de que o apocalipse, a grande catástrofe da história, já tinha acontecido.

Como Jean Baudrillard e Paul Virilio, Flusser desprezava os limites estreitos das disciplinas tradicionais, supondo-as distinções artificiais criadas pelo pensamento linear. Tentou o tanto quanto possível não registrar distinções sujeito-objeto em seu trabalho; argumentava que a realidade e a ficção só diferem no grau de probabilidade, não em essência, nesse ponto estabelecendo a sua diferença com Baudrillard. Enquanto o filósofo francês afirmava que a realidade propriamente dita está sendo confundida com sua própria imagem, corroborando a concepção da sociedade do espetáculo, de Guy Debord, Flusser não reconhecia diferença significativa entre imagem e realidade. Ele tinha aversão ao termo simulação, porque entendia implicar uma idéia do real teoricamente insustentável. Em toda a história o homem pôde supor o acesso ao real tão-somente através de simulações; o que chamamos de realidade é desde sempre um simulacro.

Na sua concepção tanto da realidade quanto do imaginário, portanto, a ironia tinha de ser parte constitutiva. Entretanto, a ironia maior é a do destino. Na República Tcheca onde nascera, Vilém Flusser permanecia desconhecido antes de o Instituto Goethe de Praga, dirigido por Andreas Ströhl, o convidar em novembro de 1991. Desde 1939, quando fugira da barbárie, Flusser não voltava à sua cidade natal. Naquele ano, improvisou pequena palestra na Dum fotografie (Casa da Fotografia) e fez uma conferência sobre a mudança de paradigmas no Instituto Goethe para um auditório abarrotado, que logo questionava tudo aquilo em que a sociedade tcheca pós-totalitária acreditava. Flusser descortinou os fracassos intelectuais de 50 anos, empolgando-se a tal ponto que de repente começou a falar português sem perceber.

Quando discorreu sobre seu sonho de seres humanos como projetos de programação, como seres sem teto e errantes, que têm de aprender a conquistar as máquinas, entender e dominar seus novos códigos digitais, a audiência protestou, assustada: “Mas só agora começamos a usar o telefone…”. Suas idéias pareciam absurdas e ininteligíveis àqueles acostumados a pensar com base em categorias políticas e morais. Ali estava algo novo, alguém que defendia que só o pensamento formal levaria a uma existência mais humana, enquanto que as revoluções seriam esforços tão inúteis quanto o próprio comunismo, porque presas em um paradigma linear e histórico.

Depois da conferência e seu sucesso atordoante, Vilém e Edith, sua mulher, junto com Andreas Ströhl, Michael Bielicky e Petr Rezek, passaram longa e alegre noite no Café Slavia. Seria a última noite de Vilém Flusser. No dia seguinte, depois de fazer um piquenique com Edith nos arredores de Praga, pegaram o carro para retornar à França -quando um caminhão branco apareceu de repente de dentro da neblina. O filósofo, nascido tcheco, naturalizado brasileiro, que escreveu vários livros em quatro línguas (alemão, português, inglês e francês), morreu na cidade em que nasceu no dia 21 de novembro de 1991.

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Gustavo Bernardo
É doutor em literatura comparada e professor de teoria da literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Publicou os ensaios “A ficção cética” (São Paulo: Annablume, 2004) e “A dúvida de Flusser” (São Paulo: Globo, 2002).

1 - FLUSSER, Vilém. “Pós-história”: 167.


2 - Em KRAUSE, Gustavo Bernardo & MENDES, Ricardo (orgs). “Vilém Flusser no Brasil”: 49.


3 - KRAUSE, Gustavo Bernardo & MENDES, Ricardo (orgs). “Vilém Flusser no Brasil”: 52.

 
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