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O nacionalismo é fenômeno recente pelo qual Flusser responsabiliza, além do Diabo, os pensadores românticos alemães. Se até certo momento a divisão da humanidade em “povos” era fato aceito como castigo pela construção da Torre de Babel, a partir dos românticos alemães se teria operado o milagre às avessas de rechear de luxúria um conceito vazio. A praga transforma-se em motivo de orgulho. A ironia do filósofo contabiliza: “É enormemente fecunda essa inovação introduzida pelo idealismo: já produziu pelo menos quatro guerras, incontáveis fornos de incineração, e revoluções sangrentas”. Alerta: “Como continuam acesas as chamas do amor patriótico em incontáveis corações, é impossível prever futuros resultados”. Prevê pela ironia os massacres hediondos que se dariam ao final do século, próximo à sua terra natal.

Edgar Morin constata que, apesar de todos os grandes problemas atuais transcenderem a competência dos Estados-nações, multiplicam-se e miniaturizam-se os Estados-nações -por quê? Porque a idéia de nação carrega conteúdo ao mesmo tempo moderno e arcaico. A pátria tem substância materno-paternal: simboliza o envolver da mãe, ligado à terra e ao lar, e a autoridade protetora do pai, encarnada pelo Estado. Perante a decadência da tribo, a pátria ressuscita complexo mitológico familiar que une os filhos da pátria em torno das armas e contra o inimigo da fronteira. A decadência da tribo é o desmoronamento simultâneo das promessas, de um futuro radioso pelo lado comunista, de uma sociedade industrial democrática pelo lado capitalista: por todo o lado em que se desmorona esse futuro o presente torna-se angustiado e doentio, facilitando o regresso às raízes étnicas, religiosas e nacionais.

Na histeria da guerra que começa e termina o século em Sarajevo, odeia-se um povo em vez de se combater um sistema ou um regime. A irrupção do etno-nacionalismo é demencial e deve ser combatida pela universidade, recuperando o valor da problematização renascentista, do diálogo entre os pares opostos, da racionalidade crítica e autocrítica, da resistência ao anátema, à intimidação e ao juízo de autoridade, da tolerância que concede o direito de expressão a idéias que julgamos erradas e encontra-se consciente de que o contrário de nossas verdades profundas são outras verdades profundas.

O nacionalismo é a contraparte política da episteme moderna. O esforço analítico da ciência por dividir os objetos para melhor dominá-los encontra sua manifestação política no esforço dos aparelhos estatais por dividir os povos em nações. Seguindo a trilha aberta pela ironia diabólica, a ira é a contraparte da luxúria. A ira seria o primeiro estágio de uma espécie de esquizofrenia, a ciência a forma histórica dessa doença, Descartes seu primeiro formulador teórico, e a vacuidade da ciência atual manifestação clínica palpável. O projeto da ira realizado nos últimos 400 anos é o de tornar a natureza objeto da mente, obrigando esta natureza a se comportar como um conjunto ordenado de coisas, causas e efeitos.

A escola ensina o mundo assim, professores pensamos acreditar que o mundo é assim, mas a vivência nos ensina que o mundo é diferente. A vivência “ensina o mundo como amontoado de acasos pelo qual se acotovelam as vontades dos seres vivos para penetrá-lo por seu esforço, e se tiverem sorte”. Esse é o nosso mundo duplicado: o mundo irado da escola, o mundo luxurioso da vida. Do lado irado, do lado do Doutor Jekill, estão as equações matemáticas e as relações necessárias; do lado luxurioso, do lado do Senhor Hyde, estão a sorte e o mérito, a vingança e o castigo, a luta e a vitória transitória, bem como a derrota definitiva na morte. É estranho, mas Hyde não é o irado; a ira é a prerrogativa do Doutor -que no limite revela a sua contraparte de acaso, instinto e fúria. A ira divide, cataloga, engaveta, entuba, arruma, analisa, separa e assim inventa o Eu.

A ira precisa de leis que tomem conta dos fenômenos. As leis podem ser encaradas como pontes “construídas de símbolos e ancoradas no caos” visando a transportar os acontecimentos por sobre o caos líquido na direção do futuro. Algumas dessas pontes, como as da física, pareciam muito sólidas, mas se descobriram fendas graves na infra-estrutura. Outras pontes, como as das ciências sociais, antes se assemelham àquelas de corda, dos índios peruanos: tremem entre estatísticas. “A única ponte ontologicamente válida”, para Flusser, “seria aquela que unisse fenômeno e símbolo, vivência e palavra” -mas essa ponte a ciência se confessa incompetente até de considerar, quanto mais de construir.

Por essa ponte inexistente vem passando dragão bastante perigoso e tão inexistente quanto. Termos perturbadores, como “indeterminação” e “indecidibilidade”, começam a solapar a ciência por dentro. O matemático Kurt Gödel demonstrou que a verdade nem sempre é demonstrável. As leis que nos deveriam reger e à natureza ora parecem efeitos ocasionais e não fundamentos, ora se mostram como subjetividade in extremis -organizam a organização do mundo, mas não o mundo.

Nossa mente treinada nas aulas de biologia e ecologia admira a perfeição da tal da natureza, porque todo passarinho tem a sua minhoca e todo gatinho tem o seu ratinho. Chamamos a isso “providência divina” -mas desconsideramos o ponto de vista da minhoca e do ratinho. A tal da natureza é brutal: todos os seres cantam e chilram, rosnam e grunhem, zunem e grasnam, mas não em louvor do Senhor: fazem-no em louvor da fome.

Comparando a ciência às artes plásticas, Flusser dirá que aos poucos e com dificuldade os cientistas vêm saindo do estágio da pintura ingênua para o estágio da pintura abstrata. Muito da obra do gravador holandês Mauritius Escher deriva das fórmulas de matemáticos como Roger Penrose. A declaração de outro matemático, Alan Turing, é emblemática: “Se se espera que uma máquina seja infalível, ela não pode ser também inteligente”. As ciências começam a descrer da realidade e a acreditar mais um pouco na própria vontade criadora. As ciências naturais começam não a conhecer a natureza, mas a se auto-reconhecerem na natureza. Nesse caminho, a física toma a frente ao abdicar de se definir verdadeira ou falsa, antes, consistente; o critério de avaliação passa a ser estético.

Em “A história do diabo”, Flusser lembra a mesa dos físicos modernos, demonstrando a sua inexistência concreta: a ciência já prova que “a mesa não é preta, nem dura, nem qualquer coisa, porque ela não é coisa”. A mesa não é cópia de um original platônico nem manifestação de fenômeno mental, a mesa não existe -o que existem são campos, um eletromagnético e outro gravitacional, logo, apenas estruturas complexas de virtualidades, estas sim, simples. Campos são estruturas imaginárias nas quais algo pode dar-se; é portanto em termos de potencial e probabilidade que devemos falar do mundo das aparências. O mundo dos fenômenos, levado à última equação, não existe: existe tal ou qual conjunto de regras.

O probabilismo é o eixo da teoria e da tecnologia quânticas de maneira mais radical do que supõem nossas idéias a respeito de como o mundo funciona. Postula-se um mundo “onde os computadores operam sem ser ligados e onde os objetos podem ser achados sem que se procure por eles. Onde um computador de potência inimaginável pode ser construído a partir de uma só molécula. Onde as informações se deslocam instantaneamente entre dois pontos, sem fios nem redes. Onde objetos distantes são examinados sem contato algum. Onde os computadores fazem seus cálculos em outros universos. E onde o teletransporte –me manda de volta Scotty- é algo prosaico, usado de várias formas diferentes”.

Em 1995, em Los Alamos, os físicos mediram a espessura de um cabelo humano usando laser que nunca chegou a ser lançado de fato sobre o cabelo -que apenas poderia ter sido. Esse resultado é bizarro porque parece contrário aos fatos, mas abriu novo campo: o da detecção sem interferência, quando se encontra sem procurar. É como se aquela situação de jamais encontrar uma chave quando se procura, para descobri-la logo depois de se desistir, se tornasse não uma curiosidade mas método científico.

A vontade criadora teria feito surgir a ilusão do Bem e do Mal, da Verdade e da Mentira, e portanto da Ilusão ela mesma, para tornar consistente o mundo ilusório. Para se permitir descansar no sétimo dia, a vontade criadora teria criado, na véspera, Deus e o Diabo. Deus e o Diabo são obras primas e complementares: emprestam a aparência de objetividade ao mundo. Sem eles, o mundo impõe-se obscuro, subjetivo e absurdo: “Sem Deus e sem o Diabo seria o mundo uma representação tediosa. Seria obviamente um idem per idem.

Nietzsche pretendeu decretar a morte de Deus. Tudo seria permitido, porque o Diabo teria morrido ao mesmo tempo. Mas, em todos os instantes em que jogamos fora, com a água do banho, as duas ilusões soberanas, a vontade não encontra resistência e se precipita no abismo. O dilema se configura porque o pensamento se depara com duas alternativas, ambas desagradáveis: ou articula equívocos, quais sejam, estruturas gramaticais ambíguas, e então produz ruído e não comunicação nem obra, ou articula universos, quais sejam, estruturas gramaticais precisas, e então produz o nada -silêncio.

Flusser relembra Wittgenstein: a língua é uma escada para alcançar a meta do silêncio, escada essa que precisa ser derrubada uma vez alcançada a meta. Se reconhecemos que, quanto mais falamos, menos dizemos, logo, mais diremos quanto menos falarmos -no limite, quando falarmos o nada. Quando tivermos aprendido o silêncio. Mas o silêncio, esse nirvana lingüístico, é perigosa soberba: aniquila o pensamento, ao desvelar a ilusão dos limites do mundo.

Toda a filosofia deseja o silêncio, que coroa a dissolução do Eu. Ainda que se fale na primeira pessoa do singular, deseja-se a dissolução do Eu na verdade perseguida. Os gregos antigos comparavam música a matemática, com o que a nossa sensibilidade grosseira não concorda: um campo pouco teria a ver com o outro, se música implica sons enquanto matemática implica silêncio. Todavia, quando conseguimos solucionar problema matemático intrincado ou quando certa vivência musical nos arrebata, percebemos a força mística das duas disciplinas: são ambas métodos de dissolução do Eu no Logos, suspendendo-nos aonde nenhum Eu jamais esteve:

“Sabemos que somos um nó criado pelo espasmo da língua, um erro da gramática, um mero ruído que empana a harmonia da língua. Somos uma dissonância que surgiu porque os aspectos lógico e musical da palavra foram dissociados. Somos um Eu, porque somos o ponto no tecido da língua no qual o aspecto lógico e estético da língua se chocam. Somos um Eu, porque interrompemos o fluxo da língua em sua procura pelo zero. Somos um distúrbio na pura estrutura, e é por isso que somos um Eu. É por isso que pensamos e é por isso que vivemos. Pensar é sinal de um erro lógico no tecido da língua. Viver é sinal de um erro estético no tecido da língua. Pensar e viver é sofrimento. Sofremos, e é por isto que somos um Eu. No nosso Eu a língua é sedenta por paz e por calma. Em nós a língua procura restabelecer o equilíbrio entre matemática e música, entre pensamento e vida. Somos um Eu, porque em nós a sede da língua por paz e por calma se manifesta. O nosso Eu é manifestação de sede. O nosso Eu é uma deficiência, o nosso Eu é doença. Pensar é doença e viver é doença. Aflitos por essa sede, por essa deficiência, por essa doença que é o Eu, sofremos. É devido a esse sofrimento que acreditamos poder pensar e poder viver, é por isso que queremos. Querer é sinônimo de sofrer, e vontade é sinônimo de Eu. Mas quando os dois aspectos da língua se reúnem, quando o logos se restabelece em sua plenitude, o sofrimento acaba. Somos salvos. O nosso Eu desaparece”.

Por isso a salvação é tão desejada quanto postergada. Por isso as representações vulgares do céu e do inferno são tão semelhantes e tão tristes. Não queremos sofrer, mas sem o sofrimento não se pode sequer querer. Uroboricamente, perseguimos pelo pensamento o fim do pensamento, pelo desejo o fim do desejo, pela escrita e pela ficção o fim da palavra. Talvez por isso Camus precise considerar Sísifo feliz: a cada vez deve deixar cair a pedra de volta ao vale, para descer e recomeçar sem que os deuses percebam que foram enganados.

1 - Discurso pronunciado na Universidade de Sarajevo, a 11/09/1993.


2 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 105.


3 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 110.


4 - Em PENROSE, Roger. “O grande, o pequeno e a mente humana”. São Paulo: Editora da UNESP, 1998: 123.


5 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 169.


6 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 175.


7 - CRICHTON, Michael. “Linha do tempo”. Rio de Janeiro: Rocco, 2000: 11.


8 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 181.


9 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 196.


10 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 199.


11 - N.d.R.: Uróboro: monstro que se devora pela própria cauda.

 
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