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dossiê
VILÉM FLUSSER

O diabo irônico
Por Gustavo Bernardo

"A História do Diabo" é, dentre os muitos livros de Flusser, aquele que desde o título firma a mais alta ironia

"Desde minha primeira infância, uma flecha de dor plantou-se em meu coração. Enquanto nele permanecer, sou irônico -se a arrancarem, morro.".


Essas palavras de Sören Kierkegaard são suficientes para dimensionarem a ironia. Vizinha da comédia, começa e termina na tragédia. Sabendo-se que por trás da realidade, como do espelho, não há nada, resta o exercício melancólico da ironia. Suspeitar, principalmente de si mesmo, é preciso -mas dói.

A ironia se define pela formulação do dever ser como se já o fosse quando o interlocutor sabe que não o é. Ao se afirmar uma falsidade que o interlocutor sabe que é uma falsidade, o contexto e suas pressuposições desfazem a falsidade e a transformam em uma verdade -irônica. Como na melhor ficção, o interlocutor e o leitor sabem que se diz “metáfora” querendo dizer “coisa”, dentro de um jogo de faz-de-conta-que-eu-não-sei-o-que-eu-sei que por sua vez é não apenas intelectualmente estimulante como epistemicamente necessário.

Merleau-Ponty enfatiza: “O sentido está para além da letra, o sentido é sempre irônico”. Levar esta formulação ao pé da letra supõe relações lúdicas com a filosofia -por isso Nietzsche terá sugerido com mordacidade que se tentasse classificar os filósofos de acordo com a qualidade do seu riso, o que aproxima a ironia do ceticismo: “O cético inquieto é um humorista em potencial; e o humorista em ato é um praticante lúdico do ceticismo”.

O filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser distingue a ironia barata, quando se disfarça sem necessidade, da ironia que deve “custar os olhos da cara”. A ironia exige ouvido atento porque é empregada numa batalha chamada “agonia”, como o prova a auto-ironia. O fraco para defender-se do forte corta-se ironicamente em pedaços, terminando por mostrar ao forte o quanto ele é fraco ao oprimir o fraco. Quando um judeu, à época do nazismo, brincava noticiando que um pastor alemão havia sido mordido por um agiota judeu, a ironia era a arma da sua agonia, atingindo a si mesmo como ao outro. A ironia, quando sabe voltar-se sobre si mesma, mostra não apenas o quanto é fraco o forte, mas também o quanto é forte o fraco.

A ironia é arma lingüística contra o nada: ficção contra ficção. A vida “é a ficção não há morte, e o pensamento é a ficção não há vida. Vivemos negando a morte e construímos a civilização, a família, o futebol e a cerveja aos domingos. Pensamos negando a negação anterior, tentando frear o fluxo do sempre diferente num quadro de categorias compreensíveis. Quando nos definimos como os únicos seres vivos que se sabem mortais (os elefantes que caminham à beira da morte para o mesmo lugar obrigam a duvidar também disso) nos distinguimos como seres irônicos. Nessa perspectiva, a vida não deixa de ser um teatro triste que todavia pode ser superado quando se assume a ironia como atitude existencial.

Dentre os muitos livros de Flusser, aquele que desde o título firma a mais alta ironia é “A história do diabo” -para Milton Vargas, trata-se da sua obra-prima. É o primeiro livro que escreveu, em alemão, traduzindo-o mais tarde para o português, mas o publicou depois de “Língua e realidade” (Herder, 1963; Annablume, 2004). “A história do diabo” foi publicada pela Martins Editora em 1965 e é finalmente reeditada agora, 40 anos depois, pela Annablume. Tem tradução alemã (“Die Geschichte des Teufels”, Göttingen: European Photography, 1993) e tcheca (“Pribek dabla”. Praga: GemaArte-OSVU, 1997).

Parodiando textos sagrados, Vilém faz um longo elogio do Diabo, “príncipe tão glorioso” que a tantos entusiasmou no decorrer da história humana, em louvor do qual tantos enfrentaram as chamas “com dedicação ardente”. Procura suspender os nossos preconceitos a respeito do Diabo para tentar conhecer esse personagem que identificará com a própria História: “É possível a afirmativa de que o tempo começou com o diabo, que o seu surgir ou a sua queda representam o início do drama do tempo, e que diabo e história sejam dois aspectos do mesmo processo”.

Chama de “influência divina” tudo o que procure superar ou negar o tempo, e chama de “influência diabólica” tudo o que procure preservar o mundo no tempo. Concebe o divino como aquilo que age dentro do mundo para dissolvê-lo e transformá-lo em puro Ser, logo, em intemporalidade. Por oposição, concebe o diabólico como aquilo que age dentro do mundo para preservá-lo, evitando que seja dissolvido. Do ponto de vista de Deus, o divino é o criador enquanto o diabólico é o aniquilador -mas do ponto de vista do homem no mundo o Diabo é o princípio conservador e Deus é o princípio destruidor. Cabe ao Diabo manter o mundo no tempo, o que nos força a simpatizarmos com ele: reconhecemos no Diabo espírito semelhante ao nosso, e talvez tão infeliz quanto o nosso.

Flusser estuda o Diabo seguindo a trilha da Igreja Católica, a partir dos sete pecados capitais -soberba, avareza, luxúria, inveja, gula, ira e preguiça- aos quais o Diabo recorreria para seduzir e aniquilar as nossas almas. Só que subverte a definição de cada um dos pecados, encarando a soberba como a consciência de si mesmo e campo das artes, a avareza como a própria economia, a luxúria como o instinto e a afirmação da vida, a gula como a luta pela melhoria da vida humana e campo da tecnologia, a inveja como a luta pela justiça social e pela liberdade política, a ira como a recusa às limitações impostas à vontade, portanto, como dignidade e campo das ciências, e a preguiça, ou tristeza, como o estágio superior alcançado pela meditação calma da filosofia.

A igreja evita uma hierarquização dos pecados: todo pecado inclui os demais, todos juntos formando uma torrente que conhecemos como civilização ocidental cristã. Mas o filósofo faz a sua hierarquização considerando a luxúria o primeiro pecado, por ter sido graças a ela que o Diabo se teria encarnado na matéria morta para negar a divindade. A preguiça, melhor dizendo, a tristeza, é considerada como o último e o maior dos pecados: nela, o homem se supera a si mesmo, fundindo-se com o Diabo graças à distância filosófica. A tristeza se sucederia à soberba, campo das artes, desenhando a quintessência do Diabo: a beleza.

Então, qual seria a quintessência de Deus? Parece, pelo desdobrar do argumento, que se trata do próprio Diabo: “Devemos levar resignada ou desesperadamente a nossa própria cruz, que no fim das contas é para todos a mesma: não podemos evitar que o onipotente seja sempre o Outro”.

Quando Deus criou céus e terra, arrancou um pedaço do puro ser para mergulhá-lo na correnteza do tempo. Sim, porque o que Deus criou primeiro, no início, foi o início, isto é, o Tempo -“o que não havia, acontecia”, como diz Guimarães Rosa na bíblica terceira margem do rio. A correnteza do tempo altera o ser, tornando-o fenômeno. Ora, se o Tempo se apresenta como princípio da modificação, do progresso, da transformação de realidade em imaginação, então o Tempo é o próprio Diabo.

Se o Senhor criou as formas de ver, terá criado junto o mundo fenomenal e o Diabo: deve-se “desconfiar de que o Diabo é mais que emanação de Deus, sendo instrumento d’Ele, uma de Suas táticas prediletas, uma convenção dramática sua”. Não à toa Freud chamara a religião de inimiga: “Dos três poderes (arte, filosofia e religião) que podem contestar o território da ciência, somente a religião representa um inimigo real”. Não sendo marxista, concordava com o jovem Marx que a crítica da religião fosse a premissa de toda crítica.

Para Peter Gay, a psicanálise não poderia ter sido fundada por um crente. Que Freud fosse judeu é menos relevante do que o fato de ser ateu. Ele não podia conceber um cientista crente, ou pior, reverente; enquanto as idéias científicas são por definição corrigíveis, as idéias religiosas, também por definição, seriam incorrigíveis. “Nem em minha vida privada nem em meus escritos”, disse ele um ano antes de morrer, “jamais fiz segredo de minha absoluta falta de fé”. Para fazer par com Flusser, observou: “A dúvida de fato é inseparável da pesquisa e, com certeza, ainda não nos foi dado conquistar mais que um pequeno fragmento da verdade”.

Vilém, entretanto, não encetou combate tão frontal contra a religião. Seu recurso constante à ironia deixava-o no mesmo campo daqueles escritores criativos que tanta inveja provocavam em Freud, por atingirem com golpes de imaginação as verdades psicológicas que o psicanalista lograria alcançar apenas através de muitas horas de paciente escuta dos analisandos. Por isso mesmo o filósofo não escreve contra Deus mas sobre o Diabo: um Diabo perigoso que se faz criminoso para ser artista, torna-se artista para ser criminoso, cria leis para poder infringi-las e infringe leis para poder criar novas leis.

O Diabo seria o responsável por tornar a vida líquida, não nos permitindo defini-la. Sua correnteza nos arrasta para longe da divindade, liquidificando os conceitos e borrando os limites das definições. Forjou uma arena para procriar vida, colocando em um canto a luxúria e no outro a inibição. A sexualidade humana, porque é disso que se trata, não é luxúria livre -se fosse livre, não seria luxúria, mas apenas cio. A liberdade reside ela mesma no pecare posse, na possibilidade de pecar: a tensão entre a luxúria e a inibição é, stricto sensu, o amor. Por isso, a expressão “amor livre” contém uma contradição em termos: o amor nunca pode ser livre, como pontua o narrador do romance “A doença da morte”, de Marguerite Duras: “Você pergunta como o sentimento de amar poderia sobrevir. Ela lhe responde: talvez de uma falha súbita na lógica do universo. Ela diz: por exemplo de um erro. Ela diz: jamais de um querer”.

A liberdade, como tudo o que o Diabo cria, é paradoxo: a liberdade realizada transforma-se em escravidão porque elimina a margem de escolha e a possibilidade de pecar. A liberdade é o apanágio de seu avesso, isto é, do nacionalismo. O nacionalismo, ou o amor à nação, é um substitutivo ao amor à mulher -não à toa os nacionalismos são forjados a partir do romantismo. Para o cristão medieval a mulher é o próprio pecado, metonímia da carne fraca. Para Flusser, entretanto, podemos reconhecer por detrás do rosto da mulher amada o fundamento intemporal: é como se as portas do céu se entreabrissem junto com os olhos dela. O instante em que isso acontece é fugaz mas precioso, ameaçando o próprio Diabo -e então Flusser começa a voltar a ironia contra o seu príncipe, puxando o tapete sob os seus cascos.

O nacionalismo é a máscara romântica e diabólica da luxúria. A mente nacionalista comporta-se como se não fosse pecaminosa, enchendo o ar com exclamações altissonantes como se fosse a própria voz da consciência tranqüila. Cantam-se hinos militares a plenos e emocionados pulmões enquanto se mata quem nunca se tinha visto antes, ou enquanto se morre nas mãos de quem não nos conhece. Por isso, pode-se afirmar que “o nacionalismo é uma das vitórias mais impressionantes do diabo”:

“Comparemos o amor ao povo e à nação com o amor à mulher, para podermos admirar o progresso do diabo. Reencontramos intacta a languidez, o êxtase orgiástico, os gestos românticos, a conversa fiada, e o gosto do teatral e da inautenticidade. Mas faltam todos os traços que fazem periclitar a posição do diabo no campo do amor à mulher, por uma razão muito simples. O novo objeto do amor, o ‘povo’, ou a ‘nação’, é um objeto inteiramente fictício. O problema ontológico do amor à mulher é um problema de reconhecimento. Se não reconheço a mulher que amo ela é, para mim, uma ficção pecaminosa. Se a reconheço, torna-se caminho rumo ao transcendente. Mas o ‘povo’ é um conceito sem fundamento (‘bodenlos’), e nada posso reconhecer nessa ficção deliberada. Tentativas de fundamentar o ‘povo’, empreendidas por diversas ciências, e pela vivência romanticamente poética, são todas tentativas ad hoc construídas. O ‘povo’ não passa de um chavão barato. Não é portanto possível uma autêntica dedicação e um autêntico sacrifício no amor a ele. O diabo não corre riscos no nacionalismo. Os gestos patrióticos que copiam dedicação e sacrifício são inócuos e não representam perigo. O nacionalismo é uma secreção sublimada de testículos estancados, e mesmo assim consegue, periodicamente, insuflar orgasmo extremo”.

1 - Em LAMBOTTE, Marie-Claude. “Estética da melancolia”. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000: 51.


2 - Em NUNES, Benedito. “No tempo do niilismo”. São Paulo: Ática, 1993: 65.


3 - NUNES, Benedito. “No tempo do niilismo”: 138.


4 - O filósofo judeu Vilém Flusser nasceu em 1920, em Praga, na antiga Tchecoeslováquia. A invasão nazista força-o a fugir para o Brasil em 1939. Seu pai, sua mãe e sua irmã são assassinados pelos nazistas. Em São Paulo, trabalha na indústria e no comércio até perto de 1960, quando passa a se dedicar à filosofia. Leciona na FAAP, no ITA e na USP, ao mesmo tempo em que escreve para os jornais “Folha de S. Paulo” e “Estado de S. Paulo”. Publica, primeiro em português e depois em várias línguas, mais de 30 livros. Na verdade escreveu quase todos os seus livros já em quatro línguas, e nessa ordem: alemão, português, inglês e francês. Não escrevia em tcheco. Em 1973 muda-se para Robion, na França, quando passa a publicar na Alemanha e a ser reconhecido como filósofo das novas mídias. Sua filosofia da fotografia, publicada no Brasil como “Filosofia da caixa preta”, é editada primeiramente em alemão e depois em português -encontra-se traduzida em 13 línguas. Morreu em 1991.


5 - FLUSSER, Vilém. “Ironia”. “Folha de S. Paulo”, 26/02/1972.


6 - FLUSSER, Vilém. “Da religiosidade”. São Paulo: Comissão Estadual de Cultura, 1967: 88.


7 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1965: 15.


8 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 17.


9 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 19.


10 - SAVATER, Fernando. “Criaturas del aire”. Barcelona: Ediciones Destino, 1989: 61.


11 - HANSEN, João Adolfo. “A ficção da literatura em ‘Grande sertão: veredas’”. São Paulo: Hedra, 2000: 93.


12 - Em GAY, Peter. “Um judeu sem Deus”. Rio de Janeiro: Imago, 1992: 60.


13 - Em GAY, Peter. “Um judeu sem Deus”: 52, 71.


14 - DURAS, Marguerite. “A doença da morte”. Rio de Janeiro: Taurus, 1984: 52.


15 - FLUSSER, Vilém. “A história dodiabo”: 75.


16 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 79.


17 - FLUSSER, Vilém. “A história do diabo”: 81.

 
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