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novo mundo

O vigor da arte avant-pop
Por Juliana Monachesi


"Natureza morta", trabalho de Eder Santos
Divulgação

Exposição do videoartista Eder Santos faz parte de uma nova ecologia cultural e midiática

Em que chave crítica pode ser entendido um trabalho em vídeo que se propõe a ser nada mais que um quadro na parede? Pós-moderno? Cínico? E quando este “quadro” parece (mais) uma releitura da “Santa Ceia”? Paródico? Herege?

Refiro-me à videoprojeção “The last supper”, de Eder Santos, que está sendo exibida neste mês em mostra individual do artista mineiro, intitulada “Ilha - Roteiro amarrado”, na galeria Brito Cimino.

Convém, para fins de análise, separar “The Last Supper” dos outros nove vídeos apresentados na exposição. É o trabalho mais didaticamente associado à tradição pictórica e, segundo o próprio artista, aquele em que levou mais longe a “brincadeira” de fazer vídeos como se fossem quadros na parede, ou “quadros digitais”, como ele os chama.

Treze pessoas, que foram escolhidas pelo nome –Pedro, Paulo, Mateus etc.-, estão sentadas à mesa, de frente para o espectador, comendo e fazendo outros gestos contidos. A movimentação se dá principalmente pelo uso de camadas sobrepostas.

Os pés chamam mais a atenção nesta estranha encenação da ceia, porque por vezes estão desconectados dos corpos na sobreposição videoclípica de imagens. A perspectiva foi obtida por uma leve suspensão da mesa e é complementada por desenhos de fundo, assinados pelo pintor Marco Giannotti.

A primeira referência que vem à mente é o videoartista norte-americano Bill Viola e sua série de releituras (em vídeo) de pinturas clássicas. Entretanto, diferentemente de Viola, o trabalho de Eder Santos não é uma apropriação de uma obra específica, “A Última Ceia”, de Leonardo da Vinci, por exemplo, com uma cuidadosa reconstituição e tradução para o meio eletrônico (ou digital) da pintura em questão. Tampouco se trata de pastiche ou paródia.

Pastiche e paródia, releitura e tradução, citação e metáfora pressupõem um autor comprometido com esses objetivos. Basta pensar em Frank O’Gehry ou em Baz Luhrmann e seus monumentos ao kitsch ou, tomando emprestada a expressão de Frederic Jameson, suas “transcodificações alegóricas”.

O “Romeu + Julieta” de Luhrmann causou celeuma ao traduzir a história de Shakespeare para os tempos atuais, mantendo a linguagem original da peça. A crítica de cinema se dividiu entre entusiastas de “Moulin Rouge” e detratores da ópera pós-moderna.

Nesta pendenga, Eder Santos está para Bill Viola, assim como Quentin Tarantino está para Baz Luhrmann. A produção recente de Santos, como a de Tarantino, é tributária de uma aposta na cultura pop -nos moldes em que o artista e teórico Mark Amerika conceitua como “avant-pop”, ou seja, contra uma visão apocalíptica das mídias de massa, uma produção que descarta o paradigma da “arte séria” ou “alta cultura” para abraçar os pressupostos de uma arte feita em tempos de reprodutibilidade, troca de informação e sampleagem.


A idéia de “criação artística”, em um tal contexto, não tem mais relação com originalidade e autoria, mas, antes, se refere à capacidade de filtrar informações e, por assim dizer, promover uma ecologia cultural e midiática. No manifesto “In memoriam to post-mosdernism”, Mark Amerika e Lance Olsen definem assim o papel do artista:

“Uma das principais crenças do pós-modernismo é: eu, quem quer que seja este, junto pedaços de dados e formo um texto, enquanto você, quem quer que seja, produz seu próprio significado com base naquilo que traz para este texto. Um dos mais importantes princípios do avant-pop é: eu, quem quer que seja, estou sempre interagindo com os dados criados pelo coletivo, quem quer que seja este, e por meio da interação e da ampliação deste coletivo, vou encontrar significado.

Em uma Era dos Dados em que nos arriscamos a sofrer de saturação informacional, uma cura é uma altamente potente, criativamente filtrada tônica de resíduo (sim) textual (ou multimídia) que transborda das profundezas de nosso inconsciente espiritual. Criar uma obra de arte vai depender mais e mais da habilidade do artista para selecionar, organizar e apresentar os pedaços de dados crus que ele ou ela tem à sua disposição. Todos nós sabemos que a originalidade está morta e que nossas realidades virtuais contaminadas são já readymades e prontas para o consumo!

Qual melhor definição para “Kill Bil” do que uma filtragem criativa e potente do lixo cultural do Ocidente? Filmes B esguicha-sangue + Bruce Lee de terceira + estética da luta coreografada + cultura oriental empacotada (importação do mangá etc.) +...

“Kill Bil” é um readymade cinematográfico, uma colagem digital. Estava pronto (como criação coletiva) e tudo o que o diretor fez foi juntar as partes. Se Luhrmann é pós-moderno, Tarantino é avant-popster. Seguindo essa lógica, Bill Viola é pós-moderno e Eder Santos é avant-popster.

“Trocadilhos infames” e “easy art” são alguns dos epítetos que Eder Santos encontrou para designar seus novos vídeos. O impulso catalogatório funciona tanto como mais uma brincadeira -neste caso uma espécie de auto-ironia, uma vez que o artista trabalha sempre na intersecção entre imagem e palavra, compondo hai-kais e pequenos poemas que funcionam como elementos narrativos em seus vídeos-, quanto como denúncia da ausência de vocabulário crítico para dar conta de determinadas produções artísticas.

Eder Santos é conhecido por negar, fazendo uso de complexas projeções em objetos tridimensionais, o cânone da tela como janela para o mundo. Cânone este que o cinema herdou da fotografia, e esta, da tradição pictórica. Cânone este também que se espraia largamente por todos os sistemas de visualização conhecidos (televisão, computador etc.).

Nas obras de “Enciclopédia da ignorância” (2003), sua exposição individual anterior na galeria Brito Cimino, por exemplo, havia projeções dentro de uma pia e em cima de um granito.

Na obra “Memória” (2001), apresentada na mostra Estratégias para Deslumbrar, na galeria do Sesi, a projeção era em uma cristaleira. Ainda em 2001, Eder Santos participou da Rede de Tensão, exposição comemorativa dos 50 anos da Bienal Internacional de São Paulo, mostrando a obra “Planetarium”, em que as imagens projetadas dentro de um iglu eram vistas por quem se deitasse sobre almofadas no chão.

O trabalho “Cama” (2001), feito para a mostra Território Expandido, no Sesc Pompéia, pedia do visitante também que se deitasse para ver a projeção no colchão de cima de um beliche.

Em sua atual exposição individual, “Ilha - Roteiro amarrado”, tudo isso cai por terra. Ou vai por água abaixo. Não se trata de, como em obras anteriores, questionar o suporte, quebrar paradigmas de narrativa ou de visualização.

No entanto, aqui, onde ele é supostamente mais convencional, é onde inova, reconfigurando seus procedimentos de acordo com o regime das metaformas.

Metaforma é como Steven Johnson, autor de “Cultura da Interface”, entre outros livros, chama os formatos intermediários entre uma mídia e outra que surgem em momentos de transformação extrema provocada pelo advento de uma nova tecnologia.

As metaformas bebem na fonte das mídias anteriores, modificando-as e sendo por elas modificadas. As metaformas parasitam uma determinada mídia, alimentando-a com um novo e insuspeito fôlego.

Parasitário da pintura, o trabalho de Eder Santos atualiza-a nos termos da cultura digital de maneira peculiar, pois, ao propor fazer vídeo como janela para o mundo, acaba por produzir sua metaforma-prima.

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Um passeio pela ilha de Eder Santos

Landscape (Paisagem em Fuga)

Smoke area
As imagens são de Mestre, última cidade continental antes de chegar a Veneza; o título brinca com a hipocrisia das “áreas para fumante” em um contexto de poluição generalizada.

Mauvais road
A trilha é de Arnaldo Antunes, com trechos invertidos e toda remixada por Eder Santos. Antunes compôs uma música também para outro vídeo da exposição: “Natureza morta”.


Easy Art

Mulher na janela
O jogo de texturas dos trabalhos de Eder Santos é exacerbado aqui, por um contraste acentuado; a trilha, de Stephen Vitiello, não tem nada de easy-listening.

Altura
A escultura de Jesus crucificado parece mineira, mas foi encontrada na França; a trilha é de Paulo Santos sobre fundo de Stephen Vitiello.


Barroque ghost (A geografia das sombras)

Mulher na janela II
Eder Santos rastreia a preocupação com a idéia de janela ao seu trabalho no Arte/Cidade de 1994, em que cenas captadas da janela de um trem eram projetadas sobre um monte de terra.

A última ceia
Produção da emvideo, de Eder Santos, em parceria com o sócio Evandro Rogers, que assina a fotografia e a museografia de diversos projetos do artista.


Natural states (A natureza das coisas)

Natureza morta
Na leitura de Nelson Brissac: “Os cacos de vidro assentados no topo de um muro configuram uma paisagem juncada de espelhos, um ambiente feito de cristais ou linhas computadorizadas”.

As obras do Sr.
Trecho do vídeo “Essa Coisa Nervosa” (1991), em que Eder Santos questiona a maneira como as mídias são percebidas. O título vem de um comentário sobre o Cristo Redentor em obras.


Story telling (Trocadilhos infames)

Delicadeza
Trecho do curta-metragem homônimo em 35 mm, feito em 2004 por Eder Santos e Sandra Duarte Penna. Maria Luiza Mendonça e Mônica Ribeiro são as atrizes.

Janaúba
Trecho de filme homônimo, de 1993; o contraplano do cavalo não existia na versão original; “o demônio da rua no meio do redemoinho não quer pactos com estranhos”.

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Três perguntas para Eder Santos


Por que Ilha?

Eder Santos: Cada uma tem uma coisa fechada, mas funciona no conjunto, como um arquipélago. Também pelo meu fascínio com essa dicotomia entre água e terra... Se bem que esta ilha acabou meio seca, porque a maioria dos vídeos se passa em terra.


Que equipamento utiliza? E efeitos?

Eder: Uma Sony PDX-10. Os efeitos que eu uso são os mais simples. Meus assistentes costumam se assustar com a precisão do slow motion que eu peço. Sou muito específico.


Qual a diferença entre fazer cinema e vídeo?

Eder: É como a diferença entre montanha e mar. Eu gosto daquela coisa barroca de observar um mar de montanhas: elas dão a impressão de infinito. Já o mar, quando filmado, vira uma imagem chapada, perde toda a profundidade.

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link-se

Eder Santos - http://www.uol.com.br/edersantos/
Bill Viola - http://www.billviola.com/
Mark Amerika -http://www.markamerika.com/
In Memoriam to Post-Modernism, de Mark Amerika e Lance Olsen - http://www.altx.com/memoriam/pomo.html
Galeria Brito Cimino -http://www.britocimino.com.br/
Produtora emvideo -http://www.emvideo.com.br
Eletronic Art Intermix - http://www.eai.org
Um escultor de Imagens -http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1663,1.shl

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Juliana Monachesi
É redatora-colaboradora do caderno "Mais!", da "Folha de S. Paulo", e mestranda em Comunicação e Semiótica na PUC-SP.

1 - “Ilha - Roteiro amarrado”, exposição de Eder Santos na galeria Brito Cimino (r. Gomes de Carvalho, 842, São Paulo, tel. 0/xx/11/3842-0634). De terça a sábado, das 11h às 19h. Até 23/04/2005.


2 - Leia no final desse artigo uma descrição de cada um dos projetos expostos.


3 - Confira: “Um escultor de imagens”, sobre “A enciclopédia da ignorância”, acessível no “link-se”, no final deste artigo.

 
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