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ATLÂNTICO

Oceanos da representação negra
Por Paula Alzugaray


"Coluna laser III - Pier", de Daniel Lima
Divulgação

Na Mostra Pan-africana de Arte Contemporânea, realizada em Salvador, o debate é mais político do que o estético

"O navio continua a ser talvez o mais importante canal de comunicação pan-africana antes do aparecimento do disco long-play." A frase do sociólogo britânico Paul Gilroy, no livro “O Atlântico negro” (1993), situa a viagem através do oceano Atlântico como o ponto de vista ideal para analisar a questão da identidade negra: ou seja, desde uma perspectiva intercultural. O mesmo mar por onde passaram experiências de violência, exílio e desenraizamento de povos africanos foi o ponto de partida para a curadoria da Mostra Pan-africana de Arte Contemporânea.

Até 17 de abril, este painel de representações da identidade negra reúne, no Museu de Arte Moderna da Bahia e na Sala Walter da Silveira, em Salvador, cinco instalações de artistas visuais afrodescendentes e uma mostra de 18 longa-metragens do Fespaco - Festival Pan-Africano do Cinema e da Televisão, de Ouagadougou, em Burkina Fasso.

Parceria entre a Fundação Palmares e a Associação Cultural Videobrasil, a mostra insere-se em uma discussão mais política do que estética, praticada ao longo de todo o século 20 pelo pan-africanismo, movimento engajado na articulação de um elo identitário entre povos de origem africana instalados nas margens do Atlântico.

Em contribuição ao debate, as obras selecionadas pela curadoria de Solange Farkas lançam a questão: o elo pan-africano deve partir da imagem de uma África primitiva ou da idéia da identidade como um processo em movimento, que transforma heranças e incorpora as modificações que acontecem durante a viagem?

"O que está em discussão na mostra é a relação entre afrodescendentes. Dentro disso, eu podia ter optado por vários caminhos, desde trazer o que supostamente a Bahia queria ver: a África imaginária, tribal, associada à raiz. Mas isso é exatamente o que deve ser modificado, e a idéia dessa exposição é, sobretudo, começar a dessacralizar essa África mítica", diz Solange Farkas, que conhece o tema desde que montou em São Paulo a Mostra Africana de Arte Contemporânea, em 2000.

Nos cruzamentos atlânticos propostos aqui, encontramos desde o engajamento do angolano Antònio Ole, a tal ponto comprometido com a recuperação da memória, que afirma caber ao artista o papel do historiador, até o desprendimento do paulistano Daniel Lima, cujos trabalhos olham para outros mares: pontos de tensão no cotidiano hoje.


Escravidão e outras histórias

"A memória é algo que chamo de possessão simbólica do passado", diz à Trópico a curadora e historiadora da arte norte-americana Cheryl Finley, convidada para o ciclo de debates. "A possessão simbólica do passado é uma necessidade que os artistas da diáspora têm de voltar para um determinado ponto de seus passados. Não apenas para discutir a escravidão, mas também outros acontecimentos históricos que podem ter sido muito violentos, ou ter levado a mudanças político-sociais."

Essa é a direção do olhar de António Ole, que iniciou carreira na década de 1970, em Luanda (Angola), mas acentuou o discurso político quando estudou cinema nos Estados Unidos e realizou um filme sobre os conflitos raciais do Sul do país. Hoje, imbuído da tarefa de reescrever sua própria história, Ole vasculha arquivos e apropria-se do que chama de "páginas de esquecimento". Utiliza como matéria-prima jornais da colônia, boletins da burocracia policial e todo tipo de documentação da repressão para transitar entre a época que a Angola era um entreposto do tráfico de escravos e os anos da guerra civil que devastou seu país. "Sou contra a amnésia. Para que possamos passar para uma outra etapa, temos de olhar para o passado", está dizendo António Ole, ao montar as estruturas totêmicas da instalação “Hidden pages, stolen bodies”, com louças enferrujadas, ossos de animais e objetos trazidos por correntes marítimas. Vale notar que, por mais que esteja se referindo à realidade social do negro em seu país, da maneira como monta suas estruturas -algumas lembrando até máscaras tribais-, Ole está traçando um elo forte com a África ainda primitiva.

Mais antenado com a idéia da dessacralização, Daniel Lima, artista nascido em Fortaleza e radicado em São Paulo, lança um raio de luz em direção à África, mas não almeja chegar lá. Com sua instalação "Coluna Laser III - Mar, 2005", mostra-se mais interessado na dissipação da luz e da identidade. "Meu trabalho diz que não é possível encontrar essa identidade apontada. Tentei indicar a falta de lugar", diz Daniel Lima.

Nesse sentido, trabalha como um contraponto à maioria das obras expostas. "O que acho fundamental em termos de ação e posicionamento do artista é ele entender o contexto em que está. E, ao pensar o presente, eu me deparo com o racismo", diz o artista, que participou de um trabalho com o coletivo Frente 3 de Fevereiro, sobre o racismo policial em São Paulo.


Turismo de raiz

Daniel Lima não faz o caminho de volta à África, ao contrário da tendência atual do "turismo de raiz", apresentada por Cheryl Finley em sua palestra e no texto "Autenticando masmorras, branqueando castelos". Segundo Finley, o turismo cultural de raiz, praticado por afro-americanos em viagem a países africanos, aponta para a necessidade de um "retorno simbólico" à terra natal e um contato com os monumentos e memoriais da violência sofrida.

Cheryl Finley constrói seu texto apoiando-se sobre o significado da palavra akan "sankofa": "Para ir adiante é preciso retornar ao passado". "Quando escreveu sobre fotografia nos anos 1920, Walter Benjamin falou sobre os pedaços de histórias que emergem em momentos de perigo. É isso que os artistas visuais da diáspora negra estão fazendo. Não estão vivendo o passado, estão usando seus conteúdos simbólicos para resgatar suas posses. Usam a memória como ferramenta estética", diz ela. Dentro desse partido estético, denominado por ela como Contemporary Diaspora Arts Movement, estariam inseridos o mineiro Eustáquio Neves e a cubana Maria Magdalena Campos-Pons, residente em Boston, que utilizam ícones da escravidão.

“Fios de memória”, a videoinstalação apresentada por Maria Magdalena Campos-Pons, não faz uma remissão direta ao passado. Realizada em uma residência artística na Noruega, o trabalho nasceu com o título de “Mil maneras para decir adiós”. Em narrativas múltiplas, desenvolvidas em cinco canais de vídeo, fala sobre similaridades, encontros e a criação de laços afetivos entre povos tão distantes quanto os nórdicos e os cubanos. É um trabalho interessante, precisamente pelas camadas de leitura que se abrem para além das questões do pan-africanismo.

Mas, Magdalena Pons tem seus momentos de engajamento. Na série de Polaroids "Nesting", ela toca em questões ligadas ao feminismo, seu outro terreno de atuação política. Em “When I am not here. Estoy allá”, quatro trípticos de Polaroids, ela se auto-retrata vestida de símbolos de carga mágica e religiosa, que poderiam ter correspondência em qualquer cultura da diáspora, de Dakar a Salvador.

Os auto-retratos de Magdalena Pons fazem conexão imediata com, por exemplo, as fotografias de estúdio do baiano Mario Cravo Neto, que, mesmo não sendo afrodescendente, é iniciado e profundo conhecedor da mitologia afro-brasileira. Assim como o baiano, a cubana Pons parece querer restabelecer o elo entre o homem e a natureza, o homem e a sua raiz, o seu lugar original.

O fotógrafo Mario Cravo Neto, que há três anos começou a trabalhar com vídeo e criou para essa mostra sua primeira videoinstalação, “Somewhere over the rainbow”, é, portanto, uma presença política na exposição. "O objeto da curadoria é a representação da identidade negra. Mario Cravo Neto trabalha isso com muita propriedade e foi o primeiro artista que convidei, para mostrar que a discussão aqui não é uma questão de pele", diz Solange Farkas.

A sentença de que "negritude não é uma questão de cor de pele" ecoou entre diversas vozes que participaram dos debates promovidos nos dias 19 e 20 de março. "O Joel Zito tocou num ponto fundamental: no Brasil ou onde quer que tenha uma população miscigenada, é importante falar da multiracialidade", completa a curadora.

Ativo debatedor da condição social do negro no Brasil, Joel Zito Araújo já foi chamado de Spike Lee brasileiro. Autor do documentário “A negação do Brasil”, crítica feroz ao racismo e à rejeição da mestiçagem em telenovelas e no cinema brasileiro, o cineasta apresentou nessa Mostra Pan-Africana seu primeiro longa-metragem de ficção, “Filhas do vento”, com quase a totalidade do elenco e da equipe técnica composta por negros.

Apesar de sua eficiência dramática questionável, o filme é um libelo político contra o preconceito, na medida em que enfoca os problemas comuns vividos pelos membros de uma família negra de classe média. "Como realizador, quero contar histórias que resistem, revelar tradições que foram relegadas ao campo do folclore", diz ele.

A imagem a serviço da narrativa de histórias é o intuito da fotografia documental apresentada por quatro fotógrafos senegaleses que participaram em 2004 da V Bamako - Encontros da Fotografia Africana: Exposição Nacional do Senegal. Trazidas por Koyo Kouoh, curadora do evento, as quatro séries procuram mostrar uma África desmitificada, real e corrente, mas, no fim das contas, permanecem no âmbito do fotojornalismo.

Já o fotógrafo mineiro Eustáquio Neves, compartilhando da mesma vontade de recontar histórias, mostra uma relação com o real mais irrequieta e experimental. "Não ando com uma câmera fotográfica. Ouço histórias e crio imagens a partir delas", conta ele. Neves obtém suas narrativas a partir da justaposição de até 15 negativos em uma mesma imagem final.

Para essa mostra, criou uma instalação sonora com fotografias de quatro séries pré-existentes. Uma delas, “Boa aparência”, relaciona textos atuais e da época colonial, que exprimem julgamentos a respeito da aparência física de homens negros. Como António Ole, Neves manipula extratos de imagens oficiais para construir sua visão do passado.


Navegar é preciso

Sob o ponto de vista da viagem, a identidade é sempre um conceito em dispersão. Nos anos 20, a escritora e colecionadora de arte Gertrude Stein (1874-1946), nascida na Pensilvânia, criada na Áustria e estabelecida em Paris, já indagava: "Para que servem as raízes se não podemos levá-las conosco?".

A mostra apresenta alguns dos destinos que tiveram as raízes negras fora da África. Nos debates, predominou a idéia de que o hibridismo cultural é a alma da estética diaspórica e que a expectativa de uma especificidade baseada na noção de raça está fora de contexto. "É tão absurdo falar da África em seu conjunto quanto falar da América Latina em seu conjunto, ou da Europa em seu conjunto", disse o escritor angolano José Eduardo Agualusa.

A tese da pesquisadora Zita Nunes, nascida em Cabo Verde e radicada em Washington, nos EUA, que aplica o conceito de antropofagia do modernismo brasileiro ao debate sobre a formação da identidade negra norte-americana, aponta neste sentido. "Toda tentativa de projetar uma identidade racial depende de um modelo de incorporação através de assimilação. Mas essas tentativas negam que o processo produz um resto rejeitado, que resiste à incorporação. Esse resto pode ser chamado de negritude. Não adianta tentar descobrir uma identidade abrangente, sem os restos. Temos que encontrar uma relação que não tem como base a identificação, mas a incompreensão", afirma ela.

Mostrando-se, em geral, debruçados sobre o sentido da palavra "sankofa", os artistas dessa Mostra Pan-africana de Arte Contemporânea revelam entre si mais afinidades do que dissonâncias. A gravura de um navio negreiro, utilizada na fotografia de Eustáquio Neves, ecoa na “Canoa quebrada” de António Ole, que carrega os documentos da repressão policial. O barco também aparece no cinema, no longa-metragem "Esperando a felicidade", de Abderrahmane Sissako, que passou na mostra do Fespaco. O filme da Mauritânia, no entanto, atualiza o tema da travessia.

O filme trata da condição transitória do jovem Abdallah, que espera em uma pequena vila sua vez de fazer a travessia -ilegal- para a Europa. Nesse espaço de tempo, ele observa a realidade local: a vida arraigada de um velho pescador obrigado a tornar-se eletricista, a paixão entre o vendedor ambulante coreano e a moça nativa, a televisão com conteúdo estrangeiro, a tradição do canto árabe passada de mãe para filha. Delicado e comovente, o filme expressa as novas diásporas e os sinais de uma cultura em trânsito permanente. É o retrato de uma identidade híbrida.

 
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