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política
HISTÓRIA

Todos os peões do presidente
Por Marcos Nobre

PT faz 25 anos, mas ainda é cedo para saber se o partido será o segundo pólo aglutinador da política

Quem assistiu ao documentário “Entreatos”, de João Moreira Salles, talvez tenha percebido como o filme se fixa repetidas vezes no momento da escolha da gravata a ser usada por Lula. Essa obsessão com a gravata, entretanto, já é a do presidente: o documentário de Moreira Salles não é sobre um candidato, mas sobre um candidato com sua eleição já assegurada.

O documentário de Eduardo Coutinho, “Peões”, ao contrário, conta a história dos sem-gravatas, conta a história dos ombros que carregaram Lula até o palanque do estádio de Vila Euclides e de lá até a Presidência da República e que ficaram pelo meio do caminho. É essa a história que explica o caminho do PT desde sua fundação até o Palácio do Planalto.

Muito já se falou sobre a novidade histórica do PT. Era um partido nascido de baixo, que não queria imitar os modelos nem dos partidos comunistas tradicionais nem dos partidos social-democratas então existentes. Um partido que pretendia ser "caixa de ressonância dos movimentos sociais" sem que isso significasse transformar seus quadros em meras "correias de transmissão" de movimentos reivindicatórios organizados.

Essa novidade era fruto de uma convergência histórica inteiramente nova: sindicalismo independente de setores de ponta da economia, comunidades de base da Igreja Católica com forte influência da Teologia da Libertação, resistência à ditadura militar e redemocratização, um momento de intensa crítica aos partidos de esquerda tradicionais, um país que cresceu às taxas assombrosas de um "milagre econômico" de pés de barro, e um período internacional de relativa distensão entre as então chamadas "superpotências", com importantes acordos de desarmamento nuclear.

Por tudo isso, o PT surgiu como um movimento (mais que um partido em sentido estrito) que poderia, enfim, civilizar o país, conquistando tanto distribuição de renda quanto efetiva renovação política. A conquista do poder de Estado aparecia então como uma conseqüência da força e do crescimento do movimento social e não como o objetivo primeiro de sua existência. Um movimento que pretendia democratizar de alto a baixo a sociedade brasileira, talvez como nenhum outro antes dele no Brasil.

Guardadas as devidas proporções e com algumas décadas de atraso, parecia que teríamos finalmente o nosso Partido Comunista Italiano (PCI), um partido comunista heterodoxo que foi responsável em grande medida por fazer da Itália do pós-guerra o que é hoje.

Como o PCI antes dele, também o PT demonstrou uma enorme capacidade de crescimento, tanto como referência na organização dos movimentos sociais e do sindicalismo (a CUT, criada em 1983, foi quase que exclusivamente obra sua), quanto no campo eleitoral (em 20 anos, passou de 5 deputados federais eleitos para 90). Também como o PCI antes dele, o PT contou com o decisivo apoio de parte da base da Igreja Católica para se espalhar pelo Brasil.

Mas as semelhanças param por aí. A Itália viveu um ciclo de crescimento praticamente ininterrupto por quase 40 anos no pós-guerra. Recebeu financiamento para a reconstrução ao final da guerra e participou desde o início da construção da comunidade econômica européia. A perspectiva de que, a cada vez, a geração seguinte iria mais longe do que a anterior era dada como certa. O padrão de produção (chamado de "fordista") permaneceu mais ou menos constante durante todo esse período. O investimento estatal em educação foi de tal magnitude que a educação básica italiana permanece até hoje referência mundial de qualidade.

O período do pós-guerra também foi palco da consolidação e do aprofundamento institucional da democracia de massas na Itália, de tal modo que a aparentemente interminável sucessão de gabinetes de governo do parlamentarismo não prejudicava nem o funcionamento do Estado nem da economia. Além disso, os italianos construíram uma esfera pública política extremamente ativa. E o PCI desempenhou um papel decisivo na construção de cada uma dessas conquistas históricas.

É claro que o Brasil não fica na Europa, é um país dependente e não tem a milenar história da península italiana. Mas é decisivo lembrar que, nos últimos 25 anos da história brasileira, a economia andou de lado, fomos pegos no contrapé da revolução da microeletrônica (revolução da informática que não conseguimos acompanhar), tentamos até hoje nos livrar da herança maldita da ditadura militar (tanto econômica quanto política e social).

É essa história que conta o documentário “Peões”: a da promessa de construção de um país que não se concretizou. As pessoas entrevistadas insistem em que a politização vivida na luta sindical mudou suas vidas, fez de cada uma delas um sujeito político, deu-lhes instrumentos, informações e recursos para compreenderem a si mesmas e ao país como cidadãs e cidadãos. O tipo de processo civilizatório que, em grande escala, pode mudar um país em duas gerações.

As pessoas entrevistadas em “Peões” estão muito melhor do que seus pais, sem dúvida. Mas, em sua grande maioria, não conseguiram sequer continuar sendo metalúrgicos, muito menos manter a militância política. Voltaram para o Nordeste, fizeram bico, vivem do aluguel de uma casinha, conseguiram uma aposentadoria (por invalidez ou não), trabalham como cobradores de ônibus, foram domésticas, tentaram montar um negócio e não deu certo, trabalham por empreitada.

E isso não apenas em razão do chamado "desemprego tecnológico" e da fuga das empresas automobilísticas das bases sindicais mais organizadas. O fato é que, como país, estagnamos desde a década de 1980. O filho do "operário padrão" entrevistado no filme quer seguir a mesma carreira de metalúrgico do pai, mas, ao contrário dele, vai um dia fazer faculdade. Mas simplesmente para conseguir ficar no mesmo lugar. Não pode ter a pretensão de ir mais longe do que ficar no mesmo lugar. Se tudo der certo, o que também é raro nos dias que correm.

Após a derrota nas eleições presidenciais de 1994, a cúpula do PT decidiu concentrar esforços nas vitórias eleitorais e colocou em segundo plano o amplo movimento social que tinha sido até ali o sustentáculo do partido. A conquista do poder de Estado tornou-se o único objetivo. Nessa análise, a eleição presidencial de 2002 aparecia como a última chance de o PT consolidar-se como segundo pólo do jogo político institucional, ao lado do PSDB. A cúpula do PT estava convencida de que uma derrota naquelas eleições condenaria o partido ao ostracismo político de representar na melhor das hipóteses 20% da população brasileira.

Ainda é cedo para saber se o PT vai realmente conseguir se consolidar como segundo pólo aglutinador da política brasileira. Se isso vier a acontecer, teremos dois "times" de governo mais ou menos estáveis, competindo pelo poder e liderados por PT e PSDB. O que trará imediatamente, por exemplo, o problema de manter os quadros de governo "na reserva", prontos para assumir suas funções na eleição seguinte.

Quando o bloco político a que pertencem estiver fora do poder federal, esses quadros terão de ser deslocados para cargos em prefeituras, governos estaduais e para institutos partidários ou suprapartidários. (E, como o Brasil sempre surpreende, talvez isso não venha a se dar pelo fortalecimento dos institutos partidários já existentes. Aos interessados, sugiro prestar especial atenção à criação de ONGs ligadas a parlamentares e ministros de Estado.)

Seja como for, ficaram de fora, uma vez mais, os peões. Vieram para o primeiro plano as gravatas. A política brasileira voltou ao gabarito habitual da luta pelo aparelho de Estado e pela disputa de espaço no seu interior. E, como não há no horizonte movimentos sociais contestatórios de vulto e importância, é nesse gabarito estreito que deverá operar a política nos próximos anos.

Dizer que o gabarito da política se estreitou não significa desprezar ou ignorar o espaço de intervenção disponível. Mesmo com margens estreitas de ação, intervir topicamente continua a ser urgente e necessário. Tão necessário quanto guardar distância do jogo partidário direto. Pois a primeira condição para quem pretende agir com o objetivo de alargar o hoje estreito espaço de participação e de deliberação da política brasileira é reconhecer que este é, como diria Gramsci, um tempo de pequena política.

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Marcos Nobre
É professor de filosofia da Unicamp e pesquisador do Cebrap. Entre outras publicações, é co-organizador e um dos autores do livro "Participação e deliberação - Teoria democrática e experiências institucionais no Brasil Contemporâneo" (Editora 34).

1 - É claro que, para continuar a comparação com o PCI, faltou também ao PT um intelectual do porte de Antonio Gramsci. Ocorre que, mesmo que tivesse tido entre seus quadros um intelectual da capacidade e brilhantismo de um Celso Furtado, acho que o resultado seria o mesmo. No PT, os intelectuais sempre foram peças meramente decorativas, desde a fundação. Mas essa referência sozinha já daria um outro artigo.

 
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