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cosmópolis
RELIGIÃO

O anti-Hamlet
Por Luiz Henrique Horta

A incapacidade absoluta de duvidar é uma das características mais marcantes do papa João Paulo II

"O que é o homem, para fazeres tanto caso dele, para fixares tua atenção sobre ele, a ponto de examiná-lo a cada manhã e testá-lo a cada momento? Por que não paras de me espionar, deixando-me ao menos engolir a saliva?"
Do “Livro de Jó”


Nem uma semana se passou do momento em que Karol Wojtyla deixou de ser papa e já lemos tudo que era possível sobre ele, sua vida, seu longo pontificado, sua intervenção em todos os assuntos relevantes do último quarto de século, o que faz dele provavelmente (algo ressaltado em diversos artigos) um dos mais eficazes chefes de Estado do século XX. Mas o que sempre me surpreendeu foi a sua certeza, uma incapacidade absoluta de duvidar.

Para uma pessoa que passou pela experiência da guerra na Polônia, pelos horrores do século, que testemunhou a perseguição e o extermínio de tantos homens, a aniquilação das liberdades todas, inclusive a de pensar, ter uma certeza tão férrea pode explicar o próprio e admirável mistério da fé.

O papa João Paulo II, através de seus escritos de motu próprio ou suas encíclicas, parecia não se surpreender jamais por esta capacidade vital e inflexível de seguir em frente, contra o que surgisse, apoiando-se apenas na sua crença na verdade (que eventualmente admite no plural, como verdades).

Claro que há uma grande ambigüidade em parte de seu pensamento, mas ele não pode ser acusado de ter medo de ser incômodo, e só tamanha confiança na Palavra e no que ela representa poderia permitir este desconforto calculado, ao falar o que os anfitriões de suas inumeráveis viagens nem sempre queriam escutar. Ou de ser frontalmente anacrônico frente ao seu rebanho mesmo. Quem ainda pode ser contra a pílula ou a camisinha? Este talvez seja o segredo da longevidade do catolicismo, a capacidade de ajeitar sob um mesmo teto sólido, mas de grande flexibilidade, pensamentos radicalmente chocantes entre si.

Amante da incerteza, saturnino, hesitante, eu sempre julguei o papa admirável por sua firmeza. Era um papa Prozac, capaz de fazer com que duvidássemos de nossas próprias e mais queridas dúvidas.

Uma vez, uns três anos atrás, escrevi aqui no Trópico da figura mais humana que era Paulo VI, cheio de sofrimentos morais e angústias pessoais e o comparava ao quase-dionisíaco Wojtyla. Pois até o final João Paulo II não desmentiu estas qualidades tão opostas às do austero e cada vez mais soturno Paulo, sendo que ele cita constantemente seu antecessor, dois lados da mesma Igreja, que não se parte mais em esquerda e direita, mas em práticos e reflexivos. João Paulo II foi um prático, um grande diretor de empresa. Quantas lições empresariais não poderiam ser tiradas deste seu longo papado!

Na sua amarga e algo irônica história da igreja ("The Catholic Church", Modern Library, 2003), o teólogo "inimigo" Hans Kung (curiosamente colega de faculdade de teologia e então grande amigo do temível Ratzinger, com quem rompeu irreversivelmente nos anos de embates filosóficos, quando ambos chegaram ao poder eclesiástico) reconhece a eficácia desta igreja ultramilitante, tão distante das catacumbas (seria bem difícil enfiar novamente um bilhão de crentes nas catacumbas, convenhamos) e que não se envergonha de dar uma escandalosa demonstração de incorreção política, santificando Escrivá de Balaguer num processo curtíssimo e suspeito e na mesma toada santificar Madre Teresa de Calcutá.

Kung declara textualmente que o papa fracassou, e que não é o maior do século XX, e sim o mais contraditório. O fato, entretanto, é que o pragmatismo de João Paulo II fez dele um papa eficiente, capaz exatamente de disfarçar essas contradições sem resolvê-las. Fim da exumação distanciada.

Não escondo minha admiração por diversas atitudes do papa, um ancião tão debilitado que em nenhum momento tremeu a voz e nem a posição contra a invasão bushiana do Iraque. Que aproximou como nunca Roma do judaísmo, do protestantismo (principalmente anglicano) e até do mundo muçulmano e das religiões orientais. Que pediu perdão sem nenhum cinismo por grandes equívocos do passado. Que se esforçou como era possível pela paz no Oriente Médio. Que visitou países que lhe eram francamente hostis, saindo com boa imagem e algum lucro de esperança no espírito das pessoas. Que afastou, mesmo que por um segundo, o medo que temos do desconhecido, do mistério, do sentido da vida (ainda que este tenha sido estragado pelo Monty Piton...).

O que Kung e outros teólogos reclamam é transparência nas coisas internas da Cúria Romana, algo um pouco tolo, ou longe demais de nós, de nossos afazeres do dia-a-dia, assunto para vaticanólogos, pois não é esta a demanda dos católicos, e sim a dos cortesãos ou aspirantes frustrados a estarem nesta corte.

As pressões da modernidade são mais eficazes em forçar mudanças na igreja que as diatribes teológicas. Seria esperar demasiado de um homem assim obstinado como João Paulo II e tão carregado pela sua visão do que seja a verdade alterações nas políticas vaticanas em relação às questões sexuais e outras ligadas à moral e à ética.

Elas virão, a igreja embora não-democrática tem excelente “feeling” para o que quer o seu "eleitorado". Kung, ao combater a infalibilidade papal e a própria instituição do papado, só faz em reforçá-las, pois espera que mudanças no “ethos” sejam fruto de políticas romanas e não do silencioso murmúrio das práticas diárias dos crentes (vale mais a pena ler o jesuíta Michael de Certeau). Mesmo porque pregar a vida e negar o prazer de vivê-la não é algo que se sustente para sempre.

Como todo católico urbano e cosmopolita, eu aceitava estas idiossincrasias do velho papa como as de um tio reacionário com quem não vale a pena discutir. E, além de tudo, embora possa não parecer, eu gostava bastante deste tio velho -no seu às vezes irritante otimismo, no seu denodo em mandar e-mails, aparecer em telões, dar palpite sobre tudo, escalar montanhas usando tênis, esquiar, usar sombrero mexicano... não há nada que ele não tenha feito? E mantinha com ele uma relação de afetividade belicosa, que só os católicos podemos compreender quando a entretemos com nossa grande e acolhedora instituição. E admito o esforço muito grande que tive que fazer para tentar pensar sobre este homem como tal -com nascimento e morte como todos- sem refletir sobre uma certa dose de desamparo em que seu desaparecimento nos deixou.

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Luiz Henrique Horta
É crítico de cultura, viajante interessado em comida e autor de "O Costume de Viajar".

1 - Tecnicamente não existe um papa morto, se visitarmos a página do Vaticano na internet (www.vatican.va) por estes dias encontraremos: Sede Vacante. Não morre o papa, morre Karol Wojtyla, enquanto outro papa é gestado, sem perda de continuidade na ocupação da cadeira de Pedro.


2 - Vale a citação algo longa da encíclica “Fides et Ratio”, de 1998, pois esta verdade essencial, plantada no homem, sobre a qual discorre longamente, explica muito da ontologia wojtyliana: "Os diferentes rostos da verdade do homem

(...) Há que reconhecer que a busca da verdade nem sempre se desenrola com a referida transparência e coerência de raciocínio. Muitas vezes, as limitações naturais da razão e a inconstância do coração ofuscam e desviam a pesquisa pessoal. Outros interesses de vária ordem podem sobrepor-se à verdade. Acontece também que o próprio homem a evite, quando começa a entrevê-la, porque teme as suas exigências. Apesar disto, mesmo quando a evita, é sempre a verdade que preside à sua existência. Com efeito, nunca poderia fundar a sua vida sobre a dúvida, a incerteza ou a mentira; tal existência estaria constantemente ameaçada pelo medo e a angústia. Assim, pode-se definir o homem como aquele que procura a verdade".

(...) "É impensável que uma busca, tão profundamente radicada na natureza humana, possa ser completamente inútil e vã. A própria capacidade de procurar a verdade e fazer perguntas implica já uma primeira resposta. O homem não começaria a procurar uma coisa que ignorasse totalmente ou considerasse absolutamente inatingível. Só a previsão de poder chegar a uma resposta é que consegue induzi-lo a dar o primeiro passo. De fato, assim sucede normalmente na pesquisa científica. Quando o cientista, depois de ter uma intuição, se lança à procura da explicação lógica e empírica dum certo fenômeno, fá-lo porque tem a esperança, desde o início, de encontrar uma resposta, e não se dá por vencido com os insucessos. Nem considera inútil a intuição inicial, só porque não alcançou o seu objetivo; dirá antes, e justamente, que não encontrou ainda a resposta adequada.

O mesmo deve valer também para a busca da verdade no âmbito das questões últimas. A sede de verdade está tão radicada no coração do homem que, se tivesse de prescindir dela, a sua existência ficaria comprometida. Basta observar a vida de todos os dias para constatar como dentro de cada um de nós se sente o tormento de algumas questões essenciais e, ao mesmo tempo, se guarda na alma, pelo menos, o esboço das respectivas respostas. São respostas de cuja verdade estamos convencidos, até porque notamos que não diferem substancialmente das respostas a que muitos outros chegaram. Por certo, nem toda a verdade adquirida possui o mesmo valor; todavia, o conjunto dos resultados alcançados confirma a capacidade que o ser humano, em princípio, tem de chegar à verdade".


3 - A diferença entre os dois papas pode ser vista com certa graça na Carta Apostólica de João Paulo II sobre as novas tecnologias:

"O rápido desenvolvimento das tecnologias no campo da mídia é certamente um dos sinais do progresso da sociedade de hoje. Olhando para estas novidades em constante evolução, torna-se ainda mais atual o que se lê no Decreto do Concílio Ecumênico Vaticano II Inter Mirifica, promulgado pelo meu venerado predecessor, o servo de Deus Paulo VI, a 4 de dezembro de 1963:

"Entre os maravilhosos inventos da técnica que, principalmente nos nossos dias, o engenho humano extraiu, com a ajuda de Deus, das coisas criadas, a Santa Igreja acolhe e fomenta aqueles que dizem respeito, principalmente, ao espírito humano e abriram novos caminhos para comunicar facilmente notícias, idéias e ordens".

"A mais de 40 anos após a publicação daquele documento é muito oportuno voltar a refletir sobre os "desafios" que as comunicações sociais constituem para a Igreja, a qual, como realçou o Papa Paulo VI, "se sentiria culpável diante do seu Senhor se não usasse estes poderosos meios" (grifo meu). Com efeito, a Igreja não está chamada unicamente a usar os mass media para difundir o Evangelho, mas, hoje como nunca, está chamada também a integrar a mensagem salvífica na ‘nova cultura’ que os poderosos instrumentos da comunicação criam e amplificam. Ela sente que o uso das técnicas e das tecnologias da comunicação contemporânea é parte integrante da sua missão no terceiro milênio".

"Não tenhais medo das novas tecnologias! Elas incluem-se ‘entre as coisas maravilhosas’ ‘inter mirifica’ que Deus pôs à nossa disposição para as descobrirmos, usarmos, fazer conhecer a verdade, também a verdade acerca do nosso destino de filhos seus, e herdeiros do seu Reino eterno".

 
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