CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
2

Scalzo: Mais ou menos. Na verdade escolhemos por um critério absolutamente subjetivo, pelo carisma, e você não me pergunte o que é, porque eu não sei (risos). Mas chegam dezenas de milhares de fitas e vamos passando a peneira. Quando fazemos isso, ainda não estamos pensando no grupo, estamos vendo ali alguma graça. Não importa muito de onde é o candidato, não importa nada, só se tem alguma graça.

São três meses de trabalho. Até que chegamos em 100 candidatos, que são chamados para uma entrevista pessoal. Só depois que eles são entrevistados, quando vamos pensar em quem estará entre os 12 -porque dois entram por sorteio-, aí então pensamos no grupo, em idade, em alguma coisa de Brasil, se está muito descompensado ou não. Mas também não importa muito, porque no "BBB5" havia vários nordestinos porque a gente adorou aqueles, em vez de tentar equilibrar as origens geográficas dos participantes.

No começo, o quesito é a graça, em todos os sentidos, se são bonitos, se falam bem, se tem alguma coisa que chama atenção... Só depois, na entrevista pessoal, as escolhas começam a ser pensadas como grupo. E a gente tenta não se repetir muito. Eu pelo menos tenho essa preocupação. Em principio, o critério é escolher quem a gente gostou e quem a gente acha que as pessoas vão gostar.


Mas, com o Rogério, por exemplo, vocês já sabiam que ele tinha o perfil de quem "ia colocar fogo" na casa, não? O conflito, uma mistura mais bombástica, foi buscada para render mais?

Scalzo: Não, eu achava que ele era um playboy carismático, engraçadão. Em momento nenhum eu previ o monstro atrás do médico, não mesmo, foi uma surpresa, assim como o P.A foi também uma surpresa. Mas eu não imaginava que o Rogério fosse isso. Inclusive, houve um momento em que eu me preocupei, em que falei: "Nossa, acho que só tem gente boa no programa!". Com medo de que não fosse haver conflito! Porque, quando você escolhe, você fica olhando e tentando imaginar o que pode acontecer ali... E antes de o programa começar tememos que fosse tudo muito morno, porque todo mundo parecia tão legal, e foi uma explosão praticamente na primeira semana. A combinação entre as pessoas temum efeito surpresa, sempre.


E quem participa da seleção? Todos os editores?

Scalzo: Não, participa um monte de gente, alguns editores fixos, alguns "loggers", os diretores....


Mas quantas pessoas são?

Scalzo: São umas dez pessoas que vêem as fitas. Depois, na banca de entrevista, composta, sobretudo, pelos diretores, há também umas dez pessoas.


O "BBB" não tem compromisso com uma montagem justa, mas com uma montagem de valorização de cenas, de valorização da capacidade cênica de cada um, e isso explica porque uns e outros aparecem menos na edição. Sendo assim, como fazer para que rendam os personagens que falam pouco e fazem pouco?

Scalzo: Obviamente tem os que rendem mais do que os outros, mas a gente procura sempre atender a todos. Quando o programa começa, todo mundo fala ao mesmo tempo, mas, depois, vão se delineando as coisas e aí você vai priorizando certas relações, porque elas chamam mais atenção. Um personagem que não fala muito, ao menos um pouquinho ele vai aparecer, para o telespectador não esquecer que ele está na casa. E aí todo mundo sabe quem está na casa, o tempo todo. Então a gente não deixa ninguém sumir.

Às vezes até vamos buscar algum "acontecimento" (de algum personagem apagado), porque nem vem para mim, de tão nada que ele é. Tem momentos em que eu termino um programa e pergunto: "Nossa, cadê fulano, que não apareceu?". Aí eu vou buscar uma cena dele sentado no canto do jardim, para mostrar que, enquanto os outros estavam conversando, ele estava isolado. Mas é claro que umas pessoas rendem mais do que as outras, mas, se as pessoas não rendem, a gente não pode fazer nada.


O Sammy, por exemplo, quase não aparecia no início, aliás, essa foi a estratégia de jogo dele.

Scalzo: O Sammy é aquele personagem que a gente diz que se faz de morto... Mas já existiram outros assim. A estratégia deles é não falar muito, não brigar muito, pois assim o pessoal da casa vai deixando-os de lado. A gente sempre tem um personagem-decepção! Tem uns que surpreendem e tem outros que não rendem aquilo que a gente imaginava.


Você acredita em tipos humanos ou para você as singularidades suplantam qualquer tipo de classificação?

Scalzo: Eu não acredito em tipos, mas tem pessoas que são mais tipificáveis, estereotipáveis. No entanto, se você olhar de perto, cada pessoa é única. Eu trabalho um pouco com essas categorias de tipos, mas só servem para estudo.


A equipe da edição leva em consideração as mensagens do fórum do "BBB" na internet, tanto a da página do site oficial quanto a do UOL? Isso é uma forma de "pesquisa de opinião" ou teste de recepção?

Scalzo: De jeito nenhum. Acho o fórum uma loucura, até olho de curiosa, mas aquilo para mim é uma diversão à parte para o pessoal que curte esse tipo de coisa na internet. Há cada coisa que se publica ali! Na época do "BBB3" eu fiquei muito preocupada porque o Dhomini foi acusado de ter sete processos contra ele... Há muita maldade e mentira.


Várias mensagens nestes fóruns acusaram o "BBB" de ser parcial, manipulador e adotar opções tendenciosas. Como você encara essa cobrança de neutralidade narrativa e de verdade?

Scalzo: Eu acho que esse tipo de cobrança sempre vai existir, porque sempre haverá torcidas e, depois, reclamações. Todo mundo que perdeu acha que foi prejudicado pela edição. Edição pressupõe escolha, eu não sou ingênua. Mas em momento nenhum a gente toma partido.

Agora, é claro que priorizamos certas coisas e é claro que estamos numa relação meio simbiótica com o telespectador. E eu estou vendo que as pessoas estão torcendo, estou vendo pelo resultado da votação, por aquilo que as pessoas comentam. Sabemos que a gente tem que fornecer o que as pessoas estão ansiando, não em termos de resultados, claro, mas em termos de prioridades.

É como a história do ovo e da galinha: as pessoas querem ver o que você está mostrando e você vai mostrando o que elas querem ver. A gente se pauta, sem dúvida, pela narrativa e pelo tempo do programa.


Até porque, apesar de ser um reality, em lugar nenhum está escrito que o "BBB" promete eqüanimidade de aparição para cada um dos participantes...

Scalzo: Isso não existe. O dia em que eu fizer isso, faço um programa chatíssimo! Ninguém vai querer ver.


Você acompanha os "Big Brothers" feitos lá fora? Têm acesso a esse material?

Scalzo: Não, nunca vi uma edição inteira, só vi cenas. Mas acho que eles fazem uma edição bem mais careta, se levam mais a sério. Agora, essa "cara" que o BBB tem não fui eu que inventei. Quando eu cheguei aqui ele já existia, foi a Eugênia Moreira que inventou.

Já se faz assim desde o "BBB1" e do "BBB2", quando eu entrei. Fomos aprimorando esse formato importado. Acho que o sucesso do "Big Brother" no Brasil se vale muito do fato de as pessoas gostarem de novela e de já terem entendido, hoje em dia, completamente o funcionamento do formato, porque o telespectador brasileiro conhece muito de televisão, então ele dominou muito bem as regras do jogo.


Jean Rouch (documentarista francês e mestre do cinema-verdade) disse que "a ficção é o caminho para penetrar a realidade" e que a autenticidade, que nem sempre acontece, deve ser buscada na reação à câmera. Sua proposta era assumir a intervenção e, a partir dela, provocar reações reveladoras, isto é, buscar a verdade do conflito, assumindo a relação com a técnica. Nesse sentido, você acha que o "BBB" está mais próximo do cinema-verdade que do cinema-direto observacional, este baseado no método da testemunha, no postulado da imagem roubada e na crença da neutralidade da forma?

Scalzo: Eu acho que há o fator observacional, a imagem roubada, mas, ao mesmo tempo, tem toda uma construção narrativa. Não é o "pay-per-view"... Talvez seja uma mistura das duas vertentes.


No entanto, no cinema-direto observacional a idéia da imagem roubada tem como pré-requisito a não-consciência da câmera por parte de quem está sendo filmado, lógica mais próxima das "pegadinhas" do que dos reality shows...

Scalzo: Mas mesmo os participantes têm uma consciência da câmera que oscila. Há momentos em que eles esquecem completamente que estão sendo filmados. Então, talvez o "BBB" esteja mesmo em uma intersecção de todos os pontos-de-vista, tanto para os participantes quanto para nós, que estamos fazendo o programa. Porque a gente busca uma neutralidade, uma isenção, por incrível que pareça, como norte, embora saibamos que, ao construir qualquer coisa, estamos escolhendo. A gente não vai francamente tomar partido de ninguém, não vai querer beneficiar ninguém. Eu estou a serviço da narrativa, não estou a serviço de alguém.


Mas o Jean não foi favorecido?

Scalzo: Acho que não, o Jean foi favorecido por ele mesmo. Porque ele fala muito bem, diz coisas bonitas para as pessoas, é muito generoso e emociona. Então, na medida em que eu assisto uma conversa dele com o Alan, por exemplo, e me emociono, eu ponho no ar, porque sei que isso vai acontecer com quem está em casa também.

O Jean foi beneficiado por si mesmo, pela articulação e pelo comportamento dele. É claro que, entre colocar o Jean dizendo alguma coisa significativa para alguém ou colocar a Karla fazendo uma brincadeira, eu dou 30 segundos para a fala do Jean e 10 para a brincadeirinha da menina, porque acho que para quem está em casa é mais legal.

Portanto, não se trata de querer beneficiar alguém. Estamos fazendo um programa de televisão que tem de ser atraente e envolvente. Ou seja, tudo o que eu acho que tem alguma carga de emoção vai ser privilegiado. A emoção é, sem dúvida, um critério. Quero fazer um programa em que as pessoas dêem risada, chorem, torçam. Nesse sentido, as pessoas podem se beneficiar de suas próprias qualidades ou de seus próprios defeitos.


Você acredita em uma ética da edição? Vocês discutem os limites do que pode ou não ser exibido?

Scalzo: Acho que hoje em dia isso não precisa nem ser conversado, está implícito. Ao mesmo tempo em que temos que mostrar, eu tenho os meus limites, claro. Há certas coisas que dá para suavizar em respeito a quem está em casa, a quem está lá dentro e a mim mesma. Mas é algo internalizado na equipe.

Para dar um exemplo bem banal, às vezes acontece de alguém passar muito mal, e a gente evita mostrar tudo. Podemos até captar a imagem por razão de nosso trabalho, mas eu posso não exibir tudo e apenas dar a entender o que houve. Esse limite é tanto ético quanto estético.


O que significou a vitória do Jean na sua opinião?

Scalzo: Eu achei bem legal ele ganhar, assim como acharia legal se a Grazie ganhasse também. Eu já achei legal o Jean ter se inscrito. Quando eu vi a fita dele, fiquei muito feliz, porque a gente não tem muitas pessoas como o Jean que se inscrevem, no sentido de nível de escolaridade, preparação intelectual... Não há mesmo. Ele é uma exceção, é um achado. E olha que a gente realmente tem uma peneira fina..

Ele não ganhou porque ele é gay, mas porque as pessoas ficaram loucas por ele, apaixonadas mesmo. Ele teve uma tolerância enorme por ter sido sempre muito atencioso com os colegas lá dentro. Acho que os telespectadores sentem como se fosse com eles, porque todo mundo se imagina lá dentro da casa. Então ele ganhou porque conseguiu mobilizar milhões de pessoas de todos os tipos. Não dá para achar que foi uma mobilização de grupos gays que deram a vitória para o Jean.


E, a partir do Jean, você acha que o público ficará mais exigente?

Scalzo: É claro que a gente tentará ser ainda melhor no "BBB6", mas nunca sabemos. É a combinação das pessoas ali dentro que é a chave do negócio. E eu não poderia imaginar que o "BBB5" seria o que foi. O Jean, por exemplo, era um personagem que ainda não tinha existido em nenhum outro "Big Brother". Mas não dá para saber o que vai ser o próximo, o que vai vir.

Talvez a participação do Jean faça com que pessoas com o perfil mais parecido com o dele resolvam arriscar a sorte em um negócio pelo qual elas antes tinham um certo desprezo ou pudor. Mas o próprio Jean, se ele não fosse carismático, não teria sido selecionado na entrevista. E, se ele tivesse sido arrogante, também não teria sido perdoado. A arrogância é o pecado capital do "Big Brother". O público não perdoa.

.

Ilana Feldman
É formada em cinema pela Universidade Federal Fluminense, onde faz mestrado. Dirigiu o documentário em média-metragem "Se tu Fores", que ganhou o Prêmio Itaú Cultural para Novos Realizadores.



 
2