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audiovisual
BASTIDORES
A fabricação do "Big Brother" A editora-chefe Fernanda Scalzo explica cada passo da produção do segundo programa de maior audiência da TV Nos últimos três meses, a jornalista Fernanda Scalzo passou seus dias em uma ilha de edição, acompanhando cotidianamente a trajetória dos integrantes do Big Brother Brasil. Para esta empreitada, a editora-chefe do programa comandou uma equipe de 14 editores, que se dividiam em três ilhas de edição, em jornadas de 8 horas, durante 24 horas ininterruptas. "Aqui é como uma fábrica e, para que esta fábrica funcione, o grau de envolvimento tem de ser 150%", diz Fernanda, para quem a rotina de trabalho não acabava quando chegava em casa. Lá, ela ainda assistia ao pay-per-view e, no dia seguinte pela manhã, lia tudo o que foi publicado sobre o assunto na imprensa e na internet. Paulista radicada no Rio, Fernanda, 42, é formada em letras e começou a vida profissional como jornalista na "Folha de S. Paulo". Passou pelo "Fantástico", onde trabalhou como editora de texto, e hoje é a responsável pela "cara" do segundo programa de maior audiência da TV brasileira, de acordo com os índices do Ibope de fevereiro e março. Fernanda começou no "Big Brother Brasil 2", convidada pela então editora Eugênia Moreira, e, a partir do "BBB3", tornou-se a editora-chefe. O "Big Brother Brasil 5", além do sucesso de público, despertou a crítica para uma visão menos preconceituosa, que levou em consideração os avanços de linguagem do formato. Dentre esses avanços, os procedimentos ficcionais nunca foram tão explícitos, na busca por um efeito-de-dramaturgia, para se chegar, paradoxalmente, a um efeito-de-realidade. Ao priorizar a emoção e humor, o "BBB5" abusou de trilhas sonoras (usadas de modo paródico) e de animações, contando nesta edição com o ilustrador Rodrigo Cipriano, que materializou uma das idéias de Fernanda Scalzo: o seriado "Os Inacreditáveis". Editando milhares de horas de material captado, provenientes de 42 câmeras e 68 microfones, Fernanda e sua equipe via os participantes do BBB através das telas, apesar de estarem ao lado deles. A casa do "BBB" é contígua aos bastidores, onde trabalham cerca de 300 pessoas. São os cinegrafistas quem têm acesso ao "camera cross" (corredor escuro onde se posicionam as câmeras que filmam através dos espelhos). No "camera cross", é como se não existisse o lado de fora e este já estivesse contido -e previsto- dentro mesmo dos espaços da casa, dentro dos espelhos. O "Big Brother" talvez não seja o espelho ampliado do mundo real, como tanto se costuma dizer, mas talvez o próprio mundo esteja se tornando o espelho do "Big Brother". Assim como Godard já disse que o cinema não é o reflexo da realidade, mas a realidade de um reflexo.
Fernando Scalzo: O Boninho (José Bonifácio Brasil de Oliveira) é o diretor de núcleo e Carlos Magalhães é o diretor geral, que cuida de tudo que está sendo gravado e coordena mais cinco ou seis diretores, que são os responsáveis pela captação. Eu cuido de tudo o que foi gravado. Minha equipe é bem grande, há 14 editores e 20 "loggers", que são as pessoas que fazem a decupagem ao vivo e uma pré-edição do material. Tudo funciona como uma fábrica aqui, tudo é 24 horas. Todo mundo se revezando 24 horas. De um modo geral a equipe é imensa, trabalham em torno de 300 pessoas.
Scalzo: Não, meu nível de operação é básico 1 (risos)... Eu tenho uma pessoa que trabalha junto comigo, um excelente editor. Eu sou a que fala: vamos pôr isso, vamos pôr aquilo. Eu assisto e vou marcando as coisas que eu acho que estão seguindo a história que a gente está contando. E aí a gente monta, vemos o que cabe e o que não cabe, porque tem dias que o programa é maior, tem dias que é menor. Quem trabalha diretamente comigo é Rodrigo Dourado, que é excelente.
Scalzo: Além da finalização, onde eu trabalho, temos mais três ilhas que funcionam 24 horas em períodos de 8 horas. O pessoal recebe o material que vem do caminhão e já edita o que chamamos de copião. Isso tudo eu pego, reúno, seleciono e coloco no tempo certo do programa. Eu faço também o "espelho" do programa.
Scalzo: O espelho é a ordem em que as coisas acontecem, a ordem de aparição dos blocos.
Scalzo: Não. Eu não gosto de ver nem pelo "camera cross".
Scalzo: "Camera cross" é o entorno da casa, por onde os participantes são filmados. É um corredor escuro que dá a volta na casa toda. É de lá que eles são filmados pelos cinegrafistas, através dos espelhos, além das câmeras-robôs inseridas na casa.
Scalzo: Minha equipe é ótima. A maioria está junta desde o primeiro programa. É uma equipe mais ou menos fixa e é todo mundo muito bom e muito comprometido. Porque não podemos ter furo. O grande segredo desse programa é conversar. Às vezes eu chego e as pessoas perguntam: você viu tal coisa que aconteceu a tal hora? Às vezes eu não vi, porque não dá para ver tudo o tempo todo. Portanto, conversamos muito, sempre. E é essa conversa que dá consistência para o programa, porque não queremos perder nada. Eventualmente não podemos mostrar algo porque não dá tempo, mas, se alguém se referir àquele fato, sabemos achá-lo. A equipe é toda muito unida porque, ao mesmo tempo, o trabalho é muito pesado. Há um volume de informação imenso.
Scalzo: Não há nada colocado a priori. Quando o programa começa é uma espécie de "Deus nos acuda", porque está aquela gente toda lá dentro, 14 pessoas, todas falando ao mesmo tempo, e nunca sabemos para onde vai. É curioso pois, como eu faço parte da equipe de seleção também, quando escolhemos os participantes, às vezes imaginamos alguma coisa, que tal pessoa vai se dar com tal pessoa, mas em geral nossas previsões são erradas. Acho, porém, que acertamos na escolha. Para dar um exemplo concreto, quando é que eu ia imaginar que o P.A (Paulo André, participante do programa) teria o comportamento que teve? A impressão que eu tive dele, a partir da entrevista, é que era superbonzinho. E, de repente, ele se juntou com o Rogério. Quer dizer, essas combinações entre pessoas são inesperadas, você nunca sabe que bicho vai dar. O programa também é assim. No começo, você vai colocando um pouco de todo mundo, uma conversa que for mais engraçada, duas pessoas que você nota que se deram bem... Ou seja, vamos começando a achar ali uma narrativa. Aí, depois, quando começamos a perceber que as relações dentro da casa se estabeleceram, com os antagonismos, as identidades, vai-se formando um fio que conduz o programa. Mas tudo é feito a partir da observação. Primeiro eu vejo para depois pensar. Não dá para pensar antes de ver.
Scalzo: No começo é alguma coisa mais engraçada, outra mais interessante, um pouco de todo mundo... Depois vamos encontrando um fio, e eu me preocupo muito com esse fio. Inclusive as pessoas dizem que o "Big Brother" está parecendo novela, mas é porque eu lembro onde eu terminei ontem para começar hoje. Então, se ontem o Jean e a Pink brigaram, hoje ou bem eles vão virar a cara ou eles vão fazer as pazes. Eu procuro no dia seguinte dar a continuação do que houve ontem. Procuramos em tudo o que acontece uma continuidade, para não deixar os acontecimentos parecerem gratuitos, sem explicação, porque as pessoas continuam lá se relacionando. Tudo tem desdobramentos. Essas são as prioridades. É claro que temos sempre mais material do que cabe. Só lá no finalzinho, quando há pouca gente, às vezes temos que dar uma esticada nos planos para completar o tempo. A prioridade, então, vai sendo colocada pela própria história, conforme ela se monta ali, sendo sempre a partir do rumo que os acontecimentos vão tomando.
Scalzo: Existe. A gente trabalha sempre junto, porque há momentos em que na própria captação as coisas já são descartadas, não se capta tudo. Ali já há várias escolhas. Essas escolhas também são pautadas pela história que vem sendo contada.
Scalzo: Eu acho que isso é uma coisa que vem ocorrendo desde o "BBB4". Como o formato é importado, no começo ninguém sabia fazer e agora os cinegrafistas já estão ficando experts, pela experiência mesmo. Eles sabem o que estão fazendo porque estão acompanhando a história, não estão alheios aos fatos. Se eles percebem que alguém brigou e que há um clima, eles vão fechar a câmera, vão fazer um close. Hoje conseguimos até trabalhar com o olhar, uma coisa difícil, porque é preciso estar muito atento para captar um olhar de uma pessoa com o significado que isso tem, dentro desse contexto de reality, com essa quantidade de câmeras.
Scalzo: As pessoas já conhecem muito a dinâmica do programa. Mas, ao mesmo, a estratégia do Rogério e do P.A foi uma estratégia tão idiota e tão obviamente errada, que a gente se pergunta: esses caras nunca assistiram ao programa? Não é possível que eles estão falando um monte de absurdos, com essas caras deslavadas, como se eles não estivessem sendo filmados! Era inacreditável quando eles falavam coisas como "já fiz a lavagem cerebral nela". As pessoas, quando entram ali, apagam as câmeras -mesmo se em alguns momentos elas se lembram que estão sendo filmadas e querem fazer um gênero. Então, ainda que os participantes tenham um certo domínio do programa, a combinação das pessoas é o fator surpresa, inevitável e incontornável. É o que faz o programa acontecer de maneira surpreendente, para bem ou para o mal.
Scalzo: Eu acho que não dá para misturar. Isso aí não tem nada a ver com trabalho que eu faço. É uma decisão da Globo. A graça desse programa é que ele é um reality show, é tudo inesperado, não tem roteiro. Não há dramaturgia, há a narrativa que a gente busca. A graça é o material que os participantes me dão, e as reações deles às vezes são estapafúrdias. Eu tenho total liberdade nas coisas que a gente faz. A gente dá uma "zoada" com eles. Umas das graças do programa é o humor, os apelidos que pusemos neles... Eu me sinto à vontade para fazer isso na medida em que penso que as pessoas sabiam onde estavam entrando... E isso é o que me apazigua para fazer minhas piadas. Mas eu não posso olhá-los como personagens, porque ali é tudo autêntico e original. É óbvio que a gente edita e, ao editar, você está montando um negócio com uma cara "x" ou "y".
Scalzo: Eu sei, mas isso para mim não importa, não faz a menor diferença. São pessoas e, ao mesmo tempo em que a gente brinca, temos um certo carinho no olhar. Às vezes é até complicado, tenho umas crises, porque são pessoas, mas aí eu lembro que eles estão ali porque querem. Faz parte do jogo, do nosso jogo.
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