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ensaio
HISTÓRIA
Presságios, prenúncios e agouros Como as telenovelas, as narrativas medievais usaram e abusaram dos pressentimentos Mães com ligeiras tonturas e apertos no coração tentam impedir ou retardar, por cautela, os deslocamentos anunciados por seus filhos; crianças e jovens com estranhas sensações de mal-estar, arrepios e calafrios, parecem prever que algo de ruim está por vir com seus progenitores; namorados apaixonados mostram-se atentos a qualquer estímulo externo ou interno quando se vêem diante da iminência de uma breve ou longa separação do amado ou amada; sábias senhoras ou experientes senhores, conhecedores dos significados dos sinais naturais e sensitivos lançados pelo destino, lamentam o que está por vir ou tentam impedi-lo; entes queridos da mais variada espécie pressentem que alhures, longe de seus olhos, algo de ruim ocorre com um dos seus benquistos. É este universo de sensações esquisitas, tremores ligeiros, pontadas no coração, copos que caem, entre outros fenômenos, que ainda povoa a nossa teledramaturgia e o nosso senso comum. As ficções televisivas nacionais, a despeito das internacionalmente louvadas inovações técnicas e diversidade temática, ainda não se desprenderam das intrigas amorosas adocicadas; dos enfrentamentos sociais desnivelados, com poderosos perversos e egoístas; e das pinceladas de uma pedagogia social e comportamental muito atada aos padrões oitocentistas, mesmo que sob roupagem remodelada -como o moderno recurso do merchandising educativo, por exemplo. Ora, nesse universo de limites não muito largos, os pressentimentos sobre o porvir encaixam-se como uma luva. Se, porém, na mais popular forma de ficção nacional, os presságios e prenúncios cumprem a função ora de criar suspense, ora de superdimensionar o grau de afetividade dos personagens em questão, em gêneros mais remotos e não dirigidos para um grande número de espectadores, como aqueles produzidos na Idade Média, os pressentimentos sobre o futuro cumpriam, de saída, um papel menos mundano. Nesses escritos de caráter religioso, pedagógico, moralizante, histórico ou até filosófico, escritos marcados por uma clara finalidade pragmática e povoados por personagens da "vida real", como reis, rainhas, cavaleiros e grandes senhores, tal recurso às antevisões servia, de saída, para ressaltar a soberania de um Deus criador de tudo e controlador do passado, do presente e do futuro, ou seja, um Deus produtor de indícios do que ele próprio já tinha traçado para ser interpretado por aqueles que, por sua incompletude e "contingência", estavam sujeitos aos seus desígnios. Era justamente a consciência da plenitude de Deus e da parcialidade do homem que levava à consciência da temporalidade, ou melhor, à consciência de que, sendo o homem apenas uma parte finita, imperfeita e fragmentária do Ser infinito, ele estava sempre sujeito ao movimento, à mudança, em suma, ao tempo. Como escreve o Infante D. Pedro de Portugal no século XV, "certo é que toda criatura por seu criador recebe o começo, sendo feita de nenhuma coisa. E porém nunca se pode fazer que logo não tenha carência, pois do ser eternal é sempre minguada" (“Livro da Virtuosa Benfeitoria”). Essa consciência do caráter mutável da natureza humana, e conseqüentemente da sua finitude, trazia consigo aquela outra de que, não podendo conservar-se no estado em que foi criado, o homem se encontrava submetido a uma força oculta, cujos critérios ele tentava, quase sempre em vão, desvendar. Uma tal força oculta, de desígnios desconhecidos, assombrava os medievais acima de tudo por sua ambigüidade, ou seja, ao mesmo tempo que se acreditava que seus movimentos provinham da vontade divina, uma vontade superior, perfeita e indubitavelmente boa, sabia-se que as indicações dessa vontade não questionável escapavam àqueles que se encontravam a ela sujeitos. Como exprime o primeiro cronista português dos descobrimentos, Zurara, "Ó poderosa fortuna, que andas e desandas com tuas rodas, compassando as cousas do mundo com te que praz! E sequer põe ante os olhos dessa gente miserável algum conhecimento das cousas postumeiras...!" (“Crónica de Guiné”, cap. XXV). Diante de tais oscilações, restava aos homens, como registram os autores de então, manterem-se alertas para os sinais lançados dos céus de modo a evitar voltas desfavoráveis da Fortuna. Muitos dos sinais podiam vir, como nas novelas televisivas, na forma de sensações, dado o receio e o temor acerca do futuro incerto. Na "Crónica Geral de Espanha de 1344", o cronista narra que D. Beatriz, mulher de D. Fernando III de Castela, atentando certa feita para a formosura de seu primogênito D. Afonso, pôs-se a chorar, pois teve um mal presságio, ao recordar uma longa profecia de sua infância que adiantara que seu filho, "por uma palavra de soberba que diria contra Deus, haveria de ser deserdado de toda sua terra, salvo de uma cidade em que havia de morrer". A mãe suspirou e chorou ao pensar que outras partes da profecia já se tinham cumprido e que, por isso mesmo, seu filho não poderia escapar (vol. II, cap. DCCXC). Outras formas de previsão, porém, se mostravam também recorrentes naquele universo permeado pelo "maravilhoso". Para tentar fugir aos misteriosos "caprichos" dessa força que movia o mundo, o melhor caminho era estar atento aos acontecimentos e fenômenos que podiam trazer uma mensagem de Deus, um sinal da sua vontade. Num dos mais célebres livros medievais, “A Demanda do Santo Graal”, livro repleto de sonhos e visões maravilhosas, Galaaz entra na corte do rei Artur antecedido por uma luz estonteante, que adiantava que aquele que ali chegava não era um qualquer, mas o que haveria de "dar cima às aventuras do Santo Graal" (cap. 16). Em outro grande best seller medieval, a "Legenda Áurea", cheio de avisos e mensagens tal e qual a "Demanda", Lúcia, virgem de Siracusa, vê em sonho Santa Ágata, aquela a quem tinha solicitado a cura de sua mãe. Rodeada de anjos, ela diz-lhe: "Minha irmã Lúcia, virgem toda devotada a Deus, por que pede a mim o que você mesma pode conseguir, neste instante, para sua mãe?". Lúcia desperta, convicta de seu poder e diz: "Mãe, você está curada". E assim foi. (“Legenda de Santa Lúcia"). A revelação divina, contudo, nem sempre era tão explícita e direta, dependendo na maior parte das vezes da adequada interpretação humana, pois a diversidade dos acontecimentos e fenômenos a que os homens estavam sujeitos tornava difíceis e nem sempre certeiras as interpretações, o que impedia, muitas vezes, que os governantes ou senhores fossem dissuadidos dos seus propósitos arriscados. Na "Crónica de D. Duarte" conta Rui de Pina que, antes da tentativa de tomada de Tânger, quando o rei D. Duarte proclamava publicamente o que tinha determinado, "falando no Infante D. Fernando, que ia e estava presente, logo ex improviso, como quer que era inverno, lhe arrebentou sangue dos narizes", o que foi visto por todos como "prognóstico e agouro verdadeiro de sacrifício de seu corpo e sangue de muitos que no feito se seguiu" (cap. XIV). Mas, a despeito de tal suposto sinal, D. Duarte levou adiante o empreendimento que viria a ser, e o cronista já conhecia os desdobramentos, desastroso, culminando com o martírio do dito Infante D. Fernando, seu irmão. Nos períodos que antecediam os empreendimentos conquistadores, pelo que contam as narrativas históricas medievais, a atenção aos sinais parecia redobrada, especialmente porque não interpretar bem a vontade de Deus era o mesmo que agir contra ela, o que podia despertar a ira divina e reverter em castigo -como Pina sugere que ocorreu com D. Duarte. Nesses tempos, eclipses, mortes de pessoas importantes ou pestes eram alguns sinais de maus agouros. E, se na maior parte das vezes nem mesmo tais indícios conseguiam demover os empreendedores de suas aventuras, ao menos os tornava mais precavidos. Conta Zurara, na "Crónica da Tomada de Ceuta", que foi com imensa decepção que os filhos de D. João I viram, pouco antes de sua partida para a tomada de Ceuta -empreendimento arriscado levado adiante em 1415- uma grande peste se abater sobre o reino, um eclipse se efetivar e sua mãe, a rainha D. Filipa, falecer. Titubearam em continuar o que pretendiam, pois diziam "que tamanhos três sinais, como nosso Senhor Deus naquele feito mostrara, não eram para ter em jogo...". Os receios, contudo, não os impediram de seguir em frente. Os modos freqüentes de revelação, segundo a crença mais corrente na época, podiam ser corporais ou espirituais: entre estes últimos contavam a iluminação do Espírito Santo e a própria investigação do homem; entre aqueles estavam as revelações manifestas no mundo físico. Diante, pois, de todas essas formas "maravilhosas" de revelação, muitos foram os casos em que aqueles que narraram, descreveram ou analisaram a trajetória de algum dos "grandes" da Idade Média atribuíram um qualquer insucesso à falta de atenção a uma suposta revelação; talvez porque nem sempre as revelações eram tão explícitas ou diretas quanto no caso dos sonhos e das visões. Nesses casos, como tivemos uma amostra, santos ou outros mensageiros divinos preparavam os homens para as situações vindouras de forma às vezes bastante direta, ao ponto de a mensagem converter-se em aviso ou advertência e os que ousassem desconsiderá-la não só serem privados da graça como até severamente punidos. Na “Crónica de Afonso Henriques”, por exemplo, é narrado que Egas Moniz soube, através de um sonho, o futuro que estava reservado ao menino Afonso Henriques. Estando o menino doente, Santa Maria apareceu-lhe e ordenou que limpasse sua imagem que estava em um altar, depois que pusesse o menino doente sobre este e assim ele "seria são e curado". Ordenou ainda que o guardasse bem, pois através dele seu filho queria "destruir os inimigos da fé" ("Crónica de Cinco Reis”, pp. 49-50). Foi também através de um sonho premonitório que, segundo Juan Manuel, no “Libro de las Armas” do séc. XIV, a citada D. Beatriz, mulher de D. Fernando III de Castela, soube o que cabia à sua nobre prole. Durante a gravidez -numa clara referência ao episódio bíblico da Anunciação- sonha ela que por seu filho Manuel, "e por sua linhagem, havia de ser vingada a morte de Jesus Cristo" (prólogo). Em proporção um pouco menor que os anjos ou santos mensageiros da vontade divina -ou mesmo os recriminadores- eram as pistas "materiais" sobre o que estava por vir: fosse o vento contrário impedindo a partida dos navegadores, fossem as pestes lançando a mortandade e anunciando o deslize moral ou erro estratégico de algum dirigente, entre tantas outras. Em 1384, o rei de Castela, por exemplo, durante o cerco que pôs a Lisboa, viu a peste chegar ao seu acampamento e, segundo o cronista Fernão Lopes, adepto da causa portuguesa, "não embargando a forçosa demonstração que via da mortandade dos seus, per que deveria entender que não prazia a Deus de ali mais estar", ainda assim manteve seu propósito inicial de não sair dali até que Lisboa fosse tomada (“Crónica de D. João I”, I, cap. CL), prolongando em vão o sofrimento dos seus por negligenciar os avisos divinos. Outros sinais sobre o futuro davam-se, para além dos pressentimentos, das intuições, das visões e dos acontecimentos contrários ou trágicos, por meio do que se poderia chamar "falas" da natureza. Na legenda de "São Tomé, Apóstolo", da referida “Legenda Áurea”, depois de uma oração de São Tomé aos doentes e enfermos, "um relâmpago ofuscou tanto os apóstolos como os presentes", a tal ponto que temeram por suas vidas. São Tomé, porém, mandou que se erguessem, porque aquele raio era a forma encontrada pelo Senhor para anunciar que todos estavam curados. Além de se preocuparem com as alterações bruscas de sensação, os personagens de outrora deviam estar, portanto, igualmente atentos aos indicativos do mundo exterior, tão indiciários quanto ou até mais que os estímulos ou inspirações internas. Na leitura da Bíblia que faz o cronista quatrocentista Fernão Lopes, Moisés, quando viu arder o espinheiro, entendeu que por ali "se mostrava a encarnação do filho de Deus" (“Crónica de D. João I”, I, cap. XXIII). A interpretação desses supostos avisos divinos, porém, dependia dos homens e estes não podiam evitar a voz do coração. Como bem registra Zurara, "da abundância do coração fala a boca, porque cada um nunca profetiza senão daquilo que deseja". E, diante de tantas formas de engano a que estavam sujeitos homens, ou pela própria variedade das mensagens ou pelas imposições do coração, adverte D. Duarte, no "Leal Conselheiro", sobre o perigo das crenças desatinadas, ainda tão presentes na nossa teledramaturgia e no nosso senso comum: |