CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Outro erro recorrente é imaginar que critérios como nacionalidade e local de residência tenham perdido a validade na classificação dos valores artísticos. Cabe lembrar que é difícil escapar -mesmo em tempos de globalização- de determinantes geopolíticas e mesmo de um certo nacionalismo. Aliás, o nacionalismo é, até hoje, um fator importante para se compreender o funcionamento (e o sucesso) do sistema das artes em países que se destacam na cena internacional, como Inglaterra e Estados Unidos.

Os grandes colecionadores britânicos, públicos e privados, preferem o que se tem designado como “artistas britânicos contemporâneos”. Coleções como a da empresa Saatchi & Saatchi têm tido um papel importante na divulgação e na conseqüente valorização econômica desses artistas.

Um relatório da Sotheby’s de 2000 indica que os colecionadores americanos compram, antes de tudo, arte americana. Como são grandes consumidores, acabam comprando também arte de outras regiões. Ao contrário do que se diz normalmente, há também políticas públicas de incentivo à produção nacional (e ao uso da cultura como arma diplomática). Isso não vem de hoje. O expressionismo abstrato não seria o que é hoje na história da arte se não fosse a política cultural do governo americano e o engajamento nacionalista de críticos como Clement Greenberg.

A afinidade cultural também determina a preferência de colecionadores por artistas de um lugar ou de outro. Denis Gardarin, da galeria Brent Sikkema, que representa Vik Muniz em Nova York, comentou que os clientes americanos se interessam especialmente pelas obras que fazem referência ao seu sistema de valores. “O trabalho de Vik sobre personalidades brasileiras não teria uma entrada fácil aqui” (entrevista realizada em agosto de 2002).

Ainda hoje, quem mais compra arte brasileira é brasileiro, quem mais compra arte mexicana é mexicano, quem mais compra arte americana é americano e assim por diante.

Parece lógico, mas isso é freqüentemente negado por quem aspira entrar no circuito da arte contemporânea “internacional”. No Brasil, muitos agentes recusam firmemente qualquer referência à “arte brasileira” ou mesmo à “arte do Brasil”. Quanto aos artistas, alguns tendem a negar toda e qualquer referência à nacionalidade, vista como obstáculo à internacionalização, outros abrem mão da superutilização de elementos identitários, tangenciando por vezes a caricatura ou o exotismo. Essas duas estratégias, simplificadas aqui, podem ser utilizadas em graus diversos e por vezes pelo mesmo artista, dependendo do contexto.

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Para finalizar analisarei os resultados do leilão de arte latino-americana realizado pela Christie’s no mês de junho de 2004, em Paris. Esse exemplo recente serve para ilustrar algumas das idéias que desenvolvi ao longo do texto, cujo objetivo é provocar o debate e não propor respostas definitivas sobre o espinhoso tema do mercado das artes.

Há mais de 20 anos, Sotheby’s e Christie’s realizam, duas vezes ao ano em Nova York, leilões especializados de arte latino-americana. Quem já freqüentou estes leilões sabe que uma parte importante dos clientes viajam da América Latina a Nova York para a ocasião. Outros tantos são latino-americanos residentes nos Estados Unidos e colecionadores americanos interessados na América Latina. Uma parcela menor é representada por europeus e asiáticos, que, há algum tempo, resolveram investir num filão que ainda tem muita margem para valorização.

Se tradicionalmente os leilões de arte latino-americana se realizam em Nova York, qual seria então o interesse de se realizar uma venda em Paris?

Ana Sokoloff, diretora do Departamento de arte latino-americanda da Christie’s explicou que a decisão de realizar um leilão em Paris se deveu à vontade de familiarizar o público europeu com a arte latino-americana, facilitar as relações com os poucos colecionadores existentes e conquistar novos clientes.

Um outro agente da casa de leilões declarou em off que a verdadeira razão da realização do leilão em Paris foi um calendário sobrecarregado na sede nova-iorquina (onde se realizam as vendas mais importantes): “Uma vez que nos leilões de arte latino-americana os clientes mais importantes são latino-americanos que viajam especialmente para a ocasião, o local da sua realização não tem assim tanta importância”.

Embora o leilão da Christie’s tenha apresentado, como de praxe, importantes obras modernistas (apresentadas de forma a enfatizar os laços com o modernismo europeu), a representação brasileira mais significativa era contemporânea. Ao todo 12 artistas e 17 obras, de um total de 100 artistas latino-americanos: Cícero Dias, Flávio de Carvalho, Di Cavalcanti, Valeska Soares, Sérgio Camargo, Jac Leirner, Mira Schendel, Vik Muniz, Miguel Rio Branco, Rosângela Rennó, Edgar de Souza e Ernesto Neto.

Somente um artista brasileiro -Miguel Rio Branco- foi adquirido por um colecionador europeu, todos os demais compradores eram brasileiros. Segundo a Christie´s, Beatriz Milhazes também havia despertado interesse de compradores europeus, mas sua obra foi retirada do leilão depois do catálogo ser impresso. Jean Boghici abocanhou boa parte das obras (Cicero Dias, Flavio de Carvalho, Mira Schendel, Di Cavalcanti).

Esses resultados indicam de forma clara que o “mercado internacional” não é uno, mas segmentado e que os colecionares não são “internacionais”, pelo contrário, estão sujeitos ao contexto local/regional.

O preço alcançado pelas 17 obras leiloadas não permite uma avaliação otimista do mercado para os artistas brasileiros: seis obras foram vendidas acima do preço de avaliação, sete ficaram abaixo e as demais ficaram na média. Essa variação se repete em muitos outros leilões que já tive a oportunidade de acompanhar. Isso faz dos leilões uma boa oportunidade de investimento. Os marchands compram obras abaixo do valor de mercado para depois revender com uma boa margem de lucro. Uma ocasião, uma semana após os leilões da Christie’s, encontrei, numa galeria em Nova York, a mesma obra de Mira Schendel leiloada em Paris por um preço três vezes maior. Vi isso acontecer muitas outras vezes. Certamente o mesmo pode valer para obras revendidas no Brasil.

Para a Christie’s, os resultados de Paris, de forma geral, foram positivos, mas é pouco provável que a empresa mantenha um calendário europeu.

Ainda que se considerem os leilões um mundo à parte e pouco representativo do funcionamento do mercado de arte -que é muito mais difuso e dinâmico nas galerias e feiras-, eles oferecem algumas vantagens para nossa análise: os preços são divulgados à luz do dia, os lances podem ser acompanhados ao vivo, os resultados públicos e, com sorte, os compradores identificados. Segundo estimativas, os leilões representariam menos de 10% dos negócios realizados. Mas, se não se pode dizer que os resultados dos leilões se reproduzem da mesma forma nas feiras e galerias, tampouco se pode imaginar que eles são diametralmente opostos.

Com esse exemplo não quero dizer que os agentes do mundo das artes no Brasil devam abandonar toda e qualquer estratégia de inserção no mercado internacional. Mas penso que é necessário um pouco mais de cautela nas apostas.

Existem circuitos alternativos, fatias de mercado que não movimentam somas extraordinárias, mas que possuem uma grande vitalidade e que são uma opção muito mais factível para artistas e galeristas brasileiros. Mais interessante talvez fosse considerar as oportunidades oferecidas por esses circuitos, pelos mercados reais (locais, nacionais, regionais) que possuem um potencial extremamente favorável para a arte brasileira. Os galeristas brasileiros que têm participado da nova Miami Basel destacam os colecionadores latino-americanos como os melhores compradores.

Por fim, dever-se-ia considerar a criação de um banco de dados sobre a arte brasileira contemporânea, que disponibilize informações não só sobre a cotação dos artistas no mercado, mas também sobre a participação em exposições, referências em publicações e na mídia, entrada em coleções públicas e privadas no Brasil e no exterior. Tal projeto poderia ser o ponto de partida para a construção de uma história internacional da arte brasileira, ferramenta importante para a consolidação do sistema das artes no Brasil e para o reconhecimento, sem concessões, da sua produção no âmbito internacional.

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Ana Letícia Fialho
É critica independente, pesquisadora especialista em inserção da arte brasileira e latino-americana nos circuitos internacionais, doutoranda na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, em Paris (Bolsa Capes).

1 - Sobre os requisitos fundamentais da arte contemporânea, entre eles o seu caráter intrinsicamente internacional (em oposição ao nacional), ver o livro de Anne Coquelin, “L’art contemporain” ( PUF, Paris, 1996).


2 - Entrevista na Christie’s, Paris, dia 3 de junho de 2004.


3 - Sobre a assimilação da arte brasielira à produção americana e européia, ver Ana Letícia Fialho, “Identity and territorial representation in contemporary art institutions: the gap between discourse and practices”, apresentado na New York University, em abril de 2004, e publicado no “Research abstracts 2004”, Centre for Brazilian Studies, Universidade de Oxford.


4 - Entrevista com Alfredo Molina, Christie’s, julho de 2004.


5 - Ver entrevista com galeristas divulgada no site Mapa das Artes, (www.mapadasartes.com.br).


6 - Uma estratégia visando o reconhecimento internacional da arte latino-americana tem sido desenvolvida por Patricia Cisneros, com auxílio de curadores como Paulo Herkenhoff e Luiz Perez-Oramas. Cisneros tem financiado, entre muitos projetos dedicados à valorização da arte latino-americana, uma série de publicações pela editora do MoMA.

 
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