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cosmópolis
GEOPOLÍTICA

Continente em transe
Por Igor Gielow

O Brasil está no centro do crescente surto de agitação política que toma conta da América Latina

Canto negligenciado do mapa da geopolítica, a América do Sul vem apresentando nos últimos meses uma série de sinais de reorientação de trajetória. Muitos deles são confusos, outros tendem à retórica pura. Mas há um processo, e em seu centro aparente está o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva. Como foco nevrálgico, a Venezuela de Hugo Chávez.

O movimento leva a crer que há um processo de integração regional um tanto desordenado, mas que tem a marca do antiamericanismo que de tempos em tempos irrompe por aqui. Mas há mesmo uma reação ao novo imperialismo da Era Bush? Ou apenas oportunismos localizados para uma composição, ao fim, com os interesses de Washington?

As respostas não são simples. Quando a Petrobras, talvez o maior símbolo do Estado nacional-desenvolvimentista latino-americano, vira vilã imperialista, como ocorreu na mais recente crise boliviana, é necessário convocar Glauber Rocha do mundo dos mortos para tentar entender para onde o continente está indo.

Como isso não é possível, resta ao observador uma tentativa de enxergar coerência nas sinalizações.


1. Brasil ‘‘potência’’ e o fetiche das alianças

Recentemente, o Brasil anunciou planos de investimentos com dinheiro público em negócios que chegam a US$ 2 bilhões em cerca de 15 projetos no continente. A Venezuela abocanha quase metade do valor, mas há de tudo: gasoduto na Argentina, usina de lubrificantes em Cuba. De quebra, a ilha de Fidel ainda pediu para ser admitida no bloco aduaneiro do Mercosul, o morto-vivo do continente.

O dinheiro viria do gordo caixa do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), US$ 23 bilhões neste ano. O presidente do banco, Guido Mantega, disse, significativamente ao ‘‘Financial Times’’ e não ao ‘‘Granma’’: ‘‘Lula está unindo o continente’’.

Está mesmo?

No começo de março, foi anunciada uma ‘‘aliança tripartite’’ para negociações com organismos multilaterais, com a mesma República Bolivariana da Venezuela e a Argentina do agora herói dos comentaristas de esquerda, Néstor Kirchner -que está se firmando como uma espécie de paradigma de caloteiro bem-sucedido, embora nem ele pareça esquecer que os males da moratória argentina e dos dez anos de políticas ruinosas anteriores a ela ainda vão durar, e muito.

Há um certo fetiche no Itamaraty lulista por tratados e alianças, como se a cúpula da diplomacia brasileira vivesse no fim do século 19 ou na frente de um tabuleiro de ‘‘War’’. Além de liderar alianças táticas ocasionais, como a ocorrida na reunião da OMC (Organização Mundial do Comércio), em Cancún (2003), o Brasil estabeleceu um certo G-3 com África do Sul e Índia, países supostamente com o mesmo perfil, uma iniciativa lógica, mas inócua até agora.

Ao mesmo tempo, Brasília corteja países árabes e vai oferecer salamaleques para eles numa cúpula com colegas sul-americanos em maio. Petrodólares? Talvez, embora a ênfase seja mais política -com efeito, o país mais namorado pelo Itamaraty vem sendo a Síria. Por outro lado, a África também vem recebendo atenção especial, com abertura de consulados e embaixadas pelo continente. Até uma corveta foi doada para a Namíbia. Por motivos óbvios, não são esperados grandes frutos comerciais desse movimento em especial.

Todos esses lances, um tanto atabalhoados, se acumularam nos dois primeiros anos da administração Lula. Por isso, a sucessão recente de ‘‘jogadas’’ na rodada América do Sul do jogo dão a entender que haverá, enfim, maior atenção ao ‘‘nosso’’ canto do mundo por excelência.


2. Dois venezuelanos: Bolívar e Chávez

Antes de mais nada, um pouco de desmistificação. Falar em integração latino-americana, pátria bolivariana ou algo assim é nada mais do falácia. Visite qualquer país andino e procure lá identificação cultural com o Brasil que ultrapasse o campo do futebol ou, numa sofisticação intelectual, as novelas das oito. O que se achará por lá, por todos eles, são ‘‘Paseo Colón’’, ‘‘Plaza Bolívar’’.

A América do Sul é divida em dois, e não há discurso bonito de integração que mude isso. De um lado, a mistura dos sobreviventes do grande massacre de culturas indígenas com os algozes espanhóis. Do outro, o amálgama do colonizador português e dos índios e negros sob seu jugo. Isso tudo mais as elites brancas e europeizadas locais. Desejos unionistas têm que passar por essa compreensão, e não apostar em similaridades artificiais.

Mas ao menos na retórica não é isso que ocorre. Basta ver o vetor dos interesses do Brasil: o regime ‘‘bolivariano’’ do coronel Hugo Chávez. Em 14 de fevereiro, o líder venezuelano e o distinto público foram brindados por mais um discurso cheio de platitudes do presidente brasileiro, no qual ao fim ele lembrava o modelo de Bolívar, sua vontade unificadora.

Ora, Simon Bolívar teve vários feitos militares reconhecidos e uma intenção ‘‘nobre’’ sanitizada para os livros de história, mas seu legado para a política latino-americana foi mais duradouro no campo das brigas intestinas de grupos de poder do que no da real integração do continente. No ápice de seu poder, em 1824, governou sobre cinco países -inclusive uma aberração criada para homenageá-lo na melhor tradição personalista local, a Bolívia. Quatro anos depois, apenas a Colômbia seguia suas ordens. Não por acaso, Brasil não fez parte de seu vocabulário.

Chávez brinca de encarnação do general que morreu de tuberculose após ver seu império desintegrar-se, em 1830. Só que, diferentemente de Bolívar, ele tem uma arma poderosa nas mãos: petróleo, na forma da maior reserva conhecida fora do Oriente Médio.

Na esteira do seu famoso discurso no qual criticava a ‘‘mão peluda e ossuda’’ do imperialismo norte-americano, Chávez teve mais um de seus arroubos retóricos há poucos dias, desta vez trazendo calafrios aos saudosistas da Guerra Fria. Afirmou, durante a Cúpula da Dívida Social, em Nova Déli, que sua ‘‘revolução bolivariana’’ buscará agora o socialismo.

‘‘É preciso inventar esse socialismo que sirva para o século 21, por isso devemos debater seus conceitos. A democracia revolucionária que promovemos vai nessa direção’’, afirmou. Dando peso ao que parece ser uma bravata, o escritor Alberto Garrido, muito próximo a Chávez, disse que ‘‘começou formalmente a etapa socialista da revolução bolivariana’’. Alguém falou Fidel Castro?


3. O coronel malvado e o satélite colombiano

Com tudo isso nas mãos, Chávez se aventura a ameaçar de tempos em tempos os Estados Unidos com cortes no fornecimento do produto (vende aos gringos do Norte 15% dos que eles consomem) e se dá ao luxo de bajular tantos adversários de Washington quanto seja possível. Passeou na Mercedes-Benz de Saddam Hussein quando o ditador iraquiano ainda andava em carros blindados de sua propriedade.

Na semana retrasada, recebeu ninguém menos que Mohammad Khatami, o presidente do país mais querido dos planejadores militares norte-americanos, o Irã, um dos centros do antigo ‘‘Eixo do Mal’’. Chávez assinou uma ‘‘aliança estratégica’’ com o país dos aiatolás.

O venezuelano enfrentou um golpe da elite desesperada pela perda do poder, com apoio descarado dos EUA. Agora, parece que o Tio Sam percebeu que não pode mais patrocinar esse tipo de ação tão à luz do dia e terceirizou o papel de desestabilização de Chávez para seu único satélite militarizado na área, a Colômbia.

A disputa sobre uma ação ilegal em solo venezuelano, de seqüestro de um membro da narcoguerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), quase progrediu para uma crise mais grave entre Bogotá e Caracas. Por ora, os ânimos se acalmaram. Mas o caminho para o pretexto de uma confusão maior, a próxima ‘‘arma de destruição em massa’’, está dado.

Mau menino, Chávez não ajuda. Comprou 100 mil fuzis de assalto Kalashnikov da Rússia para armar suas milícias de inspiração cubana e, mais importante do ponto de vista regional, negocia compra de armamento militar mais pesado de Moscou.

Neste ponto, ameaça criar uma pequena corrida armamentista regional. Na semana passada, anunciou que vai gastar US$ 120 milhões na compra de dez helicópteros russos, inclusive modelos de ataque adequados ao campo de batalha da selva amazônica.

Além disso, namora a idéia de adquirir 50 caças MiG-29, que sobram nos estoques ex-soviéticos. Se comprar a versão modernizada dos MiG-29, a SMT, Chávez terá os melhores aparelhos do continente. Talvez com isso o Congresso norte-americano até libere os mísseis que o Chile comprou -mas não recebeu porque são muito avançados e provocariam ‘‘desequilíbrio regional’’- para equipar os F-16 que resolveu adquirir numa concorrência muito semelhante à que foi abortada pelo governo brasileiro.


4. A ‘‘aliança’’ com o Brasil

Nesse contexto, fica esquisita para consumo externo a ‘‘aliança estratégico-militar’’ de Caracas com Brasília, anunciada na viagem de Lula. Em princípio, o tigre é de papel: o que está em jogo é a patrulha comum da Amazônia, inclusive com a compra por Caracas dos Super Tucanos, o melhor turboélice de combate para cenários de guerra de selva do mundo.

Como o Brasil já possui estrutura e tecnologia para monitoramento aéreo e sensoriamento remoto da região amazônica, é natural a integração -tanto que Colômbia e Peru já estão em tratativas semelhantes, embora sem incluir em princípio compras militares.

Mas pouco se sabe sobre as intenções de Chávez, exceto sobre seu apego ao poder. Não são poucos os sinais de setores militares brasileiros mais alarmados sobre riscos de um conflito regional que acabasse dragando o Brasil. Mas isso é pura especulação e, até pelo peso natural que teria numa eventualidade dessas, o Brasil tenderia a sair como pacificador.


5. Lula e o Tio Sam

De todo modo, para os olhos não muito dados a matizes de Washington, o que há é um tabuleiro, e as peças brasileiras são da mesma cor das venezuelanas.

Uma leitura corrente na praça é a de que, ocupada com suas aventuras militares decorrentes do 11 de Setembro, os EUA até gostariam de ver o Brasil como líder inconteste da bugrada. Bastaria pois negociar em termos interessantes para Brasília alguma versão da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), ou até um acordo bilateral que jogasse fora a união mais ampla, para que os interesses de George W. Bush estivessem bem guardados. E Lula sai na foto como paladino do continente.

É uma versão. Resta saber como fica, num acordo desses, a posição em relação à China -que se volta para o continente com fome de petróleo e commodities para seu grande e solitário jogo de consolidação como superpotência. Ou ainda uma aproximação muito grande do incendiário Chávez, a ponto de ele se sentir encorajado a botar as asas de fora militarmente com a vizinha Colômbia, ou ainda insuflando revoltas em rincões miseráveis, como fez com a Bolívia em 2003.

Outro ponto a ser analisado é a proliferação de governos nominalmente de esquerda, processo coroado com a histórica eleição de Tabaré Vázquez no Uruguai. Histórica porque, depois de décadas de domínio alternado dos mesmos grupos conservadores, o país pôs no poder um grupo de políticos que era classificado de subversivo há algumas décadas.

Se vão adernar para uma retórica antiamericana, a exemplo de Chávez e, em menor escala, Kirchner, é algo a ver. Provavelmente Vázquez seguirá o rumo de Lula e do chileno Ricardo Lagos, mais dados à ortodoxia econômica e uma rápida composição com setores antes ‘‘adversários’’ em nome da governabilidade -ou do apego ao poder e suas benesses, como queiram.

Mas o fato é que os EUA olham para baixo no mapa e vêem um continente dominado por gente que até há pouco tempo chamava o Tio Sam de Grande Satã. Pode ao fim não significar nada, em termos de mudança real de posicionamento político, mas é uma novidade inegável.

Uma movimentação a ser explicada, nesse contexto, ocorreu há três semanas, quando o (quase) todo-poderoso ministro José Dirceu (Casa Civil) esteve falando com a (realmente) toda-poderosa secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice.

Dirceu, como se sabe, é dado à geopolítica. O que realmente pensa é objeto de especulação, já que segue a tradição da instrução que recebeu como revolucionário exilado em Cuba durante a ditadura militar brasileira: segredo e dissimulação. Mas interlocutores seus contam sobre seu gosto pelo tema, em especial os aspectos militares.

Assim, ventilou-se de tudo: que Dirceu havia falado sobre a reativação do projeto de lançar a Alca, que havia passado algum recado de seu amigo Fidel Castro. A verdade ainda está por ser revelada.

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