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Segundo Wisnik, tal solução rítmica é homóloga à "dialética da malandragem": "Trata-se uma rítmica que se baseia na oscilação constante entre uma ordem e sua contra-ordem acentual, sustentadas no mesmo movimento. Decanta-se, com isso, no plano técnico da construção rítmica, uma espécie de negaceio estrutural (...) cheio de acenos e recuos, de promessas em aberto, de objetos chamativos e escapadiços, conduzido numa cadeia aliciante".

As citações bastam para se entender um dos motivos principais que levaram o Estado Novo a regularizar o samba: tratava-se de uma iniciativa para disciplinar uma reversibilidade estrutural entre a ordem e a desordem que, uma vez instalada no corpo, prometia dissoluções incompatíveis com a manutenção da ordem pública (e com certas padronizações rítmicas somáticas que o cinema de espetáculo exige, poderíamos acrescentar).

Mas isto ainda é insuficiente para sinalizar o alcance das melhores partes do filme: como é possível constatar em qualquer cobertura televisiva do Carnaval, um samba pode ser apresentado dentro de uma moldura que desvaloriza seu "negaceio estrutural". É preciso que a representação incorpore suas "promessas em aberto", isto é, que suas virtualidades emancipadoras ganhem ductibilidade imagética.


“Dialética da malandragem” na imagem?

Para se aproximar do alcance da fotografia de Walter Carvalho em "Madame Satã" (decerto em sintonia com o diretor Karim Aïnouz) é preciso ter em mente seu diálogo intenso com aspectos da obra do artista plástico Miguel Rio Branco. Ambos compartilham características técnicas (o uso da baixa luz), personagens (negros, malandros, marginais, prostitutas), pontos de vista (visões da intimidade), ambientes (o submundo cujas paredes carregam sinais da passagem do tempo), atmosferas (utilização da cor como elemento agressivo, sensualidade em situações trágicas, tensão latente no lado prosaico do "bas-fonds", a provisoriedade como habitat). Todo um universo comum ao qual Carvalho acrescenta não pouca singularidade, tais como o foco crítico pelo uso de lentes longas e o enquadramento fechado que revela somente fragmentos do objeto fotografado.

Seria demais ver uma figura atual da "dialética da malandragem" configurada em lógica formal nesses vários aspectos da fotografia do filme? Sem forçar a nota, é possível ver em quase todas essas descrições da fotografia formas de desordem latentes ou manifestas: os contornos quase invisíveis dos objetos sob baixa luz, o fora de foco como indefinição expressiva, o fragmento do objeto como impossibilidade de totalização do visível etc. Tudo isso são elementos de desorganização das formas clichês de dar sentido ao mundo e que ganham eficácia suplementar pela montagem (com seus instantes de descontinuidade na continuidade) e pelo uso da música (o negaceio estrutural do samba).

No catálogo de uma exposição de Miguel Rio Branco, há uma epígrafe de Goethe que chamada a responder em nosso contexto pode ser sugestiva: "A cor é a expressão e o sofrimento da luz". A conjunção entre expressão e dor é a designação alegórica de algo que almeja dizer a totalidade, mas que fica como resíduo incompleto: as paredes carcomidas pelo tempo (nos cenários do filme, nas fotos do catálogo) são sinais de uma história cuja ambivalência é latência de algo ainda irrepresentado (e a depender de quem conta, para sempre irrepresentado, sob a camada aparentemente transparente do clichê).

Nesse mundo inomeado, a imagem carrega um duplo nível de leitura, que conjuga o habitual e o provisório, a tensão e o cotidiano, o sensual e o trágico, a cor e a dor. Uma representação complexa, portanto, que epígono algum de Cecil B. de Mille, diretor daquele longínquo "Madam Satan", permitiria realizar. A singular "malandragem" de "Madame Satã" quebra a ilusão de realidade habitual no cinema de espetáculo e desfaz o horizonte transparente da linguagem que este apregoa: se a indústria cultural caracteriza-se por oferecer imagens pelas quais o público se identifica, aqui se coloca um véu de opacidade no qual elas se desfazem, ainda que por um breve instante, na cadência bonita do samba.

Na parte final, logo após a apresentação de Satã, não demora muito para alguém aparecer -um "deus ex machina" repressor- na figura de um bêbado homofóbico (outra figura que ao seu modo internaliza ordem e desordem, aqui com sinal negativo). Seria difícil deixar tanta energia liberada sem supereu que a aprisionasse. É o que fragiliza o desenlace dramatúrgico e pede de volta o abre-alas de uma imagem dissolvida -granulada, contrastada, saturada de vermelho- sob um fundo rítmico poderoso: o público agradece a volta de Satã, espírito que nega de modo singular no lado de baixo do Equador.


Negativos do Terceiro Mundo

Antonio Candido mais de uma vez foi colocado em questão sobre seu ensaio à respeito da "dialética da malandragem", principalmente pelas conseqüências positivas que tirou dela. Vejamos uma de suas afirmações polêmicas (no caso, ao opor nossa malandragem à ética predominante nos Estados Unidos):

"Na formação histórica dos Estados Unidos houve desde cedo uma presença constritora da lei, religiosa e civil, que plasmou os grupos e indivíduos, delimitando os comportamentos graças à força punitiva do castigo exterior e do sentimento interior de pecado. (...) O duro modelo bíblico do povo eleito, justificando a sua brutalidade com os não-eleitos, os outros, reaparece nessas comunidades de leitores quotidianos da Bíblia".

Ao modelo norte-americano, o crítico literário contrapôs o "mundo sem culpa" da "dialética da malandragem", que poderia facilitar a inserção do Brasil "num mundo eventualmente aberto". Ao que teve pelo menos dois reparos justos de Roberto Schwarz: 1) o de que o processo social entrevisto na história dos Estados Unidos se conecta com o brasileiro, pois ambos são partes de um mesmo desenvolvimento do capitalismo; 2) somente no plano culturalista malandragem e capitalismo se opõem (a mesma reversibilidade entre ordem e desordem pode ser vista na repressão da ditadura a partir de 1969).

A questão é complexa, e talvez seja irresponsável retomá-la em poucas linhas, mas sem isso não indicaremos as últimas conseqüências do que afinal nos propomos aqui: o que esse ensaio e esse filme podem dizer do Brasil e do mundo hoje?

Por um lado, a presença constritora dos Estados Unidos alcança uma brutalidade sem tamanho: o discurso de legitimação das recentes intervenções militares confirma ponto por ponto da citação acima de Antonio Candido. Por outro, tudo isso faz parte sem dúvida do movimento geral do capitalismo, que também sabe fazer seus manejos ideológicos entre a ordem e a desordem para se legitimar. Só que essa mesma reversibilidade produzida em Hollywood ou no Rio de Janeiro pode ganhar perfil ideológico diverso, cada qual com um modo de perceber o mundo e se orientar nele (cada ideologia tem seu fundamento de verdade específico). Uma heterogeneidade ideológica decerto cada vez menor, uma vez que os lugares-comuns da indústria cultural já vão se tornando hábito e habitat por aqui, sem antropofagia alguma.

É justamente aí que se coloca a questão: a crítica da ideologia através do cinema depende que se ponha na mira a forma cinematográfica, ao mesmo tempo em que se enlace alguma compreensão da singularidade da experiência social em diferentes tempos e lugares (o que é indissociável do modo de representar, como vimos).

A forma desordenadora dos melhores momentos de "Madame Satã" mostra o quanto ainda há de irrepresentado e emancipador na experiência brasileira por trás da camada de clichês hollywoodianos que insistem em organizar nosso olhar, nossos filmes, nossa vida. Decerto não é a forma pura da "dialética da malandragem", tal como o crítico literário viu no romance de Manuel Antônio, mas talvez uma figura desta, no que ela pode ter de polemicamente positivo. A desordem que não está a serviço do poder ainda tem potência para nos situar no mundo: a mesma força que dilacera pode levar ao renascimento.

Em DVD:

“Madame Satã”. Direção de Karim Aïnouz. Com Lázaro Ramos e Marcelia Cartaxo. Fotografia de Walter Carvalho. Lançamento: W Mix Distribuidora. Cerca de R$ 35,00.

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Daniel Augusto
É diretor de cinema. Realizou a série de documentários "Mapas Urbanos".

1 - Id., ibid.


2 - Para ver a obra de Miguel Rio Branco dentro da fotografia brasileira recente, remeto ao livro de Rubens Fernandes Junior (“Labirinto e identidades: panorama da fotografia no Brasil”. São Paulo, Cosac & Naify, 2003).


3 - Como já deve estar claro, a orientação metodológica aqui segue de perto a conhecida formulação de Antonio Candido sobre a relação entre arte e sociedade: "Sabemos, ainda, que o externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na estrutura, tornando-se, portanto, interno" (“Literatura e sociedade”. São Paulo: T. A. Queiroz, 2000, p. 4).


4 - Rio Branco, Miguel. “Dulce Sudor Amargo”. Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, 1985.


5 - É o caso do ensaio preciso de Roberto Schwarz ("Pressupostos, salvo engano, de 'Dialética da malandragem'". In: “Que horas são?”. São Paulo, Companhia das Letras, p. 129-155).


6 - Op. cit. p. 50.


7 - Op. cit. p. 152-154.

 
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