"Edifício Master" chega ao DVD"> Trópico - Em nome do real
2

A motivação vinha também da curiosidade de olhar para fotografias de multidões e querer saber se cada pessoa ali estava viva ou havia morrido. Quem eram essas pessoas? Isso sempre me interessou. Daí essa proposta foi levada ao Lula, no início de agosto. Sabiamente ele disse o seguinte: "Ganhe ou perca, a minha campanha é histórica. E eu só sou o que sou porque houve as greves".


Mas foi um aval do Lula?

Coutinho: Não, apenas uma opinião.


Como você encontrou as personagens de "Peões"?

Coutinho: A gente fez três semanas de pesquisa no ABC (região metropolitana de São Paulo) e conversamos oficialmente com o sindicato. Depois filmei durante um mês. Eu tive um pouco de medo porque não havia o limite espacial, trata-se de uma região imensa. E era uma diáspora de 100 mil pessoas. Que fim levaram? Como encontrá-los? Fui obrigado a situar cada um no momento histórico. Foi bastante complicado. É importante ressaltar que o filme não é sobre o Lula, mas sobre as greves nas quais houve uma liderança.


Impressiona bastante, no filme, o silêncio constrangedor que ocorre quando o último personagem termina de falar e inverte os papéis, fazendo uma pergunta ao entrevistador. Por que você optou por não cortar este trecho?

Coutinho: É o ato de filmagem. Esse silêncio constrangedor, às vezes necessário, acontece ou não. No caso dele, eu não forcei nada. A gente estava conversando e, de repente, quando ele fala do passado, que tem saudades dos companheiros, ele repete o que já tinha dito mas não sabia definir o que seja peão. Aí ele entra no buraco. No buraco de uma vida intransmissível. E pela primeira vez eu consegui me calar e deixar o cara sofrer diante da câmera, porque eu sabia que o sofrimento dele era momentâneo.

Existe um fluxo de palavras, quando há silêncio esse fluxo acaba se interrompendo. Então, quando o cara está no fundo do poço e você não pergunta, pára o troca-troca. Trinta e dois segundos de silêncio basicamente. Depois disso, ele sai da situação com genialidade, porque me coloca em questão. Pergunta: "Você já foi peão?" e acaba o filme. E ele está dizendo isso para o público também, já que quem vai assistir a um documentário não foi peão nunca. Mas é fundamental você assumir a diferença, eu sou um não-peão fazendo filme sobre peões.


Não te incomoda o fato de seu público ser restrito a uma classe de intelectuais e estudantes?

Coutinho: Você está num sistema -não vou dizer um gênero- que foi, é e será marginal. O documentário foi marginal em cem anos de cinema, é marginal e será marginal. Não é um lugar de sonhos. O documentário já tem, de cara, o caráter experimental. O grande público não vai ver.

Mesmo os filmes de ficção de baixo orçamento conseguem no máximo um público de 100 mil ou 150 mil, que é praticamente o público de "cinema de arte". Essa é a realidade do mercado. A pessoa que não é "educada" vai assistir a um filme meu ou outro documentário e diz: "Ah, isso eu vejo na televisão, é uma reportagem". E sai da sala em cinco minutos. O público atual quer sonhar e, se possível, sonhar americano. É um dilema do real.


No Festival de Gramado, você disse que não concordava com o tipo de premiação adotado. Por quê?

Coutinho: Existem duas coisas distintas: o mercado e a instância cultural. Os museus, os festivais, as universidades fazem parte da instância cultural, aquela que simbolicamente te dá prêmios. Você não ganha dinheiro, mas recebe honrarias. Gramado, portanto, é uma instituição cultural, ela não deve se pautar pelo mercado.

Quando se cria uma categoria de ficção e outra de documentário, o que eu já acho discutível, e você passa ficção às nove da noite e documentário às quatro da tarde sem pagar entrada, você está desqualificando o documentário. E, na premiação, os filmes de ficção recebem prêmios de melhor montagem, melhor fotografia, enquanto para documentários existe apenas o prêmio de "melhor documentário".

Isso alimenta a idéia de que o documentário é uma fruta que se pega na árvore, como se não fosse construído, produzido por trabalho humano. E o cara do som? O cara da luz? Então, desconhecer isso é uma sacanagem.


Por também ter passado pelo jornalismo, você acredita na objetividade e imparcialidade como referências ao seu trabalho atual?

Coutinho: Essa é uma discussão inacabável, que para mim não interessa. No campo do jornalismo, a imparcialidade tem-se resumido a ouvir o outro lado. Então, você vê nos jornais sempre um espaço dedicado a dar voz aos dois lados, o que não resolve nada, pois uma história pode ter cinco ou mais lados. Em geral, eu acho o jornalismo na televisão brasileira mal feito. Mas meu campo é outro, o do documentário.


Qual a diferença?

Coutinho: Olha, de imediato, pode-se dizer que o documentário dura e o jornalismo não dura. E uma das razões pela qual ele dura é que não está preso a essas noções de imparcialidade e objetividade para se atingir o real. O documentário tem como tema exatamente a impossibilidade de se chegar ao real.


Como você encara o cinema de Michael Moore? E os documentários do Frederick Wiseman?

Coutinho: Os filmes de Michael Moore acabam tento um papel político de informação e militância. Na verdade, ele é um populista de esquerda. Se chamar o Michael Moore de artista, ele vai ficar puto. Mas é um caminho. É outra visão do mundo de documentário. O que acontece é que ele lida eventualmente com pessoas e as trata como peças de uma engrenagem. Agora o que eu acho pior no último filme dele é aquela personagem que ele constrói como ideal: branca, conservadora, casada com um negro, multicultural. Acho aquilo uma chantagem sentimental.

O Wiseman é outra coisa. Os filmes dele só passam na televisão, há 30 anos ele faz o mesmo filme, o que é interessante. Tanto ele como o Michael Moore se beneficiam de um traço americano muito forte, que é o fato das instituições terem de prestar contas.

É um lado bom que sobrou do capitalismo americano. Mas eles também são produtos de um certo ativismo social, no sentido de que o que interessa para ambos são os fins, e não os meios.


Você tem algum projeto novo em andamento?

Coutinho: Já filmamos um novo projeto no ano passado e agora estamos no processo de montagem. Segui três princípios para este novo filme. Primeiro, optei por fazê-lo sem pesquisa prévia, em segundo lugar, fugir do espaço urbano e, por fim, trabalhar sem tema e sem locação predefinidos. Por afeição, escolhi a Paraíba. Depois, definimos uma área no sertão, onde tinha um hotel perto para começar, e acabamos encontrando uma comunidade formada por 86 famílias. Tive a ajuda de uma pessoa do local como espécie de guia antropológico. Conversei só com pessoas mais velhas. Foi uma experiência extraordinária, espero que eu consiga passar para o público isso.


Já definiu o nome do filme?

Coutinho: Por enquanto vai se chamar "O fim e o princípio".

Fernando Masini
É jornalista.

 
2