CIÊNCIA
O catálogo universal da vida, por Paula Sibilia
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prosa.poesia
MEMÓRIA

A lucidez hipnótica de Tarkos
Por Heitor Ferraz


O poeta francês Christophe Tarkos
Reprodução

Poeta francês, morto no final do ano passado, é uma das principais vozes da literatura contemporânea; leia traduções

Em apenas 15 anos, o poeta francês Christophe Tarkos construiu uma obra literária considerável. Foram mais de 20 livros, por várias editoras. Foram também várias apresentações públicas, inclusive com incríveis improvisos de poemas. Uma obra espantosa, de qualidade, e escrita em poucos anos de trabalho. Em novembro do ano passado, Tarkos não suportou as conseqüências de um tumor cerebral diagnosticado no final dos anos 90 e morreu em Paris, aos 40 anos, deixando uma legião de admiradores (como também de detratores, pois em poesia a unanimidade é impossível).

Sua poesia (quase sempre poemas em prosa) ainda não é muito conhecida no Brasil, apesar da publicação de algumas poucas e boas traduções. A primeira delas foi feita pelo poeta Carlito Azevedo, para a revista “Inimigo Rumor 11”. Depois, seguindo indicação de Azevedo, foi a vez do romancista Rubens Figueiredo, que traduziu dois poemas do livro “Carrés” e os incluiu, marotamente, na revista “Ficções 10”, de prosa. Mais recentemente, Mazé Lemos traduziu outros dois poemas, e Azevedo mais um, todos para a “Inimigo Rumor 16”.

A obra de Tarkos é bastante singular. Uma característica que logo chama a atenção é a repetição ostensiva de blocos inteiros de palavras, uma repetição com pequenas variações dentro dos blocos. Essa variação pode ser apenas uma inversão de palavras, ou a alteração do tempo verbal de um verbo que já havia aparecido e se repetido na frase, ou ainda a inclusão de uma outra palavra que ajuda a determinar melhor o que está sendo dito. A frase, assim, vai se compondo, se recompondo e se desenvolvendo, com elasticidade e flexibilidade, diante dos olhos (ou ouvidos) do leitor.

Para esse agrupamento de palavras, o próprio poeta cunhou o conceito “pâte-mot”, ou seja, algo como “pasta-palavra”. Uma metáfora –brincava- um tanto gastronômica. Suas teorias, por sinal, sempre deixavam as pessoas atordoadas, ou desarmadas, sem saber se o que ele estava explicando era mesmo sério (e era) ou se era irônico (e também era). Esse desarmamento também fazia parte de sua poética.

Para ele, tudo que se vai dizer, tudo que se diz, é composto por um grupo de palavras, e o sentido da frase é dado por este grupo, não por uma palavra isolada. Mas mesmo assim a fala não está livre de outras relações: “O problema é que este grupo de palavras está ligado por relações, quer dizer, a relação que há entre nós já é um grupo de palavras e nós sabemos que tipo de relação existe entre nós. Em geral, as relações entre nós não são nada boas, elas são forradas de interesses e estruturas. Então, o que se vai dizer é um grupo de palavras que está sempre ligado a esta estrutura. É esta estrutura que vai nos dizer o que se vai dizer”.

Tarkos agia, assim, quase como um lingüista preocupado com o estudo da fala, da linguagem oral e de toda a estrutura que envolve o discurso entre falantes de uma língua. Sua poesia absorvia essa complexidade numa aparente facilidade. A técnica da repetição poderia sugerir uma brincadeira inteligente, um joguinho de montar e desmontar, até um tanto monótono, como alguns chegaram a pensar. Mas o que se vê é um resultado muito mais complexo, pois o poeta circula um tanto pongeanamente em torno do seu objeto e o revela em vários ângulos, inclusive em suas contradições internas.

Nenhum tema importante da nossa época escapou ao ritmo cativante da sua poesia. Um dos seus poemas mais fortes, ao lado de “Ma langue est poétique” (Minha língua é poética), é “L’Argent” (O dinheiro). Trata-se de um longo poema em prosa. Nele, Tarkos não usa o dinheiro para fazer uma crítica superficial e óbvia ao capital. Ele mostra o dinheiro agindo no cotidiano, costurando e descosturando relações, vivendo, trocando experiência e ganhando vida própria, em toda a sua amplitude e uso: “O dinheiro é o único valor que tem uma ligação com o viável. Este valor é um valor exterior moral e um valor infiltrado a cada dia em todas as direções, ele se infiltra, ele está presente em todas as realizações, ele se espalha em todos os movimentos do espírito, ele está infiltrado em todos os gestos, ele não ficou no domínio dos julgamentos, ele é um valor vivo”.

Essa é a força irônica, corrosiva, mas principalmente expressiva, da poesia de Tarkos. Com um estilo muito próprio, ele pôde abrir o leque de suas investigações poéticas chegando mesmo a se tornar um grande leitor público de seus poemas. Sua familiaridade com a leitura em cena aberta, absorvendo inclusive as falhas normais da fala, os silêncios, as quebras de pensamento, fez com que ele também se aprimorasse na arte do improviso, como um grande solista de jazz. Um exemplo maravilhoso dessa capacidade criativa de Tarkos é o poema “Le petit bidon” (A latinha). O internauta pode ter uma palhinha ao ouvi-lo no site das Éditons Cactus e perceber como ele vai criando tensão e agregando informações ao falar de uma simples e banal lata de óleo esquecida numa mesa de cozinha (veja o link deste artigo).

Nascido em Marselha, ele se apresentava da seguinte maneira: “Nasci em 1963. Eu não existo. Eu fabrico poemas. 1. Eu sou lento, de uma grande lentidão. 2. Inválido, na invalidade. 3. Passagens regulares por hospitais psiquiátricos há dez anos”. E foi exatamente essa figura controvertida, de fisionomia séria, mas de um humor refinadíssimo, que subiu ao palco da poesia francesa contemporânea no começo dos anos 90, colocando sua irônica fábrica de poemas para funcionar, publicando livros e participando ativamente de revistas de poesia e literatura.

Como lembrou o poeta Henry Deluy, Tarkos “deixou um conjunto grandioso de livros”. Vários pela combativa editora POL, como “Caisses”, “Pan” e o mais recente (e autobiográfico) “Anachronisme”, de 2001. Muitos outros saíram pelo selo Al Dante, que se destaca pela publicação da nova poesia francesa, como “Oui”, de 1996, “L’Argent”, de 1999, e a caixa “Ma langue”, de 2000. Além desses livros, Tarkos publicou alguns outros por numerosas pequenas editoras. Tanto na França como aqui, são as pequenas que encaram a responsabilidade de fazer o trabalho que as grandes têm pouca coragem e pouca vontade política de fazer.

Também é Deluy quem lembra a assídua participação de Tarkos nas revistas de poesia, publicando poemas em “Doc(k)s”, “Java”, “Action poétique”, “Nioques” e “Quaderno” (onde foi editor juntamente com o poeta Phillipe Beck). Em 1997, ele participou da criação de “Poézi prolétèr”, com Katalin Molnar, e em 1999 de “Facial”, com Charles Pennequin, Vincent Tholomé e Nathalie Quintane. Para o poeta e filósofo Beck, que o conheceu em 1997, Tarkos chegou na cena parisiense “equipado”. “Ele já era ele quando surgiu. Estava pronto. Arriscava suas afirmações e as arriscava até o fim. Sua teoria era também uma arte”, disse o poeta em depoimento, ainda em 2000, para o programa “Les Mardis Littéraires”, de Pascale Casanova.

Na poesia de Tarkos, como anota em imagens fortes Christian Prigent, poeta, crítico e também admirador, “nós vemos novamente a língua infiel refluir sobre a areia instável do real”. Para ele, que é da geração anterior, “poucos escritores sabem nos introduzir com uma inevitável mistura de ternura sutil e crueldade zombeteira no mal-estar da língua, que passa como uma lâmina entre o mundo e nós”. A língua, de fato, revive, como se percebe, por exemplo, na leitura de “Anachronisme”, um livro lírico e certamente autobiográfico. É o livro do homem vivendo sua época e o cotidiano, muitas vezes instável, de sua cidade e país.

Claro que não se deve misturar autor e obra, como ensina a boa regra da crítica literária. Mas não deixa de ser curioso que a poética de Tarkos, essa poética da repetição, que certamente recebe influência de Gertrude Stein, tenha marcado tanto sua vida. A própria doença e as seqüelas que ela deixou parecem se encaixar dentro dessa poética. Numa entrevista em 1999, Tarkos explicava para Pascale Casanova, no programa no programa que ela mantém na France Culture, que ele já não conseguia ler direito um livro inteiro, nem mesmo uma página, apenas as primeiras linhas. Essas primeiras linhas que em muitos poemas se repetem.

“Meu tumor impede-me de ler, descobriram que eu tenho um tumor no cérebro, e ele me impede de ler. Tenho um problema. Eu posso ler apenas o começo de um texto, as primeiras linhas. Por isso, eu estou lendo agora apenas a primeira linha dos meus poemas”, disse Tarkos, com a voz debilitada, deixando que a leitura completa dos seus poemas fosse feita por uma amiga.

Em muitos dos seus poemas é essa linha inicial, a primeira frase, que aparece e reaparece, hipnotizando o leitor, fazendo com que ele participe, até corporalmente, do seu ritmo crescendo e acelerado. É como se a própria doença participasse de sua poética. Mas tudo isso, claro, são injunções posteriores e nada dizem da importância desse poeta e de poesia. Mas Tarkos, com ironia, com humor, com seriedade, tinha em mente a função possível do poeta nos tempos atuais. Como ele mesmo escreveu, num de seus poemas, “o poeta vivifica a língua, torna a língua viva, ela é viva, ela é bela”. Foi essa beleza, algo que parecia impossível de aparecer em nossa época, que ele conseguiu reconquistar para a cultura francesa, mas provavelmente agora em outro patamar.


***

Poemas de Tarkos
Traduções de Heitor Ferraz


Eu atravesso a ponte, a ponte atravessa o Sena, eu atravesso o Sena, caminho ao longo da ponte, eu não paro, quando caminho eu olho o Sena, a água, sigo por uma ponte, caminho sobre a água, a ponte passa sobre a água, a ponte é longa, eu caminho longamente, vou bem junto ao parapeito da ponte, a ponte passa por cima do Sena, olho o Sena, a água, a água cinza, não estou só, o Sena não está só, estou sobre uma ponte, eu caminho olhando para o rio, a água do rio, a água cinza do rio, eu sigo por um dos lados da ponte, a ponte se alonga de uma margem a outra do Sena, eu caminho de cabeça baixa, a ponte deixa o Sena correr, não olho para a correnteza, tenho sob os olhos a água cinza e larga que passa, eu passo, eu caminho, eu sigo meu rumo, sigo a ponte, eu atravesso a ponte, reparando de vez em quando na água cinza do Sena, a ponte larga atravessa toda a largura do Sena, eu apenas caminharei.
Do livro “Anachronisme” (POL)

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Estou no quarto, estou no parque, olho através da janela, vejo a chuva, a neve, os galhos das árvores, os raios do sol, olho os esquilos correndo pela grama, as pinhas dos pinheiros que despencam no chão caindo dos galhos das árvores, eu vou sair, vejo a sombra da árvore que entra pela janela espreguiçando-se na parede, às vezes, um esquilo passa pela grama, os galhos quase tocam a janela, eu olho quando vejo um esquilo descendo rapidinho da árvore e passa entre os pés das árvores na grama, o sol atrás de um tronco escuro, os galhos da árvore entram dentro do quarto, vou sair do quarto, vou passear um pouco, encontrarei no bar a garota que encontrarei mais tarde num café da cidade, ela me dirá que ela tocava piano, que ela tinha terror de sair das cobertas, que ela passava dias inteiros deitada na cama, que ela não podia nem se mexer, que ela está melhor, que encontrarei mais tarde no café da cidade sem saber seu sobrenome, ela me dirá seu nome, eu lhe direi meu nome, eu lhe direi que eu escrevo, ela é frágil, ela tem a voz doce, ela me perguntará se minhas agitações duram muito tempo, eu lhe direi que eu não posso contê-las, depois não me lembrarei mais do seu sobrenome, eu a terei esquecido, mas não terei esquecido seu rosto e logo que a encontrar eu lhe direi oi, bom dia, venha se sentar aqui com a gente, eu não me lembrarei nem do seu nome, nem de desde quando eu a conheço, nem onde foi que nós nos encontramos pela primeira vez, eu vou sair, ir até o bar, sentar-me numa mesa, será na mesa que ela virá se sentar e me perguntar, ela é frágil, ela está viva.
Do livro “Anachronisme” (POL)

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1 - As frases citadas de Tarkos foram retiradas de entrevista concedida à socióloga Pascale Casanova, que apresenta o programa “Les mardis littéraire”, na rádio France Culture.


2 - Nathalie Quintane esteva em 2004 no Brasil para o lançamento de “Começos”, pela coleção Ás de Colete, da Cosac e Naify, com tradução de Paula Glenadel.


3 - Trecho do artigo “Le presque rien”, publicado em “Le Monde des Livres”, em 12 de março de 1999. Este texto pode ser lido no site da editora POL.

 
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