1
cosmópolis
AMÉRICA LATINA

A nova era do Uruguai
Por Denise Mota


O novo presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, no dia da posse
Claudio Guido/El Espectador/www.espectador.com

Depois de mais de um século de governos-dinastias, país elege o seu primeiro presidente de esquerda, Tabaré Vázquez

"E já se vê, e já se vê o presidente Tabaré." Sábado, 9 horas da noite. Acaba de cair a noite, de um céu estrelado e sem nuvens, após mais um dia de sol em Montevidéu. Entusiasmados por crescentes copos de cerveja e pelo calor, 7.000 jovens esperam pelo início do show do NTVG ou No Te Va a Gustar (Você Não Vai Gostar), a banda local mais popular dos últimos tempos.

As luzes se apagam, cresce a excitação, camisetas se agitam, NTVG sobre fundo negro. Sobem bandeiras do país, do time de futebol Peñarol, do seu rival, o Nacional. NTVG em negro sobre fundo branco, camisinhas infladas fazem as vezes de bexigas, cigarros dos mais diversos matizes defumam o gramado. A platéia exige que a apresentação comece, e é então que um grupo puxa esse que foi o coro mais entonado no país na última semana e que celebra a chegada, não de um grupo de rock, mas sim do oncólogo Tabaré Vázquez à Presidência da República.

Eleito com 50,45% dos votos em outubro do ano passado, o médico de 65 anos põe fim, com sua Frente Ampla, à alternância de poder dos tradicionais partidos Colorado e Blanco, nascidos das aristocracias rural e urbana, que dominaram o cenário político durante 174 anos.

Aos gritos de "Uruguai, Uruguai" que se sucederam ao saludo presidencial, os sete integrantes do NTVG subiram ao palco de um país que se crê renascido e cantaram para uma parcela da população que alcança recordes de pobreza: 60% das crianças e jovens abaixo de 18 anos vivem em condições precárias. Apostam as fichas nessa mudança de mando para voltar a considerar que podem sobreviver em seu próprio país e assim romper com outra tradição, esta mais recente: emigrar. Nos últimos três anos, 100 mil uruguaios foram viver no exterior.

País que já foi referência de educação, qualidade de vida e renda na América Latina, o Uruguai, outrora denominado "Suíça da América do Sul", enfrenta desemprego de 12,1%, e a pobreza atinge 30,9% do total de seus habitantes, com 200 mil pessoas em estado de extrema precariedade. Os espectadores ansiosos da banda de rock representam um dos três setores declaradamente prioritários para o novo mandatário. Em seu discurso de posse na Assembléia Legislativa em 1º de março último, Vázquez citou a juventude, as mulheres e os idosos como os principais alvos da gestão que se inicia.

Aos emigrados, dedicou projeto de lei em tramitação, para que possam fazer uso do voto consular. Reestabeleceu relações com Cuba, rompidas pelo governo anterior, frisou a importância do Mercosul (sem fazer menção à Alca) como foco da política exterior e enfatizou medidas relativas ao cumprimento dos direitos humanos, a mais importante delas sendo a investigação sobre corpos de desaparecidos políticos em batalhões do Exército do país, já iniciadas.

Às famílias que já não têm a alimentação como uma rotina, hoje contabilizadas em 40 mil, anunciou o começo de seu Plano de Atenção Nacional da Emergência Social, programa que terá US$ 100 milhões para eliminar a pobreza extrema nos próximos dois anos. Simbolizado por duas mãos unidas, é embalado por tema composto especialmente para o programa e que acabou por se tornar o mote do governo, ao propor que o país seja reconstruído pelo trabalho de todos, "mano con mano", como diz a letra.

Prometendo "trabalhar incansavelmente pela felicidade do povo uruguaio", Tabaré Vázquez assume com 77% de apoio popular, conquistados por sua trajetória pública e privada. Filho de uma família de classe média erguida dentro de um bairro operário da periferia de Montevidéu, ascendeu profissionalmente como um dos mais renomados médicos de seu país e repetiu posteriormente o êxito profissional à frente da Intendência (prefeitura) de Montevidéu, posto que assumiu em 1990, também como o primeiro representante da esquerda no cargo.

A exemplo de Lula, Vázquez incorpora em sua carreira e personalidade alguns dos valores mais fortes do imaginário da população que lidera: a origem humilde, a perseverança que o fez sobrepujar adversidades, a transformação em líder a partir do reconhecimento de uma alta capacidade de mando, o gosto pela improvisação, pela quebra de protocolos e pela centralização de decisões, o reiterado comprometimento público com os problemas do dia-a-dia da população, a demonstração do conhecimento das mazelas sociais a partir de um ponto de vista pessoal, o carisma que personaliza o poder.

Vinte minutos antes do fim de 28 de fevereiro, véspera da posse de Vázquez, metade dos cerca de três milhões de habitantes do país começaram a comemorar esses valores, sentindo-se parte dos novos tempos. "Festejem, uruguaios, festejem", afirmara Vázquez na noite de sua eleição em 31 de outubro, "essa vitória é de vocês".

Fogos de artifício, chamados localmente de "bombas brasileiras", estouram no ar. Caravanas de carros buzinam, aceleram, acendem faróis, contribuem para o misto de Carnaval e Réveillon que se instala na capital. "Despertem, burgueses. A era dos ricos acabou", diz, em mensagem enviada por celular para um programa de TV, um espectador que assiste, pela manhã, aos preparativos para a cerimônia que parou o país, enquanto famílias de todos os cantos do Uruguai desfilam com bandeiras, filhos e o inseparável chimarrão pelas principais ruas de Montevidéu.

"Fui embora para não morrer, mas volto para viver", afirma uma uruguaia vinda da Alemanha para participar das comemorações que coloriram de vermelho, branco e azul (as cores da bandeira da Frente Ampla) a frente da casa do presidente, no luxuoso bairro residencial do Prado, e, posteriormente, tanto a avenida Libertador, endereço do Palácio Legislativo, quanto a Praça Independência, onde se encontra o Edifício Independência, sede do Executivo.

Lula, os presidentes Néstor Kirchner (Argentina), Ricardo Lagos (Chile), Alejandro Toledo (Peru), Hugo Chávez (Venezuela), representantes das monarquias inglesa (o príncipe Edward) e espanhola (os príncipes de Astúrias Felipe de Bourbon e Leticia Ortiz) se fazem presentes à troca de mando. Lula chega atrasado ao Palácio Legislativo e entra sob aplausos.

Chávez não só encontra bandeiras da Venezuela entre a aglomeração que se forma do lado de fora da cerimônia, como no dia seguinte à posse realiza palestra de mais de três horas para um auditório de cerca de 1.000 representantes de uma esquerda entre eufórica e catártica. Kirchner manda beijos, sai a cumprimentar a multidão. Os dividendos de Vázquez parecem se estender por um momento a seus homólogos latino-americanos.

Vázquez capitaneia uma coalizão -a Frente Ampla, constituída em 1971 e formada por um aglomerado de forças políticas de esquerda- que, se garante atualmente maioria parlamentar ao partido, também exigirá de seu líder continuadas negociações para que se mantenha a unidade interna de sua gestão, planejada para ser moderada e de centro-esquerda.

"Este vai ser um governo que buscará acordos para levar o país adiante", disse Vázquez na noite em que se anunciou o resultado das eleições. O partido saiu vencedor em 7 dos 19 departamentos em que se divide o Uruguai. Faz história por dar início ao que está sendo chamado de "novo Uruguai", depois de mais de um século e meio de hegemonia de governos-dinastias -só a família Battle, à qual pertence o presidente da República anterior, Jorge Battle (2000-2005), chegou ao poder na segunda metade do século 19 e acumulou desde então quatro mandatos presidenciais.

Mas não só. A formação Frente Ampla-Encontro Progressista-Nova Maioria também passa a se tornar presença obrigatória de qualquer almanaque político por transformar ex-perseguidos políticos em autoridades.

É o caso de José "Pepe" Mujica, líder do Movimento de Participação Popular, ala mais votada da coalizão. Nomeado ministro da Agricultura, Mujica foi um dos fundadores do Movimento de Libertação Nacional Tupamaros, grupo de guerrilha nos anos 60/70. É incensado pelas esquerdas do país tanto por sua história, marcada por 14 anos de prisão, quanto por ter mantido a austeridade e a simplicidade mesmo depois de ascender ao primeiro escalão do governo.

Se o ministro da economia Danilo Astori -também companheiro de lutas de Vázquez dentro da Frente Ampla- é o cérebro do governo, Mujica -que acompanhou Vázquez durante a posse vestindo jaqueta e frequentemente é flagrado de chinelos- é o coração da nova administração. "Por trás da alegria, existe o compromisso", assegurou. É o que esperam os 1.124.761 cidadãos que deixaram nas urnas o seu voto de confiança nos "novos tempos”.

Denise Mota
É jornalista. Vive em Montevidéu.

 
1