1
dossiê
medos do brasil

Colecionadora de medos
Por Juliana Monachesi



A artista plástica Mabe Bethônico reuniu os temores de sua família

Em 1996, a artista plástica Mabe Bethônico troca a tranqüilidade de seu lar mineiro pela estranheza de uma moradia européia, em que a sala de estar fica separada da rua apenas por uma porta sem trancas excedentes.

Deslocada para um lugar que a faz sentir desprotegida e assombrada por histórias de crueldade relacionadas à "casa inglesa" _como a do "serial killer" que enterrava suas vítimas detrás das paredes e debaixo do piso_, ela decide construir uma árvore genealógica para levantar uma hipótese sombria: o medo seria algo hereditário? Ele se reproduziria biologicamente através das gerações?

A investigação dos temores de seus parentes a leva a descobir que um deles é recorrente na família Bethônico _o medo da casa. A coleção dos medos familiares resultou num trabalho apresentado pela primeira vez em 1998, na galeria Gulbenkian, do Royal College of Art, em Londres, na forma de instalação. Chamou-se "Genealogia do Medo".

As respostas que a artista plástica Mabe Bethônico recebeu dos 70 parentes falam de medos domésticos _como medo do escuro, medo do que pode haver embaixo da cama, claustrofobia, medo de trovão, de baratas, cobra, gato, animais mortos, de sangue. Medo de água, medo de facas (veja a lista ao final).

Ou então tratam de temores íntimos, relacionados ao universo de atos e sentimentos vivenciados em casa: medo de envelhecer, medo de morrer, medo do medo, medo de ficar doente, de morrer queimado, de sufocar, de não ter dinheiro. Medo de ficar sozinho. Medo de não ser feliz.

"Medo do desconhecido, medo de saber" _foi outro dos temores. A ambiguidade do sentimento enunciado por um dos parentes de Mabe Bethônico reaviva o argumento do ensaio de Sigmund Freud acerca do "unheimlich" (1919), traduzido ora por "o estranho", ora por "o sinistro", conceito cada vez mais pertinente para a compreensão da arte contemporânea. Sentimos como lúgubre aquilo que irrompe de dentro de quatro paredes. O que deveria ser fonte de segurança se converte em lugar propício ao pavor. A casa se transforma em guardiã do retorno do recalcado.

A produção de Mabe Bethônico, formada pela Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1990, orbita há anos em torno do tema da casa. Em meados dos anos 90, a artista trabalhava predominantemente com microescavações nas paredes. Produzia fissuras e perfurações para enxertar materiais lá dentro ou para sugerir pequenas passagens para o desconhecido. Segundo ela, o trabalho gerava uma inquietude no público. Ela mesma era tomada dessa sensação: "Meu ateliê ficava em uma casa antiga de paredes grossas, então eu não sabia o que iria encontrar do outro lado".

Em 1996, Mabe mudou-se para Londres, onde passaria os quatro anos seguintes, trabalhando em seu doutorado em artes plásticas, no Royal College of Art. Queria continuar desenvolvendo a questão presente nas interferências na arquitetura da casa, sem contudo ter de escavar paredes. Optou, então, por elaborar melhor aquele elemento de medo que detectava como estrutural de seu percurso artístico. "Procurei uma abordagem semicientífica, construindo uma árvore genealógica do medo na minha família para entender reincidências", conta.

A elaboração da genealogia dos medos familiares provocou um longo processo epistolar. A artista escrevia às pessoas no Brasil, pedindo-lhes listas de seus medos, além de uma fotografia de cada "entrevistado" da família. "Por estar à distância, as pessoas se empenhavam em colaborar com o trabalho. Algumas eram mais eloqüentes, mandando não apenas uma listagem, mas ainda pequenas narrações de episódios ilustrativos de seus medos."

Mabe começou a receber fotografias com datas e outros tipos de informações no verso. Acabou constituindo um repertório com assuntos derivados. "Eu não sabia como formalizar os elementos que vinham. As fotos variavam de retratos individuais a registros da noite de Natal ou das férias na praia." Ela resolveu a questão cobrindo as fotografias com fita semitransparente, deixando evidente apenas o rosto das pessoas e fixando as imagens veladas em caixinhas, para anular as informações do verso.

Quando a artista montou a instalação, em 1998, na galeria Gulbenkian do Royal College, o trabalho expressava apenas os temores de cerca de 70% da família, pois ela não havia conseguido entrevistar todos os parentes. A árvore genealógica foi montada em uma parede colocando os quatro avós em cima e a seqüência lógica abaixo. Chegando perto das caixinhas, o espectador via que a tampa de cada uma podia ser levantada.

Ali dentro estavam os medos na escrita cursiva dos familiares. A maioria confessava o medo da morte: de morrer ou de perder alguém querido. A morte por vezes estava disfarçada em medo de fogo ou medo de cair de um prédio alto. "Meus primos adolescentes colocaram muito a palavra pivete, fenômeno social que era difícil de explicar em Londres."

Colecionar medos foi o primeiro esforço catalogador de uma série de trabalhos que Mabe Bethônico desenvolveria com a mesma metodologia e o mesmo tema. Ainda em Londres, a artista assinou um jornal e passou a colecionar notícias que tinham alguma relação com o medo. Ela lembra que uma das notícias que mais a impressionou foi a de uma mãe que teve o bebê recém-nascido seqüestrado no hospital. A proximidade da casa com a rua levava a uma necessidade de aproximação desses acontecimentos reais que diluem a separação entre "espaço interno" e "espaço externo".

A coleção de recortes, fotos e manchetes foi crescendo, e Mabe começou a questionar o lugar daquele trabalho em sua trajetória. Notou afinidades, além da temática do medo, com a referência à destruição metafórica ou real da casa. "O que o trabalho como um todo faz é colocar abaixo a idéia da casa protetora", sintetiza.

Os fragmentos de jornal foram ordenados, dando origem à obra "O Colecionador", ainda em construção (assim como o trabalho dos medos, que aguarda as colaborações do restante da família). É um todo segmentado em categorias e acompanhado de pequenas narrações de um personagem ficcional, chamado "o colecionador".

No campo denominado "destruição", a artista criou a seguinte classificação: "destruição-genérico; diluição; crianças e destruição; mulheres e destruição; homens e destruição; ainda: sobrevida (paredes e janelas remanescentes); fachada destruída (a casa exposta); o lado de dentro do lado de fora; abismo; edificações inclinadas; prédios caídos (causas desconhecidas); telhados; janelas quebradas; artigos".

A documentação está organizada em caixas a serem manipuladas como um arquivo de biblioteca. Na biblioteconomia, a artista aponta que poderá novamente fundir noções de público e privado.

Esse medo da casa, que inicialmente se insinuara nas fissuras nas paredes, desenvolvido posteriormente na genealogia de medos familiares, tendo se consolidado na construção de um arquivo interminável de tragédias caseiras, tem paralelo na literatura mineira.

Em 1959, Lúcio Cardoso publicava sua "Crônica da Casa Assassinada", misto de thriller psicológico com romance epistolar. Narra o drama de uma família tradicional do interior de Minas, ambientado entre as paredes do casarão na Chácara dos Meneses: "Talvez a herdade seja uma doença de sangue. Essas pedras argamassam toda estrutura interior da família, são eles Meneses de cimento e cal, como outros se vangloriam da nobreza que lhes corre nas veias".

Essa atmosfera sombria, que mescla arquitetura e distúrbios familiares, revelada cruamente na saga dos Meneses, faz a narrativa de Lúcio Cardoso coincidir com a construção dos Bethônicos. O que está em xeque é a domesticidade do funcionamento familiar, do aconchego do lar. O trabalho de Mabe Bethônico aponta na direção desta conjectura: a casa como residência para o selvagem.

TODOS OS MEDOS DOS MABE

Medo de envelhecer, medo do escuro, medo de altura e de morrer, medo do medo, medo de assalto e do que pode estar embaixo da cama, medo de ficar cego, medo de cair de lugares altos, medo de ficar inválido, medo de se perder dos pais no shopping center. Medo de ficar doente, medo de filmes de terror, medo do futuro e de fome, medo de elevador, de morrer queimado, de sufocar, de não ter dinheiro.

Ficar sozinho. Medo de ficar solitário. Medo da morte. Não ser feliz. Medo do desconhecido, medo de conhecer. Meu maior medo é não ser feliz. Também não ter saúde. Eu tenho medo de altura: medo de ter um treco e pular.

Medo de perder minha mãe e ficar sozinho. Medo: perder minha mãe. Perder minha filha. Perder meus pais. Medo dos meus filhos morrerem antes de mim. Perder as crianças.

Espiritismo, pivete, acrofobia, acidente de carro, violência, trovão, relâmpago, baratas, claustrofobia, hospital, gato, qualquer animal morto, policia, sangue, doença, loucura, água.

Meu primeiro medo era o de ter crianças deficientes. Depois, era o de ter netos ou bisnetos com esse problema.

Não gosto de me aproximar de lugares altos, como penhascos. Eu não gosto de chegar perto da beira de um prédio alto e olhar para baixo. Meus medos giram em torno disso.

Eu não tenho medos do tipo imaginário. Lista de medos do tipo real: cobra, cachorro bravo. Medo de dor.

Eu tenho medo de morrer, não por minha causa, mas pensando em quem fica. Eu tenho uma sensação de que se eu morrer minha mãe não vai sair da depressão. Faca. Ai, eu prefiro levar um tiro a ser esfaqueado. Eu odeio facas. Liste isso como meu quarto medo.

De acordo com meu marido, eu tenho medo de tudo. Temo que ele possa estar certo.

Juliana Monachesi
É jornalista e curadora.

 
1