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A Casa de la Poesía situa-se na antiga residência do poeta popular Evaristo Carriego (1883-1912), "allá por el barrio gris que cantó el pobre Carriego", segundo dizia Borges, que tanto admirou a este poeta do subúrbio. O corajoso mas melancólico Carriego vivia numa casa pequeno-burguesa relativamente modesta de Palermo, bairro hoje elegante. Conservam-se objetos do poeta, são afrancesados, de gosto convencional, duvidoso.

Em meio ao público estava Daniel Samoilovich, sabidamente um poeta brilhante, mas -eu ao menos- não sabia que ele é um entusiasta nem conhecia esse olhar tão doce e tão penetrante. Toda a inteligência do mundo se refugiou em seus olhos, essa "marca Samoilo" de identificação (e ele estava criando então uma ópera bufa chamada “El despertar de Samoilo”). Eu intuía, em compensação, a erudição de Samoilovich, que verifiquei no boteco depois da leitura (um conhecimento assombroso de literatura brasileira, por exemplo), nesses papos de café que antigamente eram uma tradição montevideana também, mas que em Montevidéu desapareceram porque os lugares públicos se degradaram perante a perfeita indiferença da prefeitura.

Fiebelkorn também me acompanhou até o Centro Cultural Quinta Trabucco, em Vicente López, onde eu devia dar uma palestra. O lugar é um palacete de estilo neo-renascentista que pertenceu a uma família chamada Trabucco e surge imponente em meio de um jardim, de fato quase uma "quinta", com árvores da flora nativa, orgulho de seu diretor, outro poeta, Rodolfo Alonso. Sem dúvida, Buenos Aires é a cidade dos psicanalistas, e vários deles estiveram presentes em minhas leituras (são os que mais levantam a mão para perguntar -com pertinência, diga-se- e se apresentam: "Sou psicanalista").

Em Buenos Aires parece haver mais analistas que analisados, é verdade. Mas também há muitos poetas. E os que eu conheci são excelentes. Alonso é também tradutor do português, entre outras línguas. Foi o primeiro tradutor para o espanhol dos quatro heterônimos mais famosos de Fernando Pessoa, em 1960, quando Octavio Paz ainda não o(s) tinha publicado no México. Alonso vem criando uma obra poética original, de poemas breves e luminosos. E, como era de se esperar, mais uma vez acabamos a jornada papeando num café, este no elegante subúrbio de Vicente López.

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G. está alegre e desconcertado com minha presença em Buenos Aires. Infelizmente não dá para ele encontrar-se comigo. Ir à cidade é impossível, se eu soubesse dos problemas da comunidade, da pobreza, já não sabe como manter a paróquia... Como está da hepatite? Vai levando, mas se recusa tomar medicamentos das multinacionais farmacêuticas e optou pela medicina alternativa. Eu? Continuo com meus problemas respiratórios, mesmo depois da operação.

"Tivemos sorte, apesar de tudo", diz G. Mas não dá tempo para eu responder. "Tenho um passado de hedonismo", acrescenta, em primeira pessoa. Está legal, G., meu querido G. Me ouvir falar de poesia? Não, não tem tempo nem para ler. A propósito, também não tem vida sexual, diz, tantos problemas, e, além disso, ele não quer, é um voto. Hoje à tarde ele teve um casamento, acha que deu bons conselhos aos noivos. Notícias do Recife? Sim, por e-mail, às vezes. Eu ligo de novo para você. Me liga, Alfredo, quero te ouvir. A gente se ver não, não, é muito difícil.

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Estou na estação Retiro, para voltar a Montevidéu e seguir depois para São Paulo. Minha vida não é estranha, Cecília? E que vida não é? Despeço-me de Buenos Aires como tu de Montevidéu. E também digo: "Quero dizer-te adeus e não posso, o ofício humano é triste, o coração se acostuma e esquece aquilo que se faz maravilha constante". O Inferno e o Paraíso convivem tantas vezes, não é mesmo, Cecília? Para mim, Buenos Aires também era íntima, feita de destinos como o meu, bordado das parcas. Quase coquette.

Alfredo Fressia

É poeta e crítico literário uruguaio. Desde 1976 reside em São Paulo, onde é correspondente cultural do jornal "El País", de Montevidéu. É professor de língua e literatura francesa. Publicou, entre outros livros de poesia, "Un esqueleto azul y otra agonía" (Ediciones de la Banda Oriental, 1973), "Frontera móvil" (Ediciones Aymara, 1997) e "Veloz eternidad" (Vintén Editor, 1999), os três ganhadores do Prêmio MEC (Uruguai). É também autor de "Chéjov - Sobre su narrativa y teatro" (em co-autoria com Gustavo Martínez e Roberto Appratto, 1974), entre outros livros de ensaio.



 
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