CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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O padrão ou estatuto de julgamento da audiência brasileira, mais apropriadamente, do público votante, leva em conta o perfil social e a conduta moral dos participantes, isto é, os personagens construídos têm o desafio de serem competitivos sem passar dos limites, havendo aí um paradoxo: ao mesmo tempo em que se faz apologia dos atributos inatos e conquistados, da competitividade e da adaptabilidade, premia-se os ingênuos, os não-manipuladores e menos “aptos”. Elabora-se, assim, um projeto de hierarquização moral e de “justiça social” em um fórum privado publicizado.

Também não se pode deixar de perceber que as atitudes de afeto e solidariedade entre alguns personagens acabam se transformando em uma pedagogia positiva, de repercussão muito mais ampla do que a simples defesa verbal da ética e do respeito mútuo.

Jean e Pink, personagens do “BBB5”, são a prova desta relação fraternal e se transformaram, ao menos por enquanto, em referências em matéria de ética, sinceridade e compromisso. A questão é saber até quando eles poderão permanecer unidos, sem se indicarem ao paredão. Está aí a maior perversidade do programa: o “salvo-me se puder”, corrosivo de qualquer possibilidade de relação.


Um estado de exceção

A presença do “paredão” e de todo um vocabulário beligerante, como a convocação que invade nossos telefones celulares para que enviemos um “torpedo” para “detonar” algum participante, não por acaso se articula com um panorama de progressão contínua do que chegou a ser definido por alguns teóricos como “guerra civil mundial”.

Nesse contexto, o estado de exceção, segundo Giorgio Agamben, tende sempre mais a se apresentar como paradigma de governo dominante da política contemporânea, transformando-se, de uma medida provisória e excepcional, em técnica de governo. Assim, as práticas de exceção contemporâneas, engendradas por um Estado policial protetor, fazem da política do terror e da insegurança o principio gestor, estimulando, cada vez mais, a privatização dos espaços e o confinamento no interior deles.

Os reality shows de confinamento também são, a seu modo, sintomas de uma gestão midiática da insegurança que, implícita ou explicitamente, incita à vigilância, ao controle e à autoproteção em ambientes privados. Assim como na gestão midiática da insegurança, as guerras, civis ou militares, são transformadas em espetáculo, no “BBB” os conflitos também são capitalizados: tornam-se show.

Grosso modo, a diferença entre a condição de um estado de exceção e o confinamento do “BBB” é que este é hedonista e seus participantes lá estão voluntariamente. O que nos faz pensar que o “estado de exceção” do “BBB” é exercido não contra a sociedade, mas reivindicado por ela, em sua sede de competitividade, inserção, visibilidade e eliminação, mas também de implacável justiça.

Porém, para traçar um paralelo mais cuidadoso entre estado de exceção e reality shows de confinamento, é necessário ir ao primeiro e expor suas particularidades. O estado de exceção como definido por Agamben significa, na prática, a suspensão do ordenamento jurídico, isto é, a anulação dos direitos civis do cidadão e de seu estatuto jurídico como indivíduo.

O indivíduo deixa de sê-lo para se tornar uma categoria identitária, peça fundamental para os Estados totalitários, que, através do estado de exceção, podem propor e executar a eliminação de categorias inteiras que pareçam não integráveis ao sistema político. Contudo, precisa-se ressaltar que o estado de exceção não se dá necessariamente em uma ditadura, mas em um espaço vazio de direito.

De fato, o estado de exceção na sua forma moderna foi criado pela Revolução Francesa, pertencendo, portanto, à tradição da democracia e não àquela do absolutismo, ou, mais apropriadamente, pertencendo a “um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo”.

O estado de exceção realiza-se como uma gestão de uma nova desordem mundial, modulável segundo dispositivos de vigilância. Dentre esses dispositivos se encontram, além dos olhares maquínicos das câmeras de monitoramento (presentes em espaços públicos e privados), fichamentos eletrônicos das impressões digitais e da retina, tatuagem subcutânea, coleira eletrônica, prática do confinamento e, até, “coleira” auditiva (microfones) que os participantes do “BBB” são obrigados a usar (caso contrário serão punidos).

O que está em jogo, assim, é o estatuto normal de cidadãos dos Estados ditos democráticos, que são persuadidos a aceitar como naturais práticas de controle que sempre foram consideradas excepcionais e desumanas. Ou seja, o que está em jogo é uma nova relação biopolítica entre Estado e indivíduo, o qual passa a ser considerado um corpo, assim como a idéia de povo, outrora sujeito político, torna-se sinônimo de simples população.

Uma vez que a vida humana e o corpo biológico se tornam o alvo central dos difusos mecanismos de poder, todo o campo da política se transforma, e as oposições que anteriormente o definiam (como público-privado, esquerda-direita, democracia-absolutismo) começam a se atenuar. É, então, nessa impossibilidade de distinguir a democracia do absolutismo e o privado do público que se encontra uma fissura que nos interessa, capaz de criar um liame entre estado de exceção e reality show.

Assim como o estado de exceção, que “se apresenta como um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo”, o “Big Brother” -identificado com uma idéia totalizadora e homogeneizada de Brasil, o qual é sempre evocado pelos participantes- configura-se como um poder absoluto em tempos de institutos de pesquisa, cujo próprio modelo de medição se reflete, além dos índices de audiência e votação, nos índices de popularidade dos personagens, expostos em números de estrelas no site do programa.

“O Brasil inteiro está vendo”, sempre escutamos dos participantes, e a ele nada passará impune. Assim, a interatividade proporcionada pelo jogo, através da qual é o público votante quem exerce o voto de exclusão, torna-se uma maneira de saciar uma sociedade que se sente impotente politicamente e que tem sede de punição. É ela quem vai proclamar a sentença toda a semana, fazendo o papel do “Estado absoluto” num jogo em que tudo é resolvido por plebiscito, logo, o absolutismo é relativo.

Fazendo uma analogia com o romance de Orwel, o formato televisivo “Big Brother” é “1984” banhado em uma cultura democrática, na qual a vigilância e a visibilidade não mais coagem, nem aprisionam (como no romance), mas, ao contrário, libertam da condição do anonimato rumo à celebridade, conferindo existência social aos participantes.

Valendo-se de uma inspiração tirânica e adotando procedimentos híbridos, o “Big Brother” ainda apresenta a figura do Big Boss -quando é novamente a audiência quem escolhe, como um patrão impiedoso, as possibilidades de constrangimento e humilhação que serão impingidas aos “brotheres”. Após a votação, ganha sempre em milhares de votos o “mico” mais ridículo e os participantes, como empregados de uma empresa, não podem demonstrar mau humor ou insubordinação.

Trilhando ainda o pensamento de Agamben, ele defende que o paradigma político do Ocidente não é mais a cidade, e sim o campo de concentração. Mas se trata de uma tese filosófica, e não historiográfica, o que quer dizer que o campo de concentração serve como um modelo paradigmático que norteará sua crítica.

Os reality shows de confinamento, tendo em vista suas particularidades e guardadas as devidas proporções, também podem ser encarados como um modelo midiático e econômico-político de “concentração”: concentração espetacular de corpos confinados, geridos por uma relação de poder biopolítica, concentrada porque transformada em linguagem e imagens.

Diferentemente do estado de exceção, nos reality shows, obviamente, não há suspensão dos direitos civis e da lei, como ocorreu em Auschwitz -segundo Agamben, o espaço biopolítico mais total que jamais se concebeu e que, agora, vem sendo implementado na base militar americana de Guantánamo-, e de maneira nenhuma se propõe aqui banalizar, ou atenuar, essas experiências de horror. Contudo, é necessário chamar atenção para algumas semelhanças.

Assim como, segundo Agamben, o campo de concentração é o paradigma para se compreender a cidade biopolítica em que vivemos, os realities são paradigmáticos da transposição dessa gestão biopolítica para um formato audiovisual baseado no confinamento. Também, assim como o “campo”, o reality show é formatado na indeterminação entre espaço público e privado, ambigüidade que está na base da experiência do cidadão contemporâneo.

Essa ambigüidade constitutiva faz do reality uma esfera de visibilidade absoluta atravessada pelo isolamento físico, violação do decoro e espetacularização da intimidade, como se aquelas vidas a que assistimos nos pertencessem, sem que desfrutassem de direitos.

De fato, cada “indivíduo” inserido no programa perde o direito sobre sua imagem, em termo assinado por contrato, o que nos faz pensar que a lei que há nos realities retira do humano sua condição de autonomia e autoria.

Também nos realities, à semelhança do “campo”, o indivíduo é encarado como categoria identitária. Responde por sua origem e seu gênero, assim como cada judeu de Auschwitz ou cada “terrorista” de Guantánamo responde por toda uma “classe”. No “BBB5”, a personagem Pink, se insurgindo contra as ações de suas colegas da “Tropa de Choque”, pontificou: “Isso envergonha a raça feminina”.

A associação entre estado de exceção e “Big Brother” também está na origem do conceito do programa, o “laboratório humano”. Na idéia de um "laboratório" há, sem dúvida, não só a tirania de fazer do outro sua cobaia, como a aniquilação de qualquer direito individual desse outro. No “Big Brother”, o outro tem direitos civis, embora existam regras claras a serem cumpridas, caso contrário há punição e/ou "eliminação". E, quando se elimina um, aniquila-se uma categoria inteira. E aqui não há exagero.

Deve-se entender as palavras em seus conceitos originais, e não apenas banalizá-las em seus usos. As palavras (assim como o imaginário) são produtoras de realidades e, nesse sentido, é inegável que a mentalidade eliminatória do “Big Brother” produz sistemas de valores, produz um mundo. O mundo do “BBB” é uma versão alegórica, atenuada, espetacular. Mas, se “todo mito é um projeto”, como já disse Cacá Diegues, então toda alegoria é também uma profecia.

Alguns outros reality shows vão além na explicitação do paralelismo com o estado de exceção. A emissora mexicana Televisa estreará, no final de fevereiro de 2005, uma versão do “Big Brother” com castigos corporais para aqueles que não cumprirem as regras do programa. As tarefas serão, assim, punidas e premiadas fisicamente, num novo espaço que contará com áreas de reclusão, como se fosse proposto aos participantes um retorno a uma tirânica Sociedade Disciplinar.

Também o Channel Four inglês deve exibir, em meados de março, um reality de tortura, intitulado “Guantanamo Guidebook”, no qual sete voluntários são submetidos às técnicas de interrogatório aplicadas aos prisioneiros da base americana de mesmo nome, em Cuba, onde seus direitos civis estão suspensos.

Dentre os testes, estão previstos privação de sono, exposição à temperaturas extremas, humilhação religiosa, além de um interrogatório de mais de 48 horas. Segundo o programa, a justificativa para tal disparate seria chamar a atenção para os efeitos devastadores que essas técnicas podem causar no ser humano.

No entanto, a conclusão que se tira é antagônica: se essas práticas de tortura podem ser reproduzidas em voluntários e demonstradas em programas de TV, isso significa que elas não são tão maléficas, ou seja, podem ser transformadas em mero espetáculo e ter sua barbárie esvaziada. Assim, ao incorporar a mesma linguagem e os mesmos procedimentos do alvo criticado, aquilo que seria crítica é transformado em legitimação.


O foco pornográfico

O “Big Brother Brasil” não está em decadência, muito menos em seus estertores. Legalmente, o contrato da Globo com a empresa holandesa Endemol vigora até 2007, quando possivelmente novos acordos serão firmados. Os reality shows vieram para ficar porque, além das vantagens econômicas -custam menos do que a tradicional teledramaturgia-, fazem da vida sua matéria-prima, sendo, portanto, uma linguagem audiovisual biopolítica por excelência.

Contemporâneos e sintomáticos, os realities souberam capitalizar, com uma força devastadora, as demandas do capitalismo imaterial, ou pós-industrial, por perfis identitários, corpos formatados e ajustados, intimidades publicizadas, desejos de visibilidade e “criatividade”, fazendo da própria vida o terreno mais fértil para seus investimentos.

 
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