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Quando o debate se abriu ao público, a primeira pergunta contestou a afirmação de Coelho de que a arte é "puro dispêndio". "Há uma fortuna incalculável que foi e está sendo construída em cima da arte", disse Maria Alice Gouveia, da Secretaria de Estado da Cultura. Teixeira Coelho replicou: "Sim, a produção cultural gera um recurso econômico monumental, mas isso faz parte de um dos aspectos exteriores à arte. Em termos de política cultural, deveríamos estar mais preocupados com os aspectos interiores da arte. Devemos parar de defender a arte porque ela faz inclusão social ou porque ela trabalha pela identidade nacional. Devemos defendê-la porque ela é fundamental, sem ter que recorrer a qualquer outro tipo de pretexto".

A crítica de arte Lisette Lagnado pediu a Teixeira Coelho comentários sobre a declaração da antropóloga Eunice Durhand de que os CEUs (Centros Educacionais Unificados) "deveriam se transformar em clubes para pobres" (em entrevista ao jornal "Folha de S. Paulo", no dia 15/11/04) e sobre a atuação do Sesc (Serviço Social do Comércio), "que não faz a tradicional oposição entre cultura, esporte e lazer nas atividades que promove".

A resposta: "Eu vejo o Sesc como a mais bem sucedida experiência de política cultural no Brasil de todos os tempos. Uma experiência que não tinha sido pensada para dar certo, porque é fruto do Estado Novo... E não só deu certo como se tornou modelar em termos globais. O Sesc é o nosso grande ministério da Cultura, e acho fantástico que eles coloquem no mesmo caldeirão a cultura, o lazer e a arte. Agora, que mal tem se os CEUs virarem clube? Acho perfeitamente normal, mas não um clube para pobres. Não pode virar sucata".

As últimas palavras do ensaísta preocuparam Maria da Penha, produtora cultura de uma das unidades do CEU. "Eu preciso lembrar o senhor (Teixeira Coelho) que os CEUs vão além da questão do lazer e além da questão da cultura. Estou falando de inclusão social, de inserção e modificação das pessoas. O que os jovens querem, hoje, é protagonizar; mas onde eles vão encontrar estes espaços?". A última pergunta, também polêmica, ganhou resposta controversa de Coelho sobre a "liberdade" do artista visual contemporâneo:

"Por trás desse desejo de ser protagonista, de ser artista, está a intuição de que o artista é o cara que faz, que constrói alguma coisa e, mais do que isso, é uma pessoa que tem liberdade. A arte -a cultura não, porque é sempre presa-, e sobretudo a arte contemporânea, é o reino da liberdade. A arte contemporânea nem sequer tem a obrigação de propor um sentido. Para propor sentido, tem os curadores, os diretores de museu, os historiadores. O artista contemporâneo, se quiser, pode fugir do mercado, está livre do mercado. Existe uma série de fundações, de corporações e associações que dão ao artista o mínimo para ele viver, ou até mais que o mínimo. O que os jovens querem, de fato, é protagonizar", confirmou o ex-diretor do MAC-USP (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo).

E, se a aspiração da mocidade é esta, e só esta, de "protagonizar", o problema é sabido: a julgar pelo andamento da história, não há papéis de primeira linha suficientes para tantos "atores". A não ser que o curador da 26ª Bienal de São Paulo, o alemão Alfons Hug, tenha razão ao dizer que a arte contemporânea é um "território livre". Livre inclusive do mercado, segundo Coelho, embora não pareça. Ainda mais num país em que as instituições culturais carregam nomes de instituições financeiras.

José Augusto Ribeiro
É jornalista, membro do conselho de editorial da revista "Número".

 
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