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dossiê
POESIA BRASILEIRA

A primeira entrevista de Ronaldo Azeredo
Por Carlos Adriano


Poema de Ronaldo Azeredo
Reprodução

O poeta concretista, que morreu no último dia 15, nunca aceitou falar à imprensa. Em 2005, porém, ele decidiu conversar com Trópico. Disse que os subcriadores dominam a opinião pública e que a poesia deveria participar mais da política


Quando Trópico convidou-me para contribuir com um artigo sobre poesia brasileira, logo pensei numa proposição que pudesse ser capaz de fazer rima com a substância e o caráter raro da própria poesia.

"Raro" no sentido de precioso, que não é comum, que não se vê com freqüência ou que poucas vezes acontece, mas também no senso de escasso, pouco numeroso, pouco basto e, ainda, como algo singular, admirável, extraordinário. Fazer falar um poeta pela primeira vez, eis aí talvez algo raro.

Pois o poeta Ronaldo Azeredo, apesar dos 50 anos de poética, nunca concedeu uma entrevista. Parecia uma "pauta" interessante, mas impossível, dada sua doce e renitente recusa em falar. Dois outros aspectos de sua arte e personalidade rimavam com o vago adágio do raro: a natureza de sua poesia, singular e surpreendente; sua conduta moral, inimiga do engodo que consome egos na vã fogueira das vaidades.

Queria fazer a entrevista, entretanto sabia que não seria fácil. Sem esperança e com temor (para evocar e inverter Pound), hesitei antes de procurá-lo. Mas ao reler a dedicatória que ele fez em seu livro "Lá bis os dois" (2002) acusando-me "o nosso cineasta", um risco de ânimo, como relâmpago de coragem, acendeu-se e os dados foram para a caçapa.

Supondo que o raro desta pauta também rimaria com escasso, pedi a Ronaldo se ele poderia me contar exatamente a quantia de poemas, ou "trabalhos", como costuma dizer, publicados desde 1954, além dos três textos em prosa, como "Monstro Moonzebur" e "O driz da feia". Na hora, ele disse não saber ao certo, mas imaginava que não passavam de 30.

Auxiliado por Amedea, sua fiel companheira e valiosa colaboradora -que bordou asas e almas para seus poemas de pulmões, lábios e borboletas-, ele telefonou depois e revelou o número do censo: 29. Rara a poesia de Ronaldo -não biodegradável em pó (como abundam os versos moles de tantos escrivãos de poemas), mas (de imagens-enigmas, plena de mistério que não se reduz e que "rexiste") bioconsagrável em poesia.

Ronaldo Azeredo nasceu em 1937, no Rio de Janeiro, no bairro de Vila Isabel, na rua Teodoro da Silva, a um quarteirão da casa onde nasceu Noel Rosa. Irmão de Lygia, que se casaria com Augusto de Campos, e de Ecila, futura mulher de José Lino Grunewald, Ro (como era chamado em casa, de onde de vez e em vez escapava) mudou-se para São Paulo em 1957 e morou nos bairros do Cambuci e das Perdizes.

No luminoso texto de 1985 "Resiste, Ro" (republicado em "À margem da margem", 1989), Augusto de Campos revela e interroga o trabalho de Ronaldo Azeredo: "poesia de pedra bruta, pedra pura, pedra prima?", sinalizando ainda sua "sabedoria sem títulos".

Rebelde e afável, o poeta que viria a viver aventuras imprevisíveis em sua arte conheceu figuras lendárias da boêmia carioca (da Cinelândia à Lapa e à Tijuca): o jogador de sinuca Carne Frita, os compositores Bororó e Ismael Silva, o malandro Madame Satã.

Certa vez declarou que este poema de 1954, que espantou Augusto de Campos e Décio Pignatari, seria seu epitáfio: "Prefixo. Prefácio. Prelúdio. Prenúncio. Poema". Após publicar o primeiro, "Rato", em “Noigandres 3” (1954), revista da poesia concreta, participou das exposições de 1956 e 1957, antes de lançar em 1958 três "hits"’ do movimento: "ruasol", "lesteoeste" e "velocidade".

"Lá bis os dois", seu último trabalho publicado e talvez sua obra-prima, fornece uma preciosa chave "dialéxica" para se apreender sua poesia como um todo. Na primeira página, o livro estampa, escrito à mão, um "Método de leitura":

" 1. Feche os olhos suave mente
2. Com as pontas dos dedos
tateie as páginas leve mente
3. Termine a leitura:
feche o livro e pense brutal mente
Agora pode começar sua leitura "

Valendo-se de folhas brancas em relevo de dupla face e fazendo deslizar os sentidos de dobras, dunas, lábios, olho e vulva, o poema culmina na projeção de uma íris (suprematista, de largo arco) vermelha, que coagula a retina e deseclipsa o pensar.

Não à toa, um dos mais belos trabalhos do poeta chama-se justamente "Pensamento impresso" (1974). Dedicado a Mallarmé, ideogramas japoneses de flor e muitas flores (em folhas transparentes) fazem brotar o arco-íris que derrete em mar, até tudo virar música (partitura de Gilberto Mendes).

Muitos dos poemas de Ronaldo Azeredo não têm título, nem contêm palavras. A textura molecular em metástase de poros e retículas da célula pedra (1972) prediz que o destino disso talvez seja mesmo pela via anormal. No “poema ecológico” (1973), imagens fragmentadas de paisagem (em papel vegetal) sobrepõem-se a cifras de computador.

Noutros, a palavra copula com a imagem: "Labirintexto" (1976), mapa geobiomnemográfico com o trajeto do poeta por ruas cruciais de sua vida; "Armar" (1977), caixa preta de um quebra-cabeça para dois nomes; “a casa de boneca” (1984), homenagem a Duchamp que desafia o (in)visível a olho nu; "Enquanto durou" (1984), trilha dupla do olho pelo rastro de um ciclo de flores que cobrem a frase até que sequem e façam aflorar outro sentido.

“A pirâmide” (1991) ou "noite noite noite", é uma abortada instalação magistral transcrita em escultura-bandeirinha (Volpi em três dimensões? poema pintado no espaço-tempo?), sobre as três noites que o poeta passou "fora da terra" (o alfabeto afetivo de A a Z, o tributo a “Noigandres” e a Pagu, os semi-círculos pendulares detonadores de som). Ronaldo também expressou-se pelos canais do vídeo, com o poema-feitiço "Pão de açúcar" (1999).

Mas cinematográfico mesmo é o deslumbrante “poema das panagens” (1975), que costura formas, cores e texturas, planeta, pulmão e borboleta, ar, asa e "arfar", em dez pranchas-fotogramas vislumbradas por Ronaldo e entretecidas por Amedea. Sendo cinema (o meio que escrutina a mancha-pensamento), este poema é uma elegia à sensualidade cerebral.

Nesta conversa rara, temas como poesia participante, Volpi e concretismo são abordados por Ronaldo Azeredo, poeta que prefere o silêncio grávido de sentido e os interstícios ambíguos das invenções concisas, no lance do gozo do novo que se descobre na vida -com seu olho tátil, um fazedor de poemas convertidos em pensamentos impressos.


Esta é a primeira entrevista que você aceita fazer em toda sua vida. Por que você é arredio e avesso a falar de sua obra?

Ronaldo Azeredo: Eu nunca dei uma entrevista. Não gosto de falar muito. Não que tenha dificuldade em falar; mas nunca tive necessidade talvez. Estou dando a primeira entrevista agora porque é para você, tão somente. Achei também que seria importante esclarecer algumas coisas que você quisesse me perguntar. Não tenho necessidade de falar nada nem de me expor a nada, como nunca me expus. Não gosto de me expor, não gosto de falar. Que mais eu poderia dizer?

Que tal dizer algo sobre essa sua conduta, que alia rigor e recusa, e o faz até mesmo negar que participe de mostras e publicações?

Azeredo: Não procuro, assim, participar de nada. Sempre sou procurado; e, se me interessa, participo; se não interessa, não participo. Sigo naturalmente um aval do grupo, onde eles sempre forem, eu sempre estarei ao lado deles.


Qual é esse grupo?

Azeredo: O Augusto (de Campos), o Haroldo (de Campos) e o Décio (Pignatari), o núcleo primeiro da poesia concreta. Sempre quem deu as entrevistas, falou da parte teórica, a parte intelectual, foram eles. Evidentemente sempre respeitei e sempre acompanhei. Nunca tive necessidade de aparecer, não tenho nem quero. E fica assim gravada uma idéia "nova" -eu gosto é de fazer a obra, não de falar. Um negócio meu. Não vou procurar ninguém também. Com você, é diferente. Quando você me procurou, eu falei sim.


Mas eu sei que você fala muitas vezes (como diria o Volpi) "No!"

Azeredo: Ah, sim, isso eu sempre falo. Prefiro sempre sair fora do que participar. Nunca participei de nada assim. Sempre tive um sentimento grupal, participei do que o grupo participava, mas sem uma atividade... Evidentemente, os grandes intelectuais do grupo eram os três, não era eu. O Augusto, Haroldo e o Décio: os grandes teóricos e os grandes poetas. Eu era mais o fazedor, não era o teórico ou formulador de grandes teorias. Nunca fui e nunca serei. Eu sou um fazedor. Um artista, um artesão: eu faço os poemas.


Você falou muito em grupo, apesar desse recato todo em não querer se expor. Mas seu trabalho é bastante diferente. Como você concilia essa "fidelidade" ao grupo com uma individualidade tão marcante?

Azeredo: Até hoje eu respeito o grupo; para onde eles forem, eu vou. Nascemos juntos, crescemos juntos, formalizamos todo um projeto de poesia juntos. Augusto, Haroldo e Décio primeiro -os intelectuais que fundaram a poesia concreta. Eu já sou o segundo. Mas o segundo próximo, ali perto. Até hoje respeito o grupo. Mas minha obra e as obras deles também foram se ramificando, cada um foi para seu lado, fez a sua obra, independente.

Mas o grupo é muito importante -porque existe-, um fortalece o outro. É uma idéia monolítica; um pensamento básico. O Haroldo fez a obra dele, o Augusto está fazendo a dele, o Décio está fazendo a obra dele. Décio sempre foi interessado em cinema, teatro, prosa, poesia, fez várias coisas. E eu só faço poesia. Nunca fiz mais nada do que isso.


Na sua opinião, por que o concretismo ainda é um dos alvos favoritos de crítica e de incompreensão? Por que esse discurso conservador contra as idéias de vanguarda?

Azeredo: Veja bem. Hoje estão começando a assimilar a Semana de 22. Estão começando a comer o biscoito fino de que o Oswald falava. Eu acho muito cedo ainda para o pessoal assimilar uma poesia assim do porte de uma revolução como foi a poesia concreta e, depois, uma poesia totalmente visual, experiências completamente diferentes. Então nós estamos até que caminhando muito bem, já chegamos a 22. Isso já é muito importante para uma geração consumista.

Em 1956, foi lançada a poesia concreta, temos ainda alguns anos... Em 2006 serão 50 anos, então ainda não deu para... É natural que a turma não tenha assimilado nem entendido, não tenha gostado até.

Os subcriadores são muito invejosos, e às vezes essa maioria domina grande parte da opinião pública. São subintelectuais -professores, publicitários, produtores de grandes programas de televisão, pessoas que têm grandes cargos em pontos culturais. E no fim são sub, não criaram nada, ou têm inveja de quem cria.

É complicado, tem que esperar passar essa maré de mal entendimento e de inveja também. Hoje, pelo menos no meio universitário, eu não sei se somos muito compreendidos, mas no meio didático nossos trabalhos estão publicados. Mas não sei, isso também não leva a compreensão nenhuma, porque o aluno folheia aquilo e não compreende. Os que compreendem realmente e podem influir na sua divulgação, não sei se têm interesse. Agora só o tempo pode dizer.


Como você definiria a poesia, segundo a poesia que você mesmo faz?

Azeredo: É bem simples. Minha poesia evoluiu rapidamente, do concretismo -uma das logomarcas hoje do concretismo é um dos poemas meus, "Velocidade"-, daí partiu para a poesia participante, que até hoje eu penso seriamente em retomar. E depois minha obra partiu para uma poesia mais visual, mais voltada à visualidade, à metafísica, ao ideograma.

Há vários anos parti para quase que esculturas, que seriam miniinstalações. Prefiro falar em escultura porque instalação é um negócio muito complicado, não há nenhuma séria no Brasil que eu tivesse visto até hoje. Acho uma porra-louquice, desculpe a expressão, mas essas instalações que estão por aí não querem dizer absolutamente nada, para mim. Eu faço hoje miniesculturas, ou miniinstalações. Esse é o meu caminho atual. É só isso.


Mas quais procedimentos e idéias estão em jogo quando você escolhe fazer poesia? Você é poeta, não um escultor. Qual o específico da poesia, o que define essa diferença?

Azeredo: Acho que é a linha de pensamento. É uma idéia. O que define, o divisor de águas aí é uma idéia. Meus trabalhos, se falados assim, ninguém entende; eles precisam ser vistos. Mas tem a idéia básica: você vai e realiza. Hoje eu tenho idéias, só isso.


O que você pode contar de sua história com Alfredo Volpi?

Azeredo: Xiii, a história é muito comprida. Mas para resumir: nós nos identificamos com o passar do tempo e entendemos que um era igual ao outro, então ficamos iguais. Só isso.


Você terminou três respostas seguidas com "só isso". Mas sabe que há mais. Conte como foi essa coisa do Volpi patrocinar a publicação de suas obras, por exemplo.

 
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