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Zuca: Acredito sim na inspirazzão, e todas as noites ela vem me visitar, em forma de gralha. Mas pro Allan Poe ela aparecia de corvo... Também, pudera!, o Edgar dormia de fraque. O Valéry não acreditava e, malgrado ser grande poeta, ficou enrolhado a vida toda (não contes pro Alvim...)… E haja cemitério marinho e catedral submersa do Debussy... A Parca mocinha tem sovaquinhos peludos... Meu quarto é ao mesmo tempo mio gabinetto infernale...

Muitos alfarrábios, grimorios, almanaques, relógios quebrados, gnomos, salamandras, macacos, mandingas, mandracas e... ao lado da cabeceira da cama, um elefante hindu com uma bandeja onde deixo um caderno amarfanhado e um lápis... Só escrevo depois de dormir... no meio da noite tenebrosa, em estado sonambúlico, olhos fechados... o Theatro Morfeo.

UMA AMOSTRA DAS “ZARTES” DO ZUCA

As Formas Sempre se Repetem
A Essência Não
Eu estou voltando do Hades
onde passei uma temporada
em companhia de Persephone
e sua corte subterrânea
e nas velhas pastas
encontram-se as novas soluções
e lentamente abrindo os olhos
vi uma relação antiga,
que começa a fazer sentido.
Precisou o Tempo passar
para ficar mais claro
o que significam os fragmentos
das paredes interiores.
É uma viagem que fiz
com Odisseus
em águas turbulentas,
e me obrigou, agora
a recompor um Mundo espalhado
por muitas trilhas que caminhei
com a venda da Cabra Cega

(“As Sombra Ações”, 1976)

O Segredo do Vivente
Lentamente...
sobraçando suas cabeças...
Ao soar a meia-noite
os guilhotinados fantasmas
dos favoritos reais
ao quarto
vão chegando
do fidalgo que escapou.
Um dos fantasmas
Lança a voz plangente:
"Mas afinal, irmão,
o que fizeste tu
que te poupasse
nosso destino?..."
E o que escapou
Com desenganado sorriso
Responde aos falecidos:
"Antes que a malta
me caçasse a cabeça
Eu botei as idéias
debaixo do braço..."

(na caligrafia do autor)
(“Ás de Colete”, 1979)

O Buldogue de Ulysses

Dirceu esticava a noite pelos bares, bilhares e outros lugares, bebendo umas e outras.

Rosinda em casa, de tanto esperar noite à fora, acabou se transformando num cachorro malhado, com cara de buldogue. Dirceu, no orvalho da roxa aurora, finalmente chega. Abre a porta, dá com o cachorrão, e cai pra trás de susto. O fiel animal porém lhe diz, com a voz exata da patroa:

-- "Não se assuste, Dirceu, pode entrar que eu não mordo..." (na caligrafia do autor).

(“Os Mystérios”, 1980)

Duhkha e a Interpretação Zum

XXX

Malaquias estava sentado,
De pernas cruzadas,
embaixo da árvore do quintal.
Bacamarte aproximou-se reverente
Acompanhado de
Doutor Kopius, o erudito.
xx
Malaquias, como se em transe hipnótico
segue falando: "nascimento
é duca, velhice é duca, morte
é duca, assim também
tristeza e alegria;
até mesmo tédio
é duca; estar ligado
ao que não se quer, ser separado
do que se quer, tudo o que se ama
é duca, é duca.
xx
"Que quer dizer duka?", indaga Baca,
"Não é xxx duca, é duhka
a palavra", observa Doutor Kopius,
"algumas vezes identificada
a Sofrimento
e outras a xx frustração
nas traduções ocidentais
dos textos budistas originais
qual esse que Malaquias
assas imperfeitamente
está tentando repetir".
xx
Doutor Malaquias,
xxx irritado com a interpretação
do conceituado
e impertinente sábio teutão
Interrompeu um pouco o êxtase
e disse:
xx
"Não é nada disso. Ademais você
está pronunciando a palavra com
uma ortografia que não é Zum.
Duca quer dizer Ótimo."
XXX
O Sumo Pontífice
XXX
O sumo pontífice
achou dulcísssimo
o café
e o vinho aspérrimo.
xx
O sumo pontífice
achou o clima
salubérrimo.
xx
O sumo pontífice
achou este poema péssimo.
Mas qu’importa?...
é dos males o mínimo.
XXX

(“Poemas Zum”, 1968)

(Obs.: a doutrina Zum Dô Via Rex de libertação foi inventada pela Doutor Malaquias, "grande iniciado nos Mistérios do Ocidente e do Oriente, depois de estudar o Tao Te ching dez mil vezes...")

Mal Comparando
Se poesia fosse táxi
Já arrancava
com o leitor pagando
bandeira dois.

Enigma Egypcio
"Decifra-me
ou te devoro..."
"Mas bem devargazinho...
Bem devargazinho..."
Tigresa do Tibete
Fazes de minh’alma escabeche
Cruel Tigresa do Tibete
e picadinho paulista
de meu coração juvenil.
Eu sou o Cisne Branco
vou cantando e morrendo
ao soluçar roquenho
de um velho acordeon
no lago da caverna
onde jorra a fonte eterna
de Ponce de Leon...
Palco da Vida
A vida é um palco.
Para se ir tornando um bom ator,
Há que se evitar os dramalhões.

(“Osso do Coração”, Editora da Unicamp, 1993)

Alguns leitores excêntricos, que se comprazem em alfarrábios abstrusos e marginais, e que não hesitam em mergulhar em antitextos e outros brejos de papelórios desconexos desprezados pela elite bem-pensante que dita os cânones da cultura (enlatada) contemporânea, talvez tenham parcialmente lido, nalgum naco de folheto já meio rasgado, uma fábula que andou circulando entre os alunos e alunas do Lyceo Pitanga, em que se contavam as estripulias de um pavoroso gigante que mora em tortíssimo castelo sobre escarpado rochedo. Sofreai aqui vossos passos, leitores sensíveis, leitorinhas melindrosas, que o que se segue será horripilante.

(“Babylon: mystérios de Ishtar”, Companhia das Letras, 2004)

Marcelo Pen
É crítico de literatura e escreve regularmente para a "Folha de S. Paulo".

 
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