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dossiê
POESIA BRASILEIRA

Teatro Morpheo apresenta as estripulias de Zuca Sardan
Por Marcelo Pen


Auto-retrato de Zuca Sardan
Divulgação

"O palhaço é o derradeiro sacerdote", diz o poeta em entrevista

Se você nunca ouviu falar do poeta, escritor e desenhista Zuca Sardan, não se constranja. Poucos ouviram. Desses poucos, pouquíssimos acompanham-lhe a trajetória. Mas não é só com atenção que estes últimos a acompanham. É com um sentimento bem próximo do júbilo.

O poeta Francisco Alvim, talvez seu maior divulgador, diz que Sardan escreve "fábulas e apólogos narrados com uma delicada pena de urutau constantemente banhada em ironia e humor sem equivalentes nas letras pátrias". Enquanto a crítica Flora Süssekind o compara ao pintor surrealista René Magritte, a escritora Vilma Arêas descreve o "sentido inaugural, sempre renascente, de sua pureza (...) misturada com uma manha velha como o diabo". E Cacaso um dia sentenciou que Sardan é "personalidade das mais originais e curiosas da literatura e poesia brasileiras", compondo "um gênero de poema que joga com o leitor e consigo mesmo, quase sempre em contradição com a expectativa inicial que a leitura predispõe".

Zuca fez parte da hoje clássica antologia "26 Poetas Hoje" (Editorial Labor do Brasil: 1976), ao lado de "luminares" da então nova poesia, como o próprio Alvim, Roberto Piva, Eudoro Augusto, Ana Cristina César, Chacal e Waly Sairlormoon (que depois se tornou Waly Salomão; outra curiosidade desse volume é a presença da romancista Zulmira Ribeiro Tavares e do crítico Roberto Schwarz). Além disso, as editoras Cosac & Naify e 7 Letras têm uma coleção de poesia chamada "Ás de Colete", título de um dos trabalhos de Sardan. Coincidência?

Sardan, que começou assinando Carlos Saldanha e depois passou para Zuca Sardana antes de virar Zuca Sardan (e Alvim ainda o chama de Felipe, pois o nome completo do amigo é Carlos Felipe Alves Saldanha; o que, convenhamos, não ajuda na divulgação) nasceu no Rio de Janeiro, em 1933. Formou-se em arquitetura e principiou a carreira como pintor, seguindo os passos do pai, Pido Saldanha. Embora tenha até montado ateliê em Paris, não se firmou nas artes plásticas. Naquela época (década de 1950), o "must" era mesmo o abstracionismo, e Zuca só queria saber do figurativismo.

O filme "Orfeu", de Jean Cocteau, mudou tudo. Julgando que "o carro baratinha-sport e o blusão de couro" do herói de Cocteau eram "o máximo da bacanice", decidiu que se tornaria "um famoso poeta surrealista desconhecido". Inspirado em "As Flores do Mal" de Baudelaire e na Patafísica do vanguardista Alfred Jarry, começou a produzir folhetos ("spholhettos") mimeografados. Do mimeógrafo ao xerox, da gráfica Tupy (de Pido) à sua própria gráfica Gralha, as "prensas" não pararam. "Operetta inachevée" (1958), "Poemas Zum" (1969), Os mystérios" (1979) e "Visões do bardo" (1980) são apenas alguns de suas invenções.

Trata-se de edições raríssimas, guardadas com zelo pelos possuidores, pois só se produziram poucas dezenas de cópias de cada uma. A situação só mudou (ligeiramente) quando, nos anos 90, a editora da Unicamp lançou o livro "Osso do coração" e relançou "Ás de colete" (edição revista da obra de 1979). "Babylon: mystérios de Ishtar", publicado em 2004 pela Companhia das Letras, é de fato o primeiro livro de Zuca a vir a lume por uma editora mainstream -fora do esquema marginal, independente ou universitário.

"Babylon", cujas histórias Zuca classificou como "folhetins", constrói-se numa trilha paralela a dos poemas: a das fábulas. Como nos livros de poesia, as imagens que as ilustram exercem importante função expressiva. A influência dos desenhos deu-se pela via das histórias em quadrinhos (Flash Gordon, Tarzan) e dos caricaturistas brasileiros (J. Carlos, Nássara, Luiz Sá). Zuca conta que, após a crise da pintura, só voltou a desenhar aos 40 anos, quando urdiu a técnica de traçar a figura de ponta-cabeça: "Descobri que fazendo o desenho de cabeça pra baixo se ganha uma perspectiva à ‘vol d’oiseau’. O falcão, lá de cima, vê o mundo de cabeça pra baixo... O que lhe dá uma visão do conjunto extraordinária, libertadora".

Pois é esse mundo ao avesso, de ponta-cabeça, que Zuca dá vida em seus poemas e fábulas. Um mundo assemelhado às pantomimas circenses e à commedia dell’arte, aos mafuás decadentes e às figuras dos sonhos, à infância e ao que vem antes dela, dos porões assombrados da humanidade. Por falar em infância, Zuca tem diversos casos para contar, tão surrealistas quanto suas histórias. O mais fantástico diz respeito a uma escalada pelo Pão de Açúcar, até um certo Cassino, por cuja janela Zuquinha entreviu Carmen Miranda, peladona, "só de chinelinhas". Na melhor linha de "meninos, eu vi!", o escritor jura que o flagra realmente se deu.

Mas o fato é que na região kitsch, dramática e fantasmagórica do Theatro Morfeo, que abriga os personagens sui generis criados por Zuca (Alvim definiu-os como pertencentes a "uma infância vetusta"), etiquetas como realidade e ficção, prosa e poesia (e desenho!) não são lá muito estanques. Trata-se de um mundo cediço, em que cada elemento parece contradizer (ou gozar) o significado do elemento anterior. Um mundo clownesco e ferino, sempre muito próximo da explosão, no fim do qual, segundo Zuca, "o palhaço é o derradeiro sacerdote".

Bem-vindos ao Theatro Morfeo!

P.S. Durante sua carreira de diplomata, Zuca residiu nos Estados Unidos, Argélia, Nicarágua, Peru, União Soviética, Holanda e Tailândia. Atualmente, mora em Hamburgo, na Alemanha. Nessa entrevista, feita de troca-troca de e-mails, Zuca redigiu suas respostas em sua ortografia pouco ortodoxa, a qual procuramos, na medida do possível, seguir.


Carlos Saldanha, Zuca Sardana, Zuca Sardan. Por que essa mudança de nomes?

Zuca Sardan: Os artistas de pantomima pintam a cara de branco. O Zuca precisa, pra aprontar suas estripulias, de uma liberdade que o Carlos Saldanha não tem. Isso porque o Zuca vive no palco mental do Theatro Morfeo, e o Carlos Saldanha anda por aí, entre a Casa da Sogra, a Igreja e a porta da Delegacia.


A primeira vez que usou a atual alcunha, Zuca Sardan, foi no livro "Osso do coração" (Editora da Unicamp: 1993). Foi uma escolha proposital?

Zuca: O nome completo do Zuca foi um processo alquímico complicadíssimo, pois não era eu quem estava inventando o nome, conforme singelamente imaginava, mas sim era o nome, ainda não totalmente revelado, que estava, ele próprio, se inventando. Um pouco o drama do Gepeto fabricando o Pinocchio. O nome assinando o "Osso do coração" seria Zuca Sardanga. Mas, quando fui escrevê-lo no desenho da capa, as letras saíram grandes demais e o final pulou fora da folha. Ficou só... Sardan. E o nome, Zuca Sardan, de repente, se iluminou e me desferiu um flash fulgurante.


Em entrevista concedida à revista "Inimigo Rumor" (no 15), em 2003, você disse que as histórias mais interessantes são "meio lenda, meio realidade". Nesse sentido, é meio lenda, meio realidade, sua escalada pelo Pão de Açúcar e o strip-tease de Carmen Miranda?

Zuca: Sim, um pouco o strip-tease às avessas, da "Maja" do Goya. Primeiro nuazinha, de tetas deliciosamente vesgas, depois vai se vestindo, se vestindo, um pouco aqui, espreme um poucochito acolá, e logo, plaf!, serissimamente vestida, na horinha em que o Duque, chegando da cazzada, vai tocar a campainha.

A lenda é a volta ao Passado Vivo, que sacraliza o Presente. E o Passado Vivo se transforma. Se não se transformasse, estaria morto, seria Passado simplesmente Histórico. E que eu vi a Carmen Miranda, eu vi, pela providencial janelinha, ela butucando os olhões verdes, e só de chinelinhas, numa explosão de rosas.


Seu desejo de tornar-se poeta, de par com sua desilusão momentânea pela pintura, segundo descreve, surgiu tanto do desejo de espelhar-se em "Orfeu", do Cocteau, quanto das gralhas cometidas em seu curso de francês. Trata-se de referências significativas, pois remetem a influências clássicas (Orfeu), modernas (Cocteau), internacionais (o francês) e carnavalescas (as gralhas), que encontramos em sua arte. Concorda?

Zuca: Orfeu terra, Cocteau ar, Baudelaire água, Gralhas fogo. Concordo plenamente. Enquanto tentava me espelhar no Orfeu zunindo os pneus do carro-sport na esquina do Café Flora, as Gralhas é que realmente me espelhavam. Não nos belos acertos, mas sim nos erros desgrenhados, nas Gralhas, é que o Poeta finalmente se descobre.


Você fundou o Manifesto Geometrista, em reação à poesia concreta. Qual foi a importância, para sua formação, da poesia Concreta e do concretismo?

Zuca: A poesia concreta e o concretismo tinham um pacto secreto com minhas Gralhas, ou seja, trabalhavam juntos em contra-corrente a meu trajeto, me levando a canoa pruma terceira direzzão. O Visual com direito de cidadania na poesia certamente muito me ajudou.


Lendo suas fábulas, ou folhetins ("Bebhé-Gosmão", "Osso do coração" e, agora, "Babylon"), percebemos um imenso talento para a prosa, embora você tenha confessado não ter muita paciência com o romance. Vamos entender bem o sentido que pretende chamando essas suas fábulas de "folhetins". Até que ponto está se referindo a esse gênero melodramático, vovô do romance burguês?

Zuca: O folhetim é o vovô do romance burguês, lá isso é verdade. Eppure... também é o vovô do filme-em-série e dos mistérios de mafuá, Fu-Manchu, King-Kong, Fantasma da Ópera, Doutor Caligari... E é por aí que chegamos ao Theatro Morfeo.


A arte é sua cachaça?("Tempo Curto": E o que é a Arte/ para você?// A essas alturas/eu só poderia dizer...Arte é a minha cachaça.)

Zuca: Não é o Vate que comanda a Arte, é a Arte que comanda o Vate, como a cachazza subjuga o beberrão irredento. Sucesso ou fracasso, qu’importa?, o Vate segue sempre a Poesia. E o Vate fracassado, encanecido inutilmente, tem uma desculpa final: agora, minha tinhosa, que já estou podre de velho, não adianta mais te largar...


Explique melhor isso de buscar a "arte farniente", que não é nem a arte engajada nem a arte pela arte.

Zuca: Arte Farniente é a busca do Vazio... Procuramos esquecer a Morte e o Nada numa carreira frenética, num torvelinho sem fim de aproveite-enquanto-possa... O Farniente é uma subtrazzão; a base dos noves-fora... azzão (arte engajada) noves-fora, prazer (arte pela arte) noves fora zero (a morte). Mas trata-se de uma subtrazzão metafísica que vai além da matemática: zero noves-fora... e um sopro de vento... vazio. Só no vazio se pode criar, é pelo vazio do vão da porta que se pode entrar, pelo vazio da boca do pistão que o som pode sair.


Refere-se aqui ao processo de criação, não da função, digamos, da arte? Concorda com a afirmação de Oscar Wilde de que toda arte é demasiado inútil?

Zuca: Nunca perguntes ao pajé se suas mandracas são inúteis, porque pajé não discute... Ele na certa te responderá que não valem nada... E vai te vender umas pezzas de arte plumária. Mas se deixares que ele te envolva nas mandracas, então terá acesso ao mundo do mito, que é este mesmíssimo mundo do aqui-agora multiplicado por três... Mas que, naturalmente, só existe pra quem acredita.


Contra a Arte de "altos tacões", você contrapõe as "estripulias dos palhaços". Quais as armas que usa para sacudir "um poucochito de sua modorra o leitor erudito"?

Zuca: A grazzola e a xanxada são distrazzões pra não se prestar muita atenzzão na guilhotina, inclusive, in extremis, fazendo piadas sobre a própria guilhotina. Mas não adianta... O Humor acha engrazzado justamente o vão afã da xanxada. Só o Humor vai ao fim do fim. E, no fim do fim, o Palhaço é o Derradeiro Sacerdote.


Gostaria que falasse um pouco da época em que fazia tiragens mimeografadas de seus "gibis" ou "spholhetos", e, depois, quando os passou a reproduzi-los em xerox. A vontade de chacoalhar a poesia de altos tacões indica a intenção de aproximar arte da vida, como queria a poesia marginal (empresto a idéia desenvolvida por Heloísa Buarque de Holanda, no prefácio a "26 Poetas Hoje")?

Zuca: Eu fazia gibis e spholhettos como quem canta, rodando a manivela seus males espanta, e não tinha outra alternativa pra espalhar minha arte. Comecei por volta de 1953, com um mimeógrafo a álcool que tirava copias roxas... de dez a quinze exemplares... Sete anos de pastor serviu Jacó. E mais sete... e mais sete... Eu cantava... Cantava e... Lia muito, a Lia tinha lá seus encantos.

Décadas depois surgiu o xerox, que foi pra mim uma abenzzoada panacéia. Sempre impliquei com a empolazzão de peru-de-roda, na poesia e na vida, mas sobretudo em mim mesmo, que minhas Gralhas vão incansavelmente flagrando ao longo da minha vida. A antologia dos 26 caiu do céu. Merci... HB (HB como Helena Blavatski, que fazia a mágica de caírem bilhetinhos do teto)... Merci .

 
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