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política
PORTO ALEGRE
Diário do Fórum Social Mundial Participantes discutem se Chávez tomou lugar de Lula como líder da esquerda mundial; solidariedade e decepção na partida O Acampamento da Juventude, na manhã do dia 31 de janeiro, amanheceu mais vazio. Já era possível ver espaços em branco no terreno antes totalmente ocupado por barracas de jovens que vieram ao 5 Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre. Era o sinal de que a semana de discussões e propostas para um mundo melhor tinha acabado. No período da tarde, principalmente, era possível ver jovens com grandes malas nas costas -mais pesadas por conta dos jornais e objetos adquiridos no Fórum- e ônibus parados próximo ao acampamento, esperando pelos passageiros. A viagem da grande maioria dos acampados seria longa. Um, dois, três dias ou mais. Também era possível avistar rodas de amigos falando sobre o que viram e ouviram no Fórum. Mariana dos Santos Alves, de Campinas, São Paulo, estava alegre por “ter visto pessoas importantes, como Hugo Chávez e Lula”. Aliás, além dos escritores José Saramago e Eduardo Galeano, o presidente venezuelano Hugo Chávez e o presidente Luís Inácio Lula da Silva foram as grandes estrelas do Fórum Social Mundial, embora, para muita gente, Chávez tenha se tornado o grande nome do evento. “Hugo Chávez aparece como grande revolucionário porque tem atendido as reivindicações sociais da população da Venezuela”, diz a capixaba Lydiane Alencar Silva, que acredita que o presidente venezuelano seja atualmente o grande líder da esquerda mundial. Por conta da participação do presidente Luís Inácio Lula da Silva em eventos “capitalistas”, como o Fórum Econômico Mundial, em Davos, e da política econômica adotada no Brasil, muitos crêem que ele deixou de ser uma liderança dos movimentos antiglobalização ou anticapitalista no mundo. A norte-americana Lindesey Fransen, que visitava o Brasil pela primeira vez, percebeu isso. “Não entendo muito de política latino-americana, mas notei aqui no Fórum, conversando com as pessoas, que, se antes era o Lula, hoje a inspiração para a esquerda é o Hugo Chávez”. O carioca Gabriel Ribeiro, no entanto, defende o presidente brasileiro. “Lula e o Chávez lotaram o ginásio Gigantinho e foram os dois destaques do Fórum Social Mundial. Para mim, eles são os resultados da resistência da América Latina ao imperialismo norte-americano. Enquanto Chávez defende a Revolução Bolivariana, Lula defende o combate mundial à pobreza e à fome”, disse. Ele também critica os partidos de esquerda por criticar Lula. “Ao invés de concentrarem os ataques ao imperialismo norte-americano, as esquerdas erram ao atacar o Lula.”. Não são todos que acham válida a participação de líderes políticos e até mesmo de partidos políticos em eventos como o Fórum Social Mundial, pois como disse a peruana Luiz Cruz, o Fórum “é um espaço da sociedade civil”. De qualquer maneira, são nestes eventos que novos movimentos sociais e pessoas despontam como líderes de cidadãos contrários ao capitalismo. A estudante de jornalismo Camila Neuman, de São Paulo, acredita que Cuba continua sendo um exemplo para o mundo anticapitalista e que a Venezuela tem se tornado uma referência por causa do Hugo Chávez. Os movimentos Zapatista e dos Sem-Terra também são lembrados como exemplos.
Durante os seis dias do Fórum Social Mundial, os participantes tiveram acesso a uma série de debates e propostas para “um outro mundo possível”. Palestrantes e pessoas do mundo todo discutiram sobre os principais temas da pauta mundial. Acesso à água, globalização, imperialismo norte-americano, desmilitarização, mídia, diversidade cultural, racismo, trabalho infantil, guerras civis, pobreza e o papel da Organização das Nações Unidas (ONU) foram alguns deles. Terminado o evento, era, portanto, necessário colocar tudo o que foi aprendido e apreendido em prática. Muitos falaram que um outro mundo só seria possível se fosse mais solidário. Dessa maneira, quem ofereceu carona para alguns participantes do Fórum Social Mundial voltar para casa saiu na frente. E não eram poucas as pessoas que pediam carona. Cléia Pedrina Moura, 27 anos, que mora na cidade de Ourinhos, interior de São Paulo, foi uma das pessoas contempladas por uma carona. Logo nos primeiros dias do Fórum Social Mundial, ela foi assaltada dentro do acampamento e não tinha como pagar um ônibus de volta -ela foi para Porto Alegre de ônibus convencional, e não com um ônibus de excursão. Por conta disso, seus amigos começaram a ajudá-la com dinheiro para que ela pudesse se alimentar e juntar dinheiro suficiente para voltar para casa. Sua sorte mudou quando conheceu alguns estudantes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Bauru, na palestra “Diálogo Intercultural” e perguntou se teria lugar no ônibus para voltar, uma vez que o trajeto do ônibus passaria por sua cidade. Com um lugar assegurado, Cléia voltou para casa.
No entanto, há ações que mostram retrocesso na tentativa de implantar um outro mundo, como diz o slogan do Fórum Social Mundial. “Não esperava encontrar violência no acampamento”, disse a estudante Mariana dos Santos Alves. “Do lado da minha barraca, tinha um argentino chorando, porque roubaram todos os documentos e o dinheiro dele”, contou Francisco Amaral, estudante de Letras da Universidade de São Paulo (USP). Além dos assaltos a barracas, estudantes falavam de tentativas de estupro. Pablo Emanuel Almada, estudante de Ciências Sociais da Unicamp, acredita que o Fórum Social Mundial não fez jus ao slogan. Para ele, “as pessoas, no Fórum, sofrem muito com o individualismo proveniente do capitalismo e não tomam consciência do seu dever e do respeito ao outro. Por conta disso, acontecem conflitos, e um outro mundo não é possível assim”. link-se Alan de Faria
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