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cosmópolis
RITO

A cidade maravilhosa cai no samba
Por

Alexandre Elias

O “ambiente sônico” do Rio já mudou; foliões cariocas e simpatizantes dão dicas de onde ir durante a festa

Dia desses eu tinha acabado de sair de uma reunião no Leblon, à tardinha, e resolvi ir andando até Ipanema. À medida que caminhava, senti alguma coisa diferente no ar, nas pessoas, no trânsito e principalmente nos sons da cidade. Sim, o compositor e musicólogo canadense Murray Schafer, no livro "O ouvido pensante", usa um termo genial: "o ambiente sônico". Ou seja, a combinação de silêncio, sons e ruídos que caracterizam a paisagem sonora de um determinado lugar. É como se uma cidade fosse uma enorme orquestra que produz sua própria música.

Nesse dia eu percebi que o ambiente sônico do Rio de Janeiro estava diferente. A verdade é que eu não sabia bem do que se tratava. Aquele ar diverso, aqueles sons, aquela música, tudo era um mistério para mim. Então eu resolvi esticar o meu passeio e continuei andando até Copacabana, pela praia.

A praia de Copacabana é assim: de um lado quiosques à beira-mar, de outro bares e restaurantes. E, se você resolve parar em qualquer um deles, pode contar que em questão de minutos um grupo de "sambistas ambulantes" virá cantar para você.

O repertório vai do samba tradicional ao pagode moderno, com cavaco, pandeiro, e tudo aquilo que uma boa roda de samba tem direito. Mas nesse dia até isso eu achei diferente. O samba parecia estar sendo tocado de outra maneira. Aos poucos, ouvindo aquela música que me confundia, fui desvendando o mistério que tinha transformado a paisagem do Rio: era o Carnaval que se aproximava. Explico:

Até os meus onze anos de idade fui criado em Irajá, bairro boêmio no subúrbio do Rio. Eu morava em um apartamento de térreo, em um prédio de esquina, e, como todo mundo sabe, toda esquina no subúrbio do Rio de Janeiro hospeda pelo menos um buteco -e é assim mesmo que se escreve, buteco com "u", porque, segundo uma amiga minha, boteco com "o" é estilizado, chique.

Meu prédio era cercado por uns três butecos, e nos finais de semana todos eles tinham suas rodas de samba, que já faziam parte da vida das pessoas que moravam ali. Mas especialmente duas ocasiões faziam com que essas rodas de samba se transformassem em verdadeiros eventos: Copa do Mundo e Carnaval.

O Carnaval transformava essas rodas de samba em verdadeiros eventos. O Carnaval vinha e transformava tudo no Rio. Tudo, não apenas as rodas de samba.

Eu tinha uns cinco anos de idade quando percebi isso pela primeira vez, essa mudança que o Carnaval traz à cidade. Como eu pude esquecer disso, agora, aos 33 anos? Será porque passei oito meses trancafiado em um teatro, ensaiando o musical "As aventuras de Zé Jack e seu pandeiro solto na buraqueira no país da feira"? Talvez. Mas vou falar disso mais adiante.

Por enquanto, para que as pessoas que estão lendo compreendam a relação que o Rio tem com o Carnaval, transcrevo aqui alguns versos de um samba-enredo da Portela (minha escola de coração), chamado "Portela na Avenida", um clássico composto por Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro.

"Portela, eu nunca vi coisa mais bela
quando ela pisa a passarela
e vai entrando na avenida

Parece a maravilha de aquarela que surgiu
O manto azul da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida
Que vai se arrastando e o povo na rua cantando
É feito uma reza, um ritual
É a procissão do samba
Abençoando a festa do divino carnaval (...)"

É quase mística, quase religiosa a devoção dessa cidade pelo Carnaval. E hoje, quase 30 anos depois que eu percebi isso pela primeira vez, vejo que essa devoção continua.

De uma maneira diferente talvez, mas o Rio continua mágico em época de Carnaval. E semanas antes desses quatro dias mágicos, se você der um passeio andando do Leblon até Copacabana, ou se você parar em algum buteco no subúrbio do Rio pra tomar uma birita, você poderá sentir que a cidade já estará mudando, com outro ar, a caminho da transformação causada pelo ritual do divino Carnaval.


Dicas dos foliões

Há alguns anos, durante um período, os cariocas fugiam do Rio no Carnaval. Iam para o interior, para outros Estados, outras cidades, outros países, outros planetas, enfim, estavam de relações cortadas com seu Carnaval. Hoje a coisa mudou, e nós fizemos as pazes com o Carnaval da cidade, e em retribuição a cidade ficou mais bonita para comemorarmos essa reconciliação.

São muitas coisas para se ver e se fazer nessa época, e eu pensei em falar dessas coisas aqui neste artigo. Pensei em dar umas dicas, falar do que mais gosto de fazer no Rio em época de Carnaval. Mas, para que a coisa ficasse em pouco mais distanciada, resolvi pedir que outras pessoas fizessem isso por mim. Então, se você quiser, tome nota das dicas que colhi de alguns foliões, cariocas ou não, que brincam o Carnaval no Rio de Janeiro:

"Adoro passar o Carnaval no Rio. Gosto muito de desfilar na Sapucaí, mas só se tiver um esquema bacana de camarote. Também adoro passear ali pela concentração na avenida Presidente Vargas, com todo aquele comércio informal. Outra boa pedida é ir pra Lapa. Sempre tem eventos interessantes nessa época, e dá pra ir a pé até a avenida Rio Branco, onde podemos assistir gratuitamente às escolas de samba dos grupos de acesso."

Cláudio Lins, cantor, compositor e ator. Nasceu no Rio de Janeiro, atualmente mora em São Paulo


"Tenho dois programas obrigatórios na agenda. Na quinta-feira, antes do Carnaval, vou ao desfile do Escravos da Mauá. O bloco sai do Largo de São Francisco da Prainha, na Saúde, ali pertinho da praça Mauá, pega a avenida Rio Branco, a Visconde de Inhaúma, a rua do Acre e volta para o maravilhoso larguinho cercado de sobrados. No sábado de Carnaval, não dá para perder o desfile do Bola Preta. Você chega de manhã ao centro e vê a cidade cheia de adultos, crianças e idosos de todas as regiões da cidade, pessoas fantasiadas, em grupos ou sozinhas, levantando plaquinhas com mensagens bem-humoradas, animadas, cantando e dançando, deixando as preocupações de lado. É uma delícia. Ali está o melhor do espírito carioca. E no meio do desfile, em plena avenida Rio Branco, é hora de acompanhar Beth Carvalho cantando "Vou festejar" com aquela multidão. Depois do desfile, não pode faltar uma sardinha assada no Flor de Coimbra, uma adega simpática que fica na ruazinha ao lado da Sala Cecília Meireles, na Lapa."

Ana Paula Conde, jornalista. Nasceu e vive no Rio de Janeiro, RJ.


"Gosto dos blocos de rua, Carmelitas, Cordão do Boitatá, de desfilar em alguma escola de samba e, se conseguir credencial, ir para o camarote da Brahma."

Juliana Betti, cantora e atriz. Nasceu em São Paulo, SP, mora no Rio há 19 anos.


"Gosto de ver o desfile das escolas de samba pela televisão, em casa com minha família. Vejo os dois dias quase inteiros. Só fui ver o desfile no sambódromo uma vez e, quando aquela bateria passa pela gente, dá vontade de se jogar em cima dela. Quando eu era criança o desfile era na avenida Presidente Vargas e minha mãe me levava todo ano. Hoje eu vejo pela TV mesmo. Minha escola é a Grande Rio, de Caxias."

Zilá Alves, diarista. Nasceu e vive no Rio de Janeiro, RJ.


"Na verdade só passei o Carnaval aqui no ano passado, ensaiando, o que me proporcionou um Carnaval bastante silencioso. Quero ficar no Rio neste ano só para conhecer o Cordão do Bola Preta e o Cordão do Boitatá, dos quais já ouvi tanto falar."

Thais Gulin, cantora e atriz. Nasceu em Curitiba, PR, mora no Rio há quase quatro anos


"Gosto de desfilar na bateria da minha amada Vila Isabel; de freqüentar os blocos do centro do Rio, especialmente o Cacique de Ramos, o Bafo da Onça e Os Arengueiros; de tomar um banho de mangueira no Bloco Barbas, sábado à tarde; de dar uma passada pela Lapa, à noite; de ir à praia pela manhã ou tarde."

Carlos Fernando Cunha Jr., professor universitário. Nasceu no Rio de Janeiro, mora em Juiz de Fora, MG, há quatro anos .


"O que eu gostaria de fazer no Carnaval é exatamente o que farei. A cidade fica muito calma, daí ser delicioso dar passeios na orla de manhã ou à tardinha, receber amigos em casa, boa comida, bons vídeos e, claro, uma noite pelo menos, ir ao sambódromo ver as escolas."

Eliane Giardini, atriz. Nasceu em Sorocaba, SP.


"Há algum tempo que não passo o Carnaval no Rio, tenho ido para o interior. Mas costumava brincar na Cinelândia, acompanhando o Cordão do Bola Preta. Também ia sempre ver o desfile das escolas de samba, ou ia de Irajá, onde morava, até Madureira para brincar no Bloco de Sujo."

Hélia Andrade, enfermeira aposentada. Nasceu em Itabuna, Bahia, mora no Rio há 50 anos.


"Segue o passo a passo do meu Carnaval, sempre ao lado de amigos, nem sempre os mesmos, mas amigos.

Sexta feira - Sair do trabalho e ir direto para o Bloco das Carmelitas em Santa Teresa. Depois dar um pulo na Lapa. Geralmente o palco da Lapa recebe artistas de todos os estilos musicais a partir das 18h e a noite culmina com shows de sambistas tradicionais, como Leny Andrade, Nelson Sargento, Zeca Pagodinho... É o máximo. Geralmente deixo a arena por volta das cinco da manhã.

Sábado - Caminhada por Santa Teresa e uma deliciosa Muqueca de Peruá, no restaurante Sobrenatural. Voltar pra casa e atacar aquela cervejinha que a esta altura já está estupidamente gelada, e seguir para Ipanema, ver os modelitos das drags na banda de Ipanema. Se tudo correr bem, passar na Lapa e curtir os últimos shows.

Domingo - Dormir um pouquinho mais. Atacar as frutas e uma daquelas "comidinhas faceis" de fazer. Voltar para Ipanema, curtir o bloco Simpatia Quase Amor. Na volta pra casa, se a bebida estiver sob controle: Lapa.

Segunda - Dia dos vídeos. Morgar na cama. Se o telefone tocar eu penso em alguma coisa.

Terça - Oba! Energia recuperada. Outro almoço em Santa Teresa, correr pra Banda de Ipanema, jantar em algum lugar. Curtir a última noite da Lapa."

Rose Dalney, produtora e coordenadora do projeto Direitos Humanos em Cena da ONG People´s Palace Project. Nasceu em Porto Nacional, Tocantins. Mora no Rio há 18 anos.


"Não tenho o costume de passar Carnaval no Rio. Como uma boa pernambucana, nesta época o frevo fala mais forte que o samba. De qualquer forma neste período de pré-carnaval gosto muito do Baixo Mangueira, que são os trailers que ficam na porta da quadra da Mangueira. É animado, mas não tão cheio quanto a quadra e bem mais popular. Lá você vê de fato o povo sambando e só paga a cerveja. Dentro da quadra tem muito gringo e galera que tem mais grana, ou seja, que tem menos o samba no pé... Acho bom esse Carnaval de rua de bloco, mas sempre preferi as prévias. No Carnaval tem muita confusão, muita gente, sou muito pequena. Há uns 10 anos atrás fui fã do Suvaco do Cristo, quando ainda era na quadra. Ia todo domingo, hoje nem sei se existe mais... Enfim, estou um pouco desatualizada do carnaval no Rio, mas este ano estarei aí firme e forte entre Lapa e Santa Teresa pra ver o que está acontecendo. Quando ficar chato, vou pra casa com meu marido e meus amigos pra continuar a festa. Até mesmo porque Carnaval é onde a gente quiser."

Duda Maia, coreógrafa e diretora de movimento. Nasceu no Rio de Janeiro, RJ, e aos três anos de idade foi para Pernambuco. Voltou para o Rio, onde mora há 18 anos.


Jackson do Pandeiro

Eu realmente quase deixei de ouvir essa tal música diferente que compõe o ambiente sônico do Rio na época do Carnaval. Como escrevi antes, porque fiquei trancafiado em um teatro ensaiando a peça "As aventuras de Zé Jack e seu pandeiro solto na buraqueira no país da feira". Em compensação, fiquei ouvindo Jackson do Pandeiro, que é incrível e espetacular e toda sorte de adjetivos e qualquer coisa que seja no superlativo absoluto sintético.

Nós ouvimos mais de 200 músicas para escolher o repertório do espetáculo, que é todo construído a partir das situações e estórias das letras das músicas do Jackson. É um universo fantástico de valentões, cornos, mulher que vira homem etc. O espetáculo tem roteiro dramático e concepção de João Falcão e direção de João Falcão e Duda Maia. Está em cartaz no Rio.


Epílogo

Vou terminar da seguinte forma: provavelmente existem outras coisas para se fazer no Rio durante o Carnaval, coisas que não entraram nas dicas dos meus colaboradores.

Coisas ainda não descobertas, algum lugar ou bloco que só uma minoria sabe, em alguma rua sabe lá Deus onde. Ou simplesmente algo que todos conhecem, mas que todos esqueceram de indicar. Então, caso o leitor tenha alguma dica, escreva para mim que eu coloco aqui e a gente vai engrossando nosso caldo. E bom Carnaval pra todos.



Alexandre Elias

É compositor e produtor. É diretor musical da Cia. de Ópera Popular, em cartaz no Rio com o espetáculo "As aventuras de Zé Jack e seu pandeiro solto na buraqueira no país da feira", dirigido por João Falcão e Duda Maia. Atualmente trabalha na direção musical da opereta "A Canção Brasileira", dirigida por Paulo Betti. É produtor e músico no projeto guerra_peixe.com, ao lado de Flávia Costa, Cláudio Lins e Robertinho Silva.



 
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