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Os medos de Zé do Caixão
Por Guilherme Werneck

O maior diretor de filmes de terror do país fala do Brasil que lhe causa arrepio

Quando Zé do Caixão poderia reinar absoluto, aterrorizando as ruas quase escurecidas pelo apagão, ele se recolhe. A penumbra não o anima a espalhar o mal, o assusta. O alinhamento dos planetas rege um signo estranho, amaldiçoando um Brasil de sete pecados. E cada um deles provoca calafrios em Zé do Caixão.

Não é fácil apavorar a figura mais temida do terror brasileiro, muito menos a mente por trás do personagem, o diretor José Mojica Marins, 66 anos, que com pouco dinheiro fez um cinema brasileiro e criativo. Hoje, porém, o terror das ruas parece mais temível que o dos filmes. Convidado por Trópico, Zé do Caixão enumerou o que mais o apavora no Brasil.

Ele se assusta com um país em que as crianças e os adolescentes conhecem melhor as drogas do que a cultura. Sua espinha fica gelada ao perceber como a solidão atinge as pessoas nas grandes e pequenas cidades. Ele teme que o Brasil seja rebaixado em razão do desrespeito à natureza, da caça às espécies em extinção, do desmatamento do cerrado e da floresta amazônica.

Para ele, nossos políticos nos colocam numa espécie de picadeiro internacional, as novas seitas transformam os homens em autômato, a preguiça esvazia a criatividade. O país vai tombando para mundos inferiores: o terceiro, o quarto, o sétimo mundo, um lugar em que se exportam órgãos de crianças e meninas são exploradas sexualmente pelos países ricos. Quem não tremeria de medo só de pensar em viver num lugar como esse?

Os medos de Zé do Caixão

Violência contra crianças

"As drogas já chegaram às creches. Hoje você vê crianças de sete, oito anos e até menores presas ao mundo das drogas. Isso, sem falar no tráfico de crianças, em quantas somem e têm seus órgãos retirados para ser vendidos no exterior. Isso me enche de medo."

Falta de solidariedade

"Estou sentindo no Brasil, no povo, uma falta de solidariedade, uma desunião muito grande. Às vezes a gente se pergunta se só tem de viver com a família, com os irmãos de sangue. Porque bate uma solidão danada. Além disso, as pessoas estão cada vez mais egoístas. Você vê uma pessoa gritando por socorro e deixa passar. Ela cai no chão e ninguém vê. Se dizem que houve um acidente de ônibus e todos morreram, você só se abala se conhecer alguém que estava no acidente. Isso é a irracionalidade do homem. Até os animais estão ficando mais amenos do que o homem. É mais fácil doutrinar uma pulga do que o ser humano."

Desrespeito à natureza

"O desrespeito à natureza me faz tremer de medo. O desmatamento, a extinção de determinados animais. Tem gente que mata bicho em extinção para comer, e mesmo isso é muito desrespeito. O mundo está cada vez pior. Não sei até que ponto isso vai chegar. Seria isso o fim do mundo, de que tanto falam? O homem vai acabar com ele mesmo, através da natureza? Essa é outra coisa que me mete medo."

Preguiça mental e física

"A preguiça mental e física na juventude está enorme. Nós poderíamos criar coisas muito grandes, mas essa preguiça está deixando as pessoas com falta de criatividade. Elas estão preferindo copiar a criar.

A maioria quer viver o agora, o momento, sem se interessar pelo que vai acontecer no dia seguinte. Isso realmente me assusta. Você pergunta qualquer coisa para um garoto de 18 anos e ele diz: 'Estou estressado'. Estressado de quê? Isso tira a criatividade de um povo que tem tudo para criar. Ficam copiando sempre os padrões do Primeiro Mundo, e nós vamos indo em definitivo para o Quarto Mundo."

Manipulação das religiões

"A manipulação feita pelas religiões, para transformar seres humanos verdadeiros em andróides, bonecos, panacas dá um medo danado. Eu acho que as religiões estão indo longe demais. As pessoas ficam lutando para arrumar um dízimo quando não conseguem arrumar comida para casa. A cada vez surgem mais igrejas, pregações diferentes. Se Deus é um só, por que tantas pregações e tantas cerimônias? Isso vem me deixando de cabelo em pé. É um comércio muito grande. Eles deveriam obedecer à própria Bíblia que pregam e não usar o santo nome em vão. Mas o que eles mais usam é nome Dele _até para a política."

Exploração sexual feminina

"Meninas sem cultura alguma são exploradas. As pessoas se metem por esse Nordeste afora, pegam essas crianças, levam para outros países e fazem loucuras. Elas acabam vivendo como prostitutas nesses países. É uma máfia muito forte. Essa exploração está indo além dos limites e me arrepia."

Desunião política

"O Brasil virou uma torre de Babel. Um não entende o outro, e a gente é quem paga. Essa desunião gerou o apagão, que nos leva para o sétimo mundo. E não é uma fantasia. A culpa é de muita briga. Nós estamos em um circo de picadeiro. Nas arquibancadas, o mundo todo está vendo e dando risada, porque é uma coisa atrás da outra. Tivemos o problema da era Collor, e daí para frente não parou mais."

Guilherme Werneck
É jornalista.


 
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