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política
PORTO ALEGRE

Diário do Fórum Social Mundial
Por Alan de Faria

Palestinos fazem manifestação e falam sobre as eleições no Iraque. No acampamento, “eros está no ar”

Enquanto as palestras dispersam os participantes do 5º Fórum Social Mundial, as inúmeras manifestações organizadas por delegações chegam a juntar cerca de mil pessoas ou mais. Os temas das manifestações são os mais variados.

Sexta-feira, dia 28, dois dias antes das eleições no Iraque, cerca de 1.500 pessoas se uniram para realizar um ato em solidariedade ao povo palestino. Jovens estudantes, militantes políticos, palestinos e outros percorreram toda a orla do rio Guaíba cantando gritos de protesto, ora em português ora em árabe, contra a ocupação israelense de territórios palestinos, a invasão norte-americana no Iraque e as pretensões do governo Bush de implantar à força a democracia no Oriente Médio.

Para Leila Khaled, do Conselho Nacional Palestino, “os Estados Unidos são os verdadeiros inimigos da democracia”. Ela questiona: “Que democracia é essa que os Estados Unidos implantam com tanques, com destruição e sem valores humanos, como notamos nas ações em Fallujah?”.

A mesma opinião é defendida pela descendente de palestinos Sonia Yuster, de 41 anos. “Não se implanta nunca à força uma verdadeira democracia. A democracia é sinônimo de liberdade.” Para Avital Mozes, palestina de 38 anos que participava da manifestação, os Estados Unidos estão tentando fazer no Iraque o que eles tentam fazer na Palestina.

Na opinião de Leila, o mundo islâmico não é contrário à democracia. Teria até mesmo um sistema parecido com a democracia, denominado de “shura”, no qual o governante muçulmano tem a obrigação de consultar seus súditos.

Enquanto passava em frente ao Acampamento da Juventude, a manifestação era saudada pelos acampados, sendo que alguns deles entravam na caminhada.

A acampada Moema Guedes, 25 anos, por exemplo, acredita que “a função do Fórum não é só discutir questões específicas, como também questões globais, como a do povo palestino”. Para ela, a questão palestina não se limita ao povo palestino. “É uma questão muito mais ampla. Trata-se de se manifestar contra o militarismo e a invasão norte-americana em diversas regiões do mundo, como no caso do Iraque.”

Terrence Lacerda, outro jovem que se juntou à marcha, cita a frase de um amigo para tentar entender por que os Estados Unidos invadem outras nações. “Os Estados Unidos não têm noção de espaço”, disse.

No final, um muro simbólico que representava o muro que o premiê israelense Ariel Sharon constrói na divisa com a Cisjordânia foi destruído. “Uma manifestação como essa é o ato mais importante para a nossa delegação. Nós, palestinos, realmente apreciamos esses gestos de solidariedade do mundo inteiro em prol da causa palestina”, disse Adela Biadi, palestina, 28 anos.

Hoje, dia 30, além de debates que envolvem o tema das eleições e da invasão norte-americana no Iraque, há previsão de novas manifestações e atos a favor do país.


“Eros está no ar”

Paralelamente às manifestações e palestras, outras movimentações protagonizadas por jovens acampados acontecem. A presença de pessoas do mundo inteiro, com tipos de beleza diferentes, aliada à tentativa dos jovens de conhecer o maior número de gente possível, propicia muitos abraços e beijos no Fórum Social Mundial. Como disse o ministro Gilberto Gil durante o seu show no Anfiteatro Pôr-do-Sol: “Eros está no ar”.

A estudante de jornalismo Verônica Alves Lima, 19 anos, conheceu um italiano e “ficou” com ele. “Foi engraçado. Eu falava portunhol e algumas palavras em italiano, mas, em última instância, para a gente se entender, falávamos inglês. Ficou difícil de qualquer jeito, pois eu não sei falar nenhuma língua fluentemente”. No final, ela disse que deu tudo certo, mas, mesmo assim, acha que tem acontecido pouca azaração no acampamento.

A estudante Letícia Passos, de Suzano, São Paulo, tem a mesma opinião. “Como aqui todo mundo é simpático, como todo mundo quer se conhecer, rola muito mais uma conversa. Pode até chegar um cara com outras intenções, mas, como estou mais empolgada em conhecer gente nova, sem querer beijar -não primeiramente-, nem percebo se ele está me xavecando ou não”.

Mas nem todos pensam dessa maneira. Maina Sulzbach, 16 anos, de Porto Alegre -é comum ver jovens da própria cidade acampados- acredita que o Fórum tem sido uma “putaria”. Para ela, “as pessoas tentam reviver a vida de sexo livre dos hippies dos anos 60 e 70”.

Já a estudante de publicidade Guadalupe Albuquerque discorda de Maina. “O lance de sexo livre não rola mais, pois nós estamos pagando os pecados da época dos anos 60 e 70 com a Aids e as DSTs”, diz. Rodrigo Logo, 20 anos, acha que as pessoas estão mais abertas no Fórum, mas “não chega a ser um Woodstock”.

Sabendo que o jovem acampado poderia ter relações sexuais no acampamento, a organização do Acampamento da Juventude criou o Espaço Che Guevara, um local de promoção e assistência à saúde, no qual os acampados recebem tratamento médico básico, massagem e podem pegar camisinhas.

Mariane Regina Araújo Sabino, estudante de medicina de Pernambuco, trabalha voluntariamente no espaço e conta que o Espaço Che Guevara recebe pessoas com febre, gripe (por conta da mudança de tempo), cortes nos membros inferiores e com problemas com bebidas alcoólicas. “Nos casos mais graves, nós chamamos o Serviço Ambulatorial Móvel de Urgência (Samur), que leva os acampados para o hospital.” De noite, ela conta, há uma corrida às camisinhas no Espaço.


Lula e Guevara, estrelas das telas

O Fórum Social Mundial também tem exibido filmes ao ar livre no Anfiteatro Pôr-do-Sol. “Entreatos”, de João Moreira Salles, e “Peões”, de Eduardo Coutinho, foram alguns dos filmes mostrados.

Na sexta-feira, “Diários de Motocicleta” (Walter Salles) emocionou bastante cerca de três mil jovens que assistiram ao filme sentados na grama. Nem mesmo o som que vinha de outras tendas ou o grito de “água um real, cerveja dois” dos vendedores ambulantes atrapalharam a exibição.

“Eu achei impressionante. Nunca vi a sessão de um filme reunir tanta gente”, diz Stelizmas Magesck Serra, 22, do Espírito Santo. O estudante argentino Carlos Figueroa concorda com Stelizmas: “Eu já tinha assistido ao filme em Buenos Aires, mas aqui foi muito diferente”.

A platéia aplaudiu diversas cenas do filme. E, ao terminar a exibição, parecia que estava sentindo a mesma emoção de Che Guevara após a sua viagem pela América Latina.


Acampamentos clandestinos

A região onde ocorre o 5° Fórum Social Mundial está completamente tomada. O Acampamento da Juventude ficou lotado e se tornou necessário que outras áreas fossem utilizadas para as pessoas acamparem, como a areia da orla do Rio Guaíba, mesmo ela não sendo uma área reservada para este fim.

De acordo com a organização do Acampamento da Juventude, mais de 25 mil pessoas fizeram o credenciamento para acampar durante os dias do Fórum Social Mundial. No entanto, como não há um controle de quem entra e de quem sai do acampamento, mais de 10 mil pessoas acamparam de maneira clandestina no parque, o que provoca insegurança para os “verdadeiros” acampados, que têm direito a um kit que contém: caneca, pulseira para colocar no braço e uma espécie de colar para identificá-los.

Há quem diga que, por conta disso, alguns incidentes têm acontecido no acampamento. Já houve casos de roubos e assaltos em barracas, mas em comparação à quantidade de pessoas que existem no acampamento, é um número pequeno. De qualquer maneira, para evitar novos assaltos, as pessoas ou os grupos que vieram juntos colocaram suas barracas próximas uma das outras e fazem rodízio para vigiá-las.

link-se

No primeiro dia, protestos contra Bush e Lula; nos acampamentos, banhos frios e noites geladas - http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2517,1.shl

No segundo dia, vaias para Lula, comida cara, intervenções culturais... os participantes se perdem e se encontram - http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2518,1.shl

Alan de Faria
É jornalista.

 
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