O incrível George W. Bush
Por Marcos Nobre
O desenho animado “Os Incríveis” é propaganda sofisticada e brutal do novo conservadorismo americano
Não vejo nada mais interessante (e mais complicado de explicar) do que a vitória do neoconservadorismo americano com W. Bush e, no nosso quintal, os quase dez anos que transformaram o PT em um partido político de molde tradicional que chegou ao poder. Deixo o PT para o próximo artigo.
Em um livro publicado há pouco, “What’s the matter with Kansas? How conservatives won the heart of America”, Thomas Frank dá pelo menos algumas pistas para entender esse recuo conservador norte-americano. Em resumo, a explicação de Frank é a seguinte: os conservadores investiram pesadamente no campo cultural e no apelo aos "valores americanos" da grande massa da população, organizando cruzadas morais e religiosas, enquanto os progressistas ou se recusaram a fazer o debate nesse campo, ou simplesmente ignoraram o problema. E, por incrível que possa soar, os conservadores conseguiram sucesso por se apresentarem como contestadores do establishment.
O sucesso das cruzadas conservadoras se deve ao fato de demonizarem as "elites": profissionais liberais, jornalistas, assalariados do mercado financeiro, intelectuais e... ricos! Segundo a imagem estereotipada produzida pelos intelectuais orgânicos do conservadorismo, a ruína dos Estados Unidos são as "elites liberais" que vivem nas grandes cidades do Leste do país, "arrogantes" (em contraste com o verdadeiro americano, que é "humilde"), "parasitas" (em contraste com os que "produzem"), “elites” que vivem no conforto de seus carros Volvo e bebem vinhos caros (em contraste com quem trabalha duro para ganhar o pão de cada dia) e assim por diante.
É chamado de "liberal" nos Estados Unidos quem defende políticas sociais distributivas, legislação de proteção trabalhista, sistema educacional e de seguridade social universalistas e laicos, e que costuma ter posições mais favoráveis em temas como união civil entre pessoas do mesmo sexo, medidas de ação afirmativa e de proteção aos direitos das mulheres e de minorias. É muito diferente, portanto, do "liberal" no sentido puramente econômico da expressão. Um "liberal" no sentido norte-americano é favorável, por exemplo, a que se cobre taxas e impostos dos contribuintes para financiar políticas sociais e ele não acredita que o mercado deva ser o único parâmetro de decisão de políticas públicas.
Segundo Frank, em algum momento das últimas quatro décadas, esse liberalismo no sentido norte-americano deixou de ser relevante para grandes parcelas da população que antes se orientavam por ele (e que, no contexto americano, costumavam votar no Partido Democrata). E essas pessoas começaram a se orientar mais e mais pelo ideário conservador e, conseqüentemente, a votar em candidaturas do Partido Republicano. E, com isso, escolheram políticas públicas que representaram décadas de recuo em relação às conquistas de direitos sociais. Ou seja, no campo econômico, apoiaram políticas destrutivas de seus próprios direitos.
A explicação para isso? Os expoentes das cruzadas conservadoras não falam de economia. Deliberadamente. Os negócios são coisa natural. O que importa são os "valores" e sua defesa. Trata-se de uma guerra cultural, uma guerra feita em nome dos americanos mais pobres, os "autênticos" americanos. Com isso, as políticas liberalizantes (no sentido econômico) não estão sequer em questão. O terreno da disputa não é mais a economia, mas a cultura.
O que faz lembrar a vitória de Bill Clinton sobre George Bush pai em 1992. O republicano parecia simplesmente imbatível e, no entanto, perdeu feio para o democrata, que foi reeleito em 1996. Na época, um interlocutor atônito que não sabia explicar como isso tinha sido possível recebeu a explicação arrogante que fez carreira: "É a economia, idiota!". Ou seja, Bill Clinton venceu porque a economia americana ia mal das pernas e isso teria custado a Bush pai a reeleição.
A prepotência dessa tirada mostrou seu equívoco pelo menos três vezes depois disso: Clinton quase foi para o beleléu do impeachment e não foi por nenhuma questão econômica; Al Gore perdeu a eleição para W. Bush ainda antes de a economia americana entrar em recessão e tendo atrás de si mais de seis anos de estrondoso crescimento; W. Bush foi reeleito com a economia americana andando de lado. A direita americana aprendeu muito bem a lição com a derrota de Bush pai e investiu pesadamente na disputa cultural. Guardadas as devidas proporções e diferenças, a vitória de Berlusconi na Itália, em 2001, seguiu figurino semelhante.
Encontramos posições as mais variadas na esquerda atual, mas poucas delas realmente atentas para esse novo formato cultural da disputa política: centristas cujo único objetivo é manter o que for possível das conquistas sociais das últimas décadas (e, para isso, fazem concessões antes impensáveis); marxistas tradicionais, para quem a cultura continua a ser secundária e subordinada em relação à economia e para quem a transformação social virá com uma revolução de moldes semelhantes às revoluções socialistas já ocorridas; e aqueles que vêem a situação atual como um novo totalitarismo de escala planetária, recheado de campos de concentração. No campo da esquerda, talvez estejam atentos para isso apenas aqueles que procuram conciliar a tradição de lutas por políticas distributivas com as novas exigências de reconhecimento de diferenças culturais, forçando o alargamento do próprio campo de disputa da cultura.
O essencial está em que a direita norte-americana soube manipular estrategicamente necessidades e demandas reais. E essa operação teve dois momentos. Em primeiro lugar, deslocou o campo de disputa inteiramente para a cultura. Mas, além disso, restringiu o campo em disputa da cultura para incluir apenas os "normais": idealizou um "americano médio" e seus "valores", excluindo quem "não se encaixa" no figurino.
Não há dúvida de que essa pretensão excludente do neoconservadorismo norte-americano é autoritária e potencialmente antidemocrática. Mas o mistério a ser explicado é justamente o de como essa operação ideológica foi possível sem recusar a disputa política nos moldes das instituições democráticas existentes. Não tem cabimento comparar essa operação ideológica com totalitarismos de qualquer espécie. Mesmo com todas as barbaridades do Patriot Act de 2001 (após o atentado do World Trade Center), das prisões de Guantánamo e de Abu Graib, mesmo com a manipulação descarada de informações por meios de comunicação de massa importantes, continua sendo possível resistir a essas investidas, criticá-las e apresentar alternativas.
Dizer que Bush é igual a Hitler é virar a cara para o real problema, que é o de entender como foi possível a vitória da coalizão neoconservadora americana sem instaurar um regime totalitário nos moldes do nazismo. Sem entender como isso foi possível, fica-se desarmado para o combate a essa onda neoconservadora de grandes proporções.
Fica-se desarmado, por exemplo, para entender e criticar os produtos culturais que acompanham essa revolução conservadora. É impressionante como um filme de animação do naipe de “Os Incríveis” é recebido e aplaudido sem nenhuma crítica. Os meios de comunicação de massa falam apenas de cifras e de recursos técnicos. Nada se ouve sobre o fato desse desenho animado ser propaganda conservadora em sua forma mais sofisticada e, por isso, em sua forma mais brutal.
“Os Incríveis” é nada menos do que o elogio descarado daquele "americano médio", "humilde, trabalhador e cheio de compaixão", o "americano autêntico" cantado em prosa e verso pelo neoconservadorismo norte-americano, e que, na verdade, seria um super-herói oculto, reprimido por anos de insanidade de políticos e tribunais. No momento em que a pátria e o mundo estão sob ameaça terrorista, ele deixa a aposentadoria forçada para salvá-los.
E não apenas ele. O verdadeiro herói do filme é a família. A família tradicional, década de 1950, pai, mãe, três filhos, todos brancos. A mulher é novamente relegada ao lar e, enquanto tal, é a "mulher elástica": realiza-se cuidando da casa, dos filhos e do marido. Cada membro da família é também um super-herói e eles têm de trabalhar juntos para salvar a si mesmos e ao mundo. No decorrer do filme, também o Sr. Incrível tem de aprender a trabalhar em equipe, tem de entender que são todos uma grande família, unidos contra a ameaça terrorista, e que cada um tem a sua função e seu papel.
No final das contas, a mensagem é esta: todo americano "autêntico" precisa estar preparado para se mostrar um super-herói a qualquer momento. Como diz um outdoor espalhado pelos Estados Unidos, a alternativa é: "Podemos estar com medo. Ou podemos estar preparados". E a preparação para a guerra depende daquele americano barrigudo e bonachão que, como o Sr. Incrível, só quer ajudar os outros. Mas, para isso, é preciso manter firme a estrutura que faz dele um verdadeiro americano -humilde, trabalhador e cheio de compaixão: a família tradicional. E a exigência para se alcançar esse objetivo é aquela que a mãe-elástica transmite à filha no momento de perigo: "Não podemos nos dar ao luxo da dúvida. Não pense".
Esse o verdadeiro segredo da vitória cultural conservadora: acostumar as pessoas a não pensar, a não duvidar, infundindo o medo em larga escala. O desafio está em fazer a disputa no terreno da cultura de maneira a fazer germinar a dúvida e a reflexão, as verdadeiras bases da tolerância política.
Marcos Nobre
É professor de filosofia da Unicamp e pesquisador do Cebrap. Entre outras publicações, é co-organizador e um dos autores do livro "Participação e deliberação - Teoria democrática e experiências institucionais no Brasil Contemporâneo" (Editora 34).