Seis meses de notícias econômicas absurdas: o Brasil está à deriva ou os meios de comunicação querem me enlouquecer?
Nunca tive atração pelos assuntos econômicos do Brasil, preferindo, como se fosse possível apartar um do outro, as questões político-sociais. Com uma “consciência socialista” ou simplesmente “democrática”, voltada para objetivos coletivos, tais como a integração social, acreditava eu, desde a infância, ser possível ler o mundo do trabalho e depositar nele o poder que a força produtiva tem de qualificar um homem.
Após anos de regime militar e governos improvisados, vieram os tão esperados mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva. As décadas passaram, varrendo com elas utopias -sobretudo a noção de identificação entre a produção social e a realização pessoal. O que significa a expressão “ganhar sua vida”? Como muitos brasileiros, sinto-me uma incapaz diante da marcha a ré das reformas prometidas (tributárias, judiciárias etc.).
Num dia de extrema angústia, resolvi procurar acompanhar as decisões e os números deste país: afinal, o Brasil “vai muito bem, obrigado” ou estamos à deriva?
Para executar meu plano, passei a coletar diariamente as notícias do jornal que eu assino (apenas por simples comodidade) e a escrever a manchete do dia numa folha. O que seria de início uma brincadeira ou uma catarse virou um trabalho conceitual. Todo dia, durante quase um semestre, fiz isto como um mantra, antes de começar a trabalhar (sou crítica de arte e não cientista política nem economista).
De vez em quando, ao entrar na internet para fazer pesquisa ou pegar e-mails, se eu encontrava uma manchete diferente, esta também ia para minha lista. Em pouco tempo, o vaivém da irracionalidade político-econômica foi emergindo, deixando boiar taxas de juros, de inflação, de desemprego, de crescimento industrial, de balança comercial.
O resultado parece uma ficção cômica, mas é apenas o discurso cronológico que nos chega a respeito do estado-Brasil. Não há aqui nenhuma manchete inventada. Cada qual aparece na sequência diária em que foi encontrada.
Não se trata obviamente de uma peça científica, pois sempre há uma subjetividade na escolha. Mesmo assim, detive-me nas chamadas baseadas em pesquisas (IBGE, por exemplo), evitando a armadilha dos boatos e rumores de declarações que o amanhã derruba com um tapinha jovial nas costas.
Como acredito em teses conspiratórias, ao ler o conjunto destas manchetes, uma nova suspeita acaba de surgir em minha mente: será que estamos à deriva ou será que os meios de comunicação é que querem me enlouquecer?
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Juro para consumidor volta a subir em junho. Venda do varejo cresce pelo sexto mês seguido. Para pagar aposentados, governo eleva contribuição previdenciária. Emprego na indústria recupera-se e cresce 1%. Inflação medida pelo IGP-10 cai a 1,31% em julho.
Elevação de tributo não basta para pagar aposentado. Número de falências no Brasil cai 15% no 1º semestre. Arrecadação de impostos cresce 10% no semestre e bate recorde. Cai volume de cheques devolvidos em junho. CEF e BB baixam juros de linhas de crédito. Dólar e risco sobem após discurso de Greenspan. Planos médicos e férias pressionam inflação. Banco Central mantém taxa de juro em 16% ao ano.
Desemprego cai no país e bate 11,7% em junho. Desemprego cai, renda sobe e empresários estão mais confiantes. Desemprego recua; aumenta vaga formal. Maioria das novas vagas tem remuneração inferior a um salário mínimo. Inflação sobe e é a mais alta desde abril de 2003. Inadimplência: índice cai em junho mas sobe no semestre.
Desemprego cai pelo 2º mês seguido em São Paulo. Taxa de cheque especial fica em 140% ao ano. Diretor do BC cai após denúncia de sonegação. Inflação recua em SP apesar de alta da saúde. Mais empresas pretendem contratar no 3º semestre. Telefone e luz levam IGP-M para 1,3% em junho. BC indica que juro não cai e pode subir. Brasil faz economia recorde, mas investe só 5,6% do previsto.
País cria empregos, mas de baixo salário. Sete em cada dez contratados recebem até dois mínimos; funcionário novo aceita ganhar 40% menos que os demitidos. Desemprego sobe mais para quem fez ensino médio. Indústria vende 16,79% a mais no 1º semestre. Governo anuncia corte de R$ 3 bi em tributos. Apesar da pobreza, os brasileiros ostentam luxo. País precisa de 46 anos para atingir níveis de 1o Mundo. Juro ao consumidor sobe após 17 meses; BC espera mais aumentos. Proposta de Orçamento prevê menor investimento. Risco-país retorna aos níveis de fevereiro. Brasil é o 32o no boom exportador.
Tarifas levam inflação ao maior nível em 15 meses. Bons números da economia aumentam aprovação a Lula. Lucro da AmBev dobra e atinge R$ 265 milhões. Metade das pequenas empresas “quebra” nos primeiros dois anos. Lula já festeja crescimento de 5% do PIB. Telefone aumenta 4,35% em setembro e 4,17% em novembro. “Produção industrial cresce em todo o país”, diz IBGE. Na TV, Lula critica “planos mágicos” e diz que Brasil começou a crescer. Superávit ultrapassa US$ 20 bi no ano. Pelo 3º mês seguido, indústria de SP contrata. PF lança megaoperação contra a lavagem de dinheiro no país. Lucro do BB no semestre é o maior desde 1988. Dólar cai abaixo de R$ 3 pela 1ª vez em 1 mês. Luz, telefone e planos de saúde elevam inflação a 0,81% em SP. Vendas do comércio avançam 12,8%, maior alta desde 2001.
PIB cresce 4,2% no primeiro semestre. Importação bate recorde com expansão da economia. Compras crescem 51% em agosto, puxadas por máquinas e matérias-primas; exportação vigorosa garante saldo positivo. BNDES demora para aprovar financiamentos, declara ministro do Desenvolvimento. Bolsa recua 1,27% sob temor de alta do juro. Quase 30% dos 377 mil candidatos a prefeito, vice ou vereador que disputarão as eleições municipais não têm o ensino fundamental: 24,2% não o completaram e 4,9% sabem apenas ler e escrever. CUT e Fiesp querem pacto contra juro alto e inflação. Setores líderes da retomada elevam preços na indústria. Lula utiliza crescimento para incitar patriotismo. Produção de veículos em agosto é recorde. Exportações batem recorde. Fila por emprego causa tumulto em Recife. Plano do pacto Fiesp-CUT divide cúpula do governo.
Governo vê risco em inflação; juro pode subir. Racha: Fazenda vê risco inflacionário, e Casa Civil, chance de influenciar política econômica. Dívida: Brasil capta 750 milhões de euros e anima mercado. Produção industrial cresce pelo 5o. mês, mas tem queda nos setores de bens semi e não-duráveis, aponta IBGE. Venda a prazo bate recorde em São Paulo. Consumo não retoma os níveis do Plano Real. “Não há razão para juros subirem”, diz Dirceu. Para Palocci, só aperto fiscal maior possibilita juro baixo. BC sobe juros e diz que é apenas o início. Juros sobem para 16,25%. Emprego industrial sobe pelo 3o mês; salário não. Arrecadação federal cresce 22 % em agosto. Emprego na indústria sobe em ritmo menor. Lula deve liberar transgênicos por MP. Elite instruída leva 98% dos empregos. Cresce oferta de emprego para mais velho. Criação de empregos com carteira bate recorde. Empresas menos dependentes do mercado interno ganharam espaço em 2003, diz estudo FGV; Petrobrás mantém liderança. Exportação faz Vale ser 3a. maior empresa do país.
Consumidor paga maior taxa de juros desde abril. Lula aumenta aperto para pagar juros. Renda cai e desemprego estaciona. BC eleva meta de inflação para o ano que vem. Aperto para pagar juros atinge 5,8% do PIB. IBGE mostra quais serviços subiram acima da inflação, chegando a aumentar o triplo do IPCA (índice oficial). A pressão sobre os preços livres foi uma das razões apontadas pelo Banco Central para elevar os juros. Valores cobrados em cabelereiros, lavanderias, boates e teatro subiram até 16% no ano, aponta estudo inédito do IBGE. Saldo da balança comercial já supera o de 2003. Barril de petróleo passa dos US$ 49 pela primeira vez. Empresa prefere hora extra a abrir vaga. Planalto dá aval e preço de gasolina deve subir. Renda de trabalho caiu em 2003 e foi a pior em dez anos.
Investimento cai e poupança cresce no país. Dólar cai para R$ 2,838; mercado já fala em captação e intervenção. Comércio exterior: importações em setembro são as maiores desde 97. Carga fiscal federal cresce no 1o. semestre. Tributos: volume de impostos vai a 18,8% do PIB no 1o semestre. Vendas na internet disparam e preços caem. Após expansão no mercado interno, empresas investem para ganhar participação na União Européia e nos EUA. Genérico cresce no Brasil e mira na Europa. Carga fiscal cresce R$ 28 bi no 10 semestre. Contribuinte pagou recorde de tributos no 1o semestre. Recuo nos índices de inflação. Saddam não tinha armas proibidas. Indústria repassa ganho salarial a preços.
JPGA cai pela metade e é o menor em 11 meses. Auditores apontam erros em conta telefônica. Até 12% do valor cobrado seria indevido segundo análise. Desemprego atinge um quarto dos formados. Indústria cresce pelo 6o mês seguido. Desemprego é menor fora das metrópoles. Gasolina sobe; Palocci indica nova alta. Juros para o consumidor têm alta em setembro. Petrobrás diz que fará reajustes com “cautela”.
Empresas elegem o Brasil como centro de fabricação de produtos vendidos para o mundo todo; itens vão de turbinas a sabonetes. Múltis usam país como base exportadora. Países listam perigos para turistas que vêm ao Brasil. Farmácia de manipulação cresceu 73%. Analistas apostam em altas de juros até 2005. Empresas relutam em captar recursos no país.
Crédito segue em alta apesar de juro maior. Escassez de renda freia comércio, avalia IBGE. Crédito caro freia retomada do consumo. BC eleva juros acima do esperado (a 16,75%). Governo muda índice para reajustar energia. Emprego e renda são os maiores deste ano. Taxa de desemprego em setembro é a menor em 2004 e rendimento cresce; para IBGE, ainda não é o “nirvana”. Devedores da União vão pagar reforma do palácio. Títulos do governo rendem mais que fundos. Petróleo ameaça comércio em 2005, diz OMC. Risco-país sobe 4% e atinge 510 pontos. Avicultura: gripe do frango aumenta exportação à Ásia. Exportação: Brasil poderá ampliar venda de carne à China. Juro bancário aumenta pela 1a vez desde março. Nova safra deve ser recorde; lucro tende a cair. Sobram dólares no mercado, mas reservas seguem baixas.
Exportações da China ao Brasil crescem 79%. Lojas repõem empregos com temporários e renda menor. Importações batem recorde com retomada. Patrimônio de fundos chega a US$ 207 bi no 3o trimestre. Bancos já projetam juros a 17,5%. Desmatamento cresce e ar melhora, diz IBGE. Consumo dos mais ricos subiu 4% neste ano. Gasolina influencia expectativa de inflação. Exportações superam US$ 80 bilhões. PF prende suspeitos de máfia de combustível. Petróleo recua com otimismo no México. Governo solta verba para conter pressão de parlamentares. Emprego na indústria bate recorde, diz CNI. Brasil já exporta carne bovina para 140 países. Indústria desacelera após seis meses de alta. Em troca de negócios, China é reconhecida como economia de mercado, o que pode prejudicar setores industriais locais.
Estatais lideram em incentivo fiscal às artes: o Brasil deixou de arrecadar 1,503 bilhão em tributos de 1996 até hoje por conta de incentivos para a área cultural, demonstram dados oficiais do Ministério da Cultura. Filme de Xuxa está entre os líderes em recursos. Estudo mostra que, na falta de intermediação financeira, famílias pobres criam laços sociais que substituem o banco. Com retração de investimentos oficiais, empresas privadas assumem administração de rodovias, terminais portuários e ferrovias: setor privado lucra ao suprir infra-estrutura. Brasil perde a onda mundial para avançar.
Taxa sindical consome por ano até um mês de salário. Produção cresce em ritmo menor nas regiões. Dólar tem menor valor em mais de 2 anos. BC eleva os juros pelo 3o mês seguido. Emprego industrial cresce pelo 5o. mês consecutivo, segundo IBGE. BC anuncia medida para favorecer os bancos. País corteja emergentes, mas ganho é incerto. País sobrevive sem o FMI, diz diretor do BC. Exportação lidera em lucros no governo Lula. Exportações caem no mês, mas saldo no ano sobre 36%. Emprego com carteira cresce em outubro pelo 10o mês. Juros e “spreads” bancários registram alta. Governo pode atrelar ao PIB reajuste do mínimo. Combustível sobe pela 2a vez em 42 dias. Copom admite alta maiores dos juros para manter meta. Aperto do governo já supera o exigido pelo FMI para o ano.