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Fleisch: Concordo totalmente com sua observação. Mas é difícil responder. Agora mesmo não estou assistindo a muitos filmes. Estou em dieta. Vi de fato muitos filmes talvez há um ano e meio. A maioria japoneses; e acho que em alguns deles havia bastante respiração frenética. Não assisti a muitos filmes americanos ou europeus feitos recentemente. Há alguns filmes experimentais, a maioria americanos e recentes, sobre os quais ocasionalmente leio e que parecem muito interessantes, mas raramente consigo vê-los, o que é uma pena. Alguns de meus ex-colegas, alunos das aulas de Kubelka, estão fazendo filmes interessantes, mas dificilmente consigo ver seus novos trabalhos. Acho que a maioria dos filmes atuais produzidos comercialmente são de aparência muito perfeita. Faltam-lhes marcas e talvez alguma cicatriz ocasional que os torne distinguíveis uns dos outros. Também gostaria de ver mais erros. Equívocos e erros são muito interessantes. Uma vez assistia à exibição de um filme de Schwarzenegger, talvez "Eraser", quando o filme ficou preso no projetor e derreteu -foi brilhante.
Fleisch: O texto que está no começo do filme foi vertido para o código digital ascii (American Standard Code for Information Interchange, o formato mais comum para arquivos de texto em computadores e na internet). No código ascii, toda letra é representada originalmente por uma informação binária de 7 bits, feita de números 1 e 0 atribuída a ela. Para o filme, transferi à taxa de 8 bits. Um exemplo: a letra maiúscula "H" é escrita como 01001000 em ascii. Traduzi todas palavras daquele texto para ascii e então traduzi os números 1 e 0 que consegui num código ascii de flicagem em que cada 0 corresponderia a um fotograma preto e cada 1 a um fotograma branco. Com esta tradução para filme, é possível a um ser humano experimentar sensualmente o código que é originalmente planejado para uma máquina, no caso, o computador.
Fleisch: Vi apenas "Arnulf Rainer" até aqui, de modo que não posso realmente falar dos outros dois. O que tentei com "Superbitmapping" foi ter um tema explorado de três maneiras diferentes. Algo um pouco parecido com a abordagem de "Hautnah", onde quis mostrar diversas representações de minha pele interagindo com a película. Desta vez, o tema era informação. Acho a informação mesma muito fascinante. Ela é basicamente invisível. Você pode passar informação para um outro ser sob uma variedade de formas, ignorando distâncias, e pode também passar informação no tempo. Primeiro recebemos a informação sobre o que é este filme; então essa informação é transformada numa série de números 1 e 0 que é inteligível somente para um computador, mas que transmite a mesma informação se você souber lê-la. Com a terceira parte, quis tornar a linguagem do computador fisicamente perceptível. Escolhi a flicagem do filme como informação. Estimulando os olhos de modo forte, o filme de flicagem é bastante físico em termos de percepção. Acho que só um terço de "Superbitmapping" é realmente filme de flicagem. Não é de fato sobre o filme em si ou o próprio cinema, como é o caso de "Arnulf Rainer". Kubelka fez um belo filme sobre a essência do cinema reduzindo-o aos seus ingredientes mais básicos: luz, escuridão, som e silêncio. Eu fiz um filme sobre a transformação da informação, e a percepção da informação.
Fleisch: Obrigado. Foi ótimo você mencionar o mito de Prometeu porque um projeto que tenho em mente e espero terminar neste ano trata dos mitos de Prometeu, Golem e Frankenstein mais claramente. É curioso que "animação", palavra que em larga medida pode nomear alguns de meus filmes (porque são filmados quadro a quadro), literalmente significa "dar vida a algo sem vida”. Acho que o cinema tem um grande potencial espiritual. É um descendente da pintura. E a pintura evoluiu a partir do desejo de criar algo que evoque sentimentos pelo divino. Como os ícones russos, por exemplo. Também interessante neste contexto é a proibição de imagens por razões religiosas, o medo de secularização do sagrado por ter que representá-lo. Gosto da idéia de alquimia. Pessoalmente, para mim, fazer cinema é uma espécie de prática alquímica.
Fleisch: Comprei uma coleção de cultivo de cristais. Quando vi na loja, primeiro pensei em filmar o processo de cristalização, que acho muito interessante. Mas depois quis experimentar se poderia fazer os cristais crescerem numa película virgem e também sobre bandas de filme já revelado. Então refilmaria tudo na mesa de trucagem. A idéia era filmar o processo de formação do cristal na película e incorporar todas as diferentes seqüências no filme final. Seria um passo além do que fiz com "Friendly fire", no qual tinha abordagens diversas do tema do fogo incorporados no filme final mas não o processo real de queimar o filme.
Fleisch: Tenho altas esperanças pela HDTV. Acho que será um formato brilhantes para fundir cinema e computadores. A resolução é boa o suficiente para se fazer uma cópia em 35mm e você pode editar tudo em seu computador pessoal, com todos efeitos especiais de pós-produção gerados por computador. E HDTV é no formato de tela 16:9; realmente não gosto do 16mm por ser 4:3 (o super 16 mm seria melhor, mas ninguém projeta, e ampliar para 35 mm é muito caro para mim). Estou tentando me familiarizar com a modelagem em 3D, “compositing” e todas essas coisas de “after effects”. Mas, com todos esses novos dispositivos digitais, é difícil manter-se concentrado no que é realmente necessário, em meio ao que é apenas afetação caprichosa e enganosa sem qualquer relevância. Então tenho que ser cauteloso.
Fleisch: Construí a mesa de trucagem mas o tanque de revelação acabei comprando. Não construí porque não era tão caro assim comprar. A razão maior para construir a truca foi econômica. Precisava para fazer "Friendly fire" e comprar estava fora de questão. A truca é básica, permite variações lúdicas e liberdade de experimentar limites, sem regras fixas. Geralmente gosto da atitude "faça você mesmo". Quando criança, com freqüência ajudava meu pai a fazer coisas para nossa casa. Ele tinha um "porão de trabalho" bem equipado, e era assinante de "Selbst ist der Mann", revista com idéias e instruções sobre como fazer coisas você mesmo de modo a tornar sua casa mais bonita. Refiro-me a tudo isto em "Hightech heimwerker".
Fleisch: Sim, foi composto inteiramente em meu computador. Usei um programa freeware, um software gratuito (não confundir com shareware, que é só gratuito por um período de tempo), chamado "quat", de Dirk Meyer. Com o "quat", podemos criar imagens fixas baseadas em várias fórmulas matemáticas. Todas fórmulas pertencem a um grupo de fractais chamados "quaternions" (fractais de quatro dimensões que são visíveis pela projeção no espaço tridimensional). Concentrei-me numa única fórmula ( x[n Como era um trabalho muito tedioso, escrevi um prolongamento (um pequeno “plug-in”) para o programa poder produzir uma série de imagens em que eu pudesse escolher quais parâmetros eram mudados e por qual valor quisesse.
Fleisch: Os fractais foram muito inspiradores para "Gestalt". Enquanto ainda estava no colégio, meu irmão me apresentou ao mundo mágico dos fractais 2D (em duas dimensões), os assim chamados conjuntos de Mandelbrot e Julia. Fizemos um filminho super-8 que se aproximava (com a lente zoom) do interior do fractal. Filmamos quadro a quadro a partir da tela do computador, mas ficou tão escuro no filme final... de fato foi uma pena. Antes de "Gestalt", um amigo mostrou-me alguns fractais 4D. Ao vê-los, foi uma revelação, pois pensava em como expandir fractais até a terceira dimensão. Então vi estes belos fractais, que eram mesmo de um misterioso mundo em quatro dimensões. Estudei um pouco de geometria 4D e fractais em geral e descobri o nome das coisas em 4D que me foram mostradas: "quaternions". Fiz uma pesquisa no website Google e achei aquele programa freeware de que falei. Antes de começar a fazer "Gestalt", passei muito tempo explorando os fractais de Mandelbrot, a geometria da quarta dimensão, que, pouco depois de sua descrição por Gorge Bernhard Riemann, foi apropriada por ocultistas e espiritualistas para suas teorias. Nessa época, li também sobre a teoria das supercordas, a busca de uma fórmula que abrangesse tudo sobre os funcionamentos do universo. A teoria das supercordas faz de pequenas cordas vibrantes a base para toda a matéria e todas as forças. Ela opera num espaço de 10 a 26 dimensões, dependendo da teoria, pois há várias e diferentes por aí.
Fleisch: Posso responder a partir do caso das supercordas. Com aquele pensamento sobre a fórmula que explica nosso universo, atraiu-me a idéia de ter uma equação e ter de extrair o universo que há ali dentro. Como pode ser visto no filme, é um mundo interessante e bizarro de formas e transformações alienígenas. Outro pensamento foi o lado espiritual de lidar com arte e tecnologia. Se assumirmos que é possível descrever o universo com uma fórmula matemática, fica claro que é excitante trabalhar com as mesmas ferramentas para fazer um filme. Mesmo se for uma fórmula completamente diferente, ela ainda usa a mesma linguagem matemática. A ciência torna-se algo que pode ser experimentado com os sentidos, despida da distância e frieza comumente a ela associadas. Durante o trabalho (já que a mudança de variáveis da fórmula influenciava sua formação), lembrei dos primeiros dias da pintura, quando motivos religiosos prevaleciam e a pintura era uma expressão direta da espiritualidade. E, porque a matemática também possui um potencial espiritual, a ocupação direta com ela exerceu forte fascinação sobre mim. Confesso que senti um certo arrepio em trabalhar com os blocos construtores usados para descrever nosso universo. Voltando no tempo, há o exemplo dos eruditos pitagóricos que acreditavam na divindade da ciência (ou de uma ordem divina) e, em particular, da matemática. Para eles, apenas a matemática possuía os poderes para descrever as operações do universo. E somente com a mente trabalhando de modo científico era possível alcançar o verdadeiro esclarecimento, o conhecimento.
Carlos Adriano |