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Ferrer: A forma moderna de pensar por antecipação os conflitos supõe impôr-lhes um ideal de "diálogo", ao qual as partes divergentes deveriam aspirar. Quer dizer, antes do conflito em si mesmo a lei se ocupa de repartir as posições em disputa, a fim de deixar claro "lados" e possibilidades de "conciliação". É o ideal da comunicação moderna, a humanização do "conflito social", que no momento vem a ser insignificante.

Do mesmo modo, se espera que as sociedades liberais contemplem e contenham todas as diferenças e aspirações de minorias (pobres, ricos, baleias, baleeiros, kosovares, sérvios, mulheres, homens, gays, lésbicas, travestis, sem-terra, com-terra, comunistas, liberais, imigrantes e nativos, e assim sucessivamente). Mas talvez a tolerância e o reconhecimento dos direitos do outro para que este viva sua vida pressuponham um tabuleiro social no qual as casas seriam fixas e as identidades definidas.

No entanto, nunca estivemos mais alijados do "outro" que quando reconhecemos nossa distância identitária em relação a ele. Talvez devêssemos começar por questionar que atributos do outro habitam em nós, quais desses atributos são necessários para nossa vida, e quais não. Desapareceria assim a compulsão pela identificação de pessoas por categorias, atitude que sempre foi praticada pela polícia.


A pornografia seria justamente uma demanda de neutralização da vida? O gênero contemporâneo por excelência?

Ferrer: O crescimento da indústria pornográfica, com a velocidade de uma tempestade de neve, pode ser interpretado como um efeito invertido das demandas libertárias dos anos 60, quer dizer, da época da "revolução sexual", na qual as demandas do "direito natural ao prazer" emergiram da discussão pública e foram postas em experimentação.

Dali em diante, os fluxos de capitais se encontraram com os fluidos libidinais, e tanto a indústria da cirurgia estética quanto a pornográfica produziram seus frutos nesse cruzamento. Mas não se trata de "neutralização" da vida, mas sim de sua intensificação no mundo ordenado pelo capitalismo e pelo patriarcado.

Não é simples recusar estas indústrias em nome da moral, pois a pornografia não é somente um gênero sintomático da atualidade, mas também o prisma em que o prazer (ainda que tendo em conta sua orientação masculina) se refrata. Não fomos educados para o prazer, e muitas vezes este mesmo se reflete unicamente em galerias de espelhos deformantes.


A era do “management”, cujo ideário prega que o indivíduo deve ser, agora, auto-gestor, empresário-de-si-mesmo, e que deve dar conta, por si só, de todos os problemas de modo jovial, dócil, alegre e, sobretudo, "criativo", também compartilharia uma prerrogativa pornográfica?

Ferrer: Uma vez que nem a religião nem a política podem conceder orientações nítidas para a vida, então a responsabilidade por gerir uma "existência satisfeita" é responsabilidade de cada pessoa, individualmente. E tanto a psicanálise quanto os medicamentos antidepressivos, o implante de silicone ou a pornografia se tornam uma logística possível e necessária no mercado da subjetividade.


Como se desenrolaram as tecnologias no século XX e quais são as relações entre os avanços da técnica e o desenvolvimento de uma reflexão ética?

Ferrer: Recorrendo a uma velha idéia trotskista, caberia dizer que o mundo experimenta um desenvolvimento desigual e combinado das relações entre ética e técnica. No século XIX, a política, a religião e a estética eram um referencial e concediam orientação à tecnologia, pois suas inovações e seus desenvolvimentos eram mais velozes que os produzidos pela ciência e pela técnica. No século XX, esta equação se inverteu, e hoje tecnociência se auto-legitima.


Em “La curva pornografica – el sufrimeinto sin sentido y las tecnologias”, você nos convoca a uma “mirada moral”. E eu devolvo a você a pergunta que está na última frase de seu ensaio: "A que chamamos dignidade do corpo"?

Ferrer: O corpo só pretende não sofrer e ser aceito: uma condição a qual também aspira o resto do reino animal.


Ilana Feldman
É formada em cinema pela Universidade Federal Fluminense, onde faz mestrado. Dirigiu o documentário em média-metragem "Se tu Fores", que ganhou o Prêmio Itaú Cultural para Novos Realizadores.



 
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