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É por todas essas razões que o problema e sua solução são antes de tudo políticos: localizam-se na definição de novos direitos, de novas liberdades, de novas seguridades coletivas, de novos arranjos do espaço urbano, de novas normas sociais pelas quais o tempo escolhido e as atividades escolhidas não se inscreverão mais à margem da sociedade, mas no bojo de uma escolha de sociedade: de uma “sociedade do tempo escolhido” e da “multiatividade”. De uma sociedade que desloca a produção do elo social para as relações de cooperação reguladas pela reciprocidade e mutualidade e não mais pelo mercado e pelo dinheiro. De uma sociedade na qual cada um pode medir-se ao outros, ganhar sua estima, demonstrar seu valor, não mais apenas por seu trabalho profissionalizado e pelo dinheiro ganho com ele, mas por uma multiplicidade de atividades desenvolvidas no espaço público e publicamente reconhecidas e valorizadas por outros meios que não os monetários.

Tal escolha de sociedade (que tentarei explicitar mais adiante) é muito mais conforme aos rumos presentes das mutações técnica e cultural que as vãs tentativas de corrigir a sociedade salarial pela extensão do assalariamento às atividades ainda não reguladas pelo dinheiro. Corresponde a uma situação em que o capitalismo vota à inutilidade social a massa crescente das pessoas para as quais não há mais emprego e em que a sociedade revela-se incapaz de produzir indivíduos que sirvam a ela e de servir-se dos indivíduos que ela produz. Não há sociedade o bastante para que os indivíduos possam definir-se pela maneira pela qual servem a ela. No lugar de servir, trata-se agora de produzi-la.

A revolução é completa: o indivíduo foi subitamente despojado de todas as máscaras, de todos os papéis, de todos os lugares, identidades, funções, que não podia manter sozinho e pelos quais a sociedade, conferindo-os, dispensava-o também, e impedia-o, de aparecer a si mesmo como sujeito. Está entregue a si mesmo, nu, sem proteção contra si, sem obrigação e sem abrigo, abandonado por uma sociedade que não baliza mais seu futuro. Ei-lo confrontado à tarefa de ter de construir a si mesmo e a uma outra sociedade no lugar daquela que o abandona: confrontado à tarefa que todas as sociedades -inclusive aquelas que já agonizam- mais temem, pois trata-se da tarefa que requer antes de tudo gente insubmissa, revolucionária, resistente, rebelde: a tarefa de livrar-se dos papéis sociais e “tornar-se sujeito, opondo-se à lógica de dominação social em nome da lógica da liberdade, da livre produção de si”. “A busca de identidade, hoje tão inquietante, não manifesta a vontade de ser sujeito: ela é, ao contrário, a autodestruição do indivíduo incapaz... de tornar-se um sujeito.”

Para tal incapacidade, não há remédio social. Ao contrário: ela própria é social, socialmente produzida e indefinidamente reproduzida por este “discurso social dominante” que continua a propor aos indivíduos uma imagem de si mesmos e uma concepção de seu papel às quais não podem corresponder. “O sujeito é sempre a antítese da socialização”, escreve Touraine. Tudo se passa como se a repetição incessante da noção de “utilidade social” e da idéia de “integração social” fosse tão mais angustiante quanto mais se desloca e desaparece aquilo que torna uma sociedade capaz de integrar e de definir em que cada um pode lhe ser útil. A noção de “utilidade social” é na realidade tão caduca quanto esta noção de sociedade e tão ultrapassada quanto “a funcionalidade como critério do bem”. A sociedade não existe mais, se entendemos por “sociedade” um todo coerente conferindo a seus membros seus modos de pertencimento, seus espaços e suas funções. Os indivíduos não são mais para a sociedade os meios por ela determinados de seu funcionamento; ao contrário, segundo Christian Lalive d’Épinay, a sociedade é que é chamada a tornar-se um meio de aperfeiçoamento do indivíduo, ou, mais exatamente, o espaço onde cada um contribui a criar para todos, e todos para cada um, as condições do livre desenvolvimento de sua individualidade. O pleno florescimento de cada um torna-se a finalidade que a sociedade deve tornar possível, e ele próprio torna possível uma sociedade em que a preocupação com o florescimento pleno da pessoa seja socialmente reconhecido e legitimado. A gama das atividades socialmente valorizadas irá, então, muito além do “trabalho útil”. A produção de sociedade não acontecerá mais apenas na esfera econômica, nem a produção de si caberá apenas no trabalho-emprego.

Tal é o sentido da mutação cultural, do qual o movimento das mulheres, o movimento ecológico, a preocupação com a qualidade de vida e do meio de vida são manifestações temáticas. Comungam a rejeição da ética do trabalho, da abnegação, do sacrifício, da poupança, do “deixar a vida para mais tarde” e do devotamento coercitivo. Contestam a razão instrumental -isto é, a utilização das coisas e das pessoas como meios em vista de fins dos quais elas mesmas são os meios de outros fins e assim por diante- em nome de uma ética do cuidado de si, dos outros, dos demais seres vivos, de tudo que demanda proteção e cuidado. É assim que Anthony Giddens, em um longo artigo a respeito do futuro da esquerda, propõe definir o socialismo pela primazia dada às atividades não instrumentais, consistindo em “inquietar-se”, em “cuidar” (to care). “Cuidar (caring) implica uma ética da responsabilidade de si, dos outros e da textura do mundo material. E, embora cuidar seja o contrário do egoísmo, não deve ser confundido com o altruísmo. Pois o cuidado de si -a atitude responsável para consigo e com seu corpo- é a origem da capacidade de cuidar dos outros”.

As mudanças que provocam as transformações introduzidas pelo capitalismo em sua fase última dizem respeito aos fundamentos do que foram até aqui as sociedades modernas. Obrigam a redefinir aquilo que pode consistir o “elo social”; a redefinir a relação entre o individual e o social; a repensar de modo crítico a natureza e o processo da “socialização”; a situar de novo os espaços e as modalidades da “produção de sociedade”. Problematizam tudo que era familiar, habitual, normal, tudo que “parecia evidente”. Não admitem soluções ou respostas institucionais que, outorgadas e realizadas do alto, dispensem os indivíduos-administrados de questionarem a si mesmos.


O livro

“Misérias do Presente, Riqueza do Possível”, de André Gorz. Tradução de Ana Montoia. Ed. Annablume (tel. 11-3031-9727).


1 - Este aspecto já era sublinhado em “Échanges et Projets”, "La révolution du temps choisi", Paris, Fayard, 1980.


2 - Alain Touraine, "Critique de la modernité", Paris, Fayard, 1994, p. 271.


3 - Ibid., p. 325.


4 - Ibid., p. 407.


5 - Ibid., p. 406.


6 - C. Lalive d’Épinay, “Thèses prospectives sur le XXIè siècle”, anexo da lei que, em janeiro de 1995, institui um “mínimo social que permite cobrir as necessidades” de todo morador do Cantão de Genebra.


7 - Anthony Giddens, “What’s Left for Labour”, "New Statesman and Society", 30 de setembro de 1994.

 
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