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As pesquisas de opinião não possuem, por conseguinte, nenhum valor prévio, descolado de um primeiro trabalho de interpretação e de tematização que extraia as questões (os temas) a serem submetidos ao público. Eis o velho problema do círculo hermenêutico; nós não compreendemos aquilo que sabemos e não sabemos o que somos capazes de compreender. Se percebemos e interpretamos o novo segundo esquemas interpretativos (“Deutungsmuster”) e estereótipos culturais do antigo, continuamos cegos àquilo que faz sua novidade. Se interpretamos a aspiração à autonomia segundo as normas de conformidade social, só veremos desvio, recusa e egoísmo. Só um sujeito compreendendo-se como tal pode reconhecer, compreender e traduzir o trabalho de emancipação de outros sujeitos, os esforços feitos para se produzirem a si mesmos.

Em um período que os valores familiares perdem validade e que os “papéis” sociais e profissionais, em razão de sua precariedade, labilidade e falta de consistência, não podem mais conferir “identidades” estáveis aos indivíduos, só uma hermenêutica do sujeito pode permitir à sociologia decifrar a busca sem fim pela qual esses indivíduos são destinados a definir-se a si próprios e a dar sentido e coerência a sua existência. Então, os protagonistas (no sentido etimológico do termo) serão aquelas e aqueles que, no lugar de pedirem à sociedade, em vão, o “papel social” ao qual possam colar sua nostalgia identitária, assumem eles próprios a produção de socialidade, inventam eles próprios suas solidariedades cotidianas, socializam-se na busca contínua daquilo que têm ou podem pôr em comum, daquilo sobre o quê podem pôr-se de acordo. Aquelas e aqueles que, no lugar de serem alvo da situação sempre provisória que lhes é oferecida, buscam construir eles próprios o meio de sua auto-afirmação e de uma vida mais rica, livre e solidária. São os “heróis obscuros da precariedade”, os “pioneiros do tempo escolhido”, que, “em sua resistência cotidiana à razão econômica, fazem surgir questões e respostas, intenções e projetos, e desenvolvem de fato uma política da vida cotidiana que se funda sobre a liberdade de agir e a possibilidade de criar uma organização para si e os outros que favoreça a autonomia”.

As entrevistas abertas, os estudos de caso (“case histories”), mais que as sondagens, revelarão melhor, em um primeiro momento, as mutações culturais em curso. Fornecerão a temática e a chave de interpretação. Este é o trabalho de decifração realizado nos Estados Unidos por Yankelovich que permitiu e inspirou a pesquisa internacional lançada mais tarde por Rainer Zoll. Foi o escritor canadense Douglas Coupland que, em uma obra transformada em best-seller internacional, a meio caminho da pesquisa-reportagem, do romance e do documento, revelou e batizou de Geração X esta geração de jovens que se “recusa a morrer aos 30 anos, esperando ser enterrada aos 70”. Como os jovens estudados na Alemanha por Zoll, aqueles também recusam a fixação em um emprego qualquer que estejam aptos a ocupar, pois nenhum desses trabalhos possui “consistência suficiente”, nenhum merece que a ele se dediquem. Preferem continuar disponíveis, passando de um “McJob” temporário a outro, sempre conservando o máximo possível de tempo para cultivar as atividades favoritas de sua tribo.

Alguns anos depois, uma pesquisa internacional a respeito da atitude dos jovens diplomados do ensino superior na América do Norte, na Grã-Bretanha e nos Países Baixos completava as descrições de Coupland. Segundo esta pesquisa,

a perspectiva de uma carreira em um emprego de tempo integral desagrada a muitos deles. Prevêem, e ao mesmo tempo preferem, a precariedade do emprego... Buscam um trabalho variado, portador de um projeto que libere sua competência e profissionalismo. Recusando o compromisso de tempo integral e durante um tempo muito extenso em uma firma, a Geração X não se define mais através de sua relação com o emprego. Seus membros possuem um projeto pessoal mais importante que as finalidades da organização para a qual trabalham; e estão mais motivados pelas preocupações de valor ético ou de utilidade social que pela ética do trabalho. Aferram-se a sua autonomia, referem-se a “uma maior liberdade na organização de seu tempo” como uma das três prioridades mais importantes -depois do dinheiro e da possibilidade de desenvolver suas faculdades intelectuais- e desejam um melhor equilíbrio entre o trabalho e outros centros de interesse -entre os quais os hobbies, as atividades de lazer e o tempo consagrado à família.

(Estão) cada vez mais prontos a questionar as finalidades e a utilidade do trabalho -bem como as finalidades e a utilidade de uma sociedade fundada sobre o trabalho, e isto em nome de suas capacidades, interesses, valores e desejos de indivíduos que levam uma vida fora do trabalho e, muitas vezes, em oposição a ele.

Duas pesquisas realizadas na França junto a jovens diplomados das Grandes Escolas confirmam traço por traço as conclusões da pesquisa internacional analisada por Cannon. A primeira, realizada no fim de 1990 por iniciativa do jornal “Le Monde”, mostra que,

por mais brilhantes que sejam, os jovens diplomados, selecionados a priori para esposar a causa da eficiência e da motivação... recusam seu pleno e completo engajamento. Entregam sua mecânica, mas guardam sua alma, com esta reserva, capaz de iludir, que possuem os superdotados... Tentados pela carreira rápida, desejosos de “abandonar tudo” por prazeres mais autênticos, sempre querendo chegar o mais cedo possível à aposentadoria, ou mesmo viverem de “renda”, seu objetivo é “não serem tragados pela máquina”.

Desejam retirar-se do jogo e concebem seu diploma como uma ferramenta a serviço das aspirações de sua vida pessoal e não como algo que sirva a manter um papel na economia... Quando se pede que definam o sucesso profissional, logo pensam na hipótese de trabalhar quando querem, de tal modo que possam consagrar mais tempo a suas atividades pessoais.

Três anos mais tarde, uma pesquisa promovida por “La Rouge et Verte” (periódico da Associação dos antigos alunos da Escola Politécnica) junto a seus alunos e jovens diplomados, confirma a desafeição à carreira e o favor que gozam entre eles a multiatividade e o trabalho em tempo parcial: “a relação ao trabalho distende-se porque a vida está em outro lugar”, especialmente nas “atividades não remuneradas consideradas socialmente úteis”. “A empresa não parece mais ser, salvo exceções, uma grande família. Os jovens já não temem mudar de empregador”, pois “as próprias empresas multiplicam os contratos de duração determinada ou os estágios, no lugar de proceder a verdadeiras contratações”. Daí provém uma percepção instrumental do “job” como meio de ganhar a vida: “a empresa é assimilada a um simples prestador que fornece o serviço do salário... (Ela) esconde sua verdadeira natureza, que consiste em ser um centro de lucro para o qual os homens são meros recursos humanos...”.

Assim, ao contrário do que diz a opinião dominante, a intelectualização do trabalho e dos ofícios não provoca por si mesma uma crescente implicação e identificação de toda a pessoa com seu emprego. Muito ao contrário: “O emprego torna-se abstrato ou anônimo, dele não se vê mais o produto e os assalariados dele não mais se orgulham”, lê-se na pesquisa realizada junto aos jovens politécnicos. A identificação com o ofício torna-se incompatível com a identificação com a empresa. A implicação total em um trabalho torna-se incompatível com a forma emprego de tempo integral desse mesmo trabalho. Entre a vida e o trabalho emprego, entre a pessoa e sua função produtiva, aumenta a cada dia o divórcio.

A pretensão que tem a empresa de mobilizar a seu proveito a pessoa inteira do funcionário produz o resultado inverso: ela é percebida como uma opressão totalitária à qual a pessoa tende a responder pelo desengajamento, pela não-implicação subjetiva: o desejo de equilibrar o trabalho emprego com atividades autodeterminadas, o desejo de ser dono de seu tempo, de sua vida, a escolha e da realização de seus próprios fins. A possibilidade de trabalhar de modo descontínuo, de combinar o trabalho emprego com atividades diversificadas é buscada pelas novas “elites do saber” do mesmo modo que o faziam os operários de ofício do século XIX; mas não apenas por elas.

Cresce, em todos os países e no conjunto da população ativa, a desafeição do “trabalho”, de modo tão obsessivo que termina transformando-se na preocupação de encontrar um ganha-pão ou no temor de perder o emprego que se ocupa. Na Alemanha, apenas 10% da população ativa considera seu trabalho como aquilo que há de mais importante em sua vida. Nos Estados Unidos, esta proporção é de 18%, contra os 38% de 1955. Entre os europeus do Oeste, dos 16 aos 34 anos, o “trabalho” ou “a profissão” vêem muito depois de outras cinco prioridades na lista das “coisas que são realmente importantes para você pessoalmente”: as cinco prioridades são: 1. ter amigos (95%); 2. ter tempo suficiente disponível (80%); 3. estar em boa forma física (77%); 4 e 5: passar o tempo em família e ter uma vida social ativa (74%). Apenas 9% das pessoas interrogadas (7% dos jovens de 13 a 25 anos) citam o trabalho como “principal fator para vencer na vida”. A cisão entre “o trabalho” e a “vida” parece mais profunda que nunca: 57% dos britânicos, por exemplo, “recusam-se a deixar o trabalho interferir em sua vida”, contra 37% apenas dos 45 a 54 anos. E Juliet Shor encontra na amostra selecionada entre empregados de tempo integral da classe média superior americana 73% de pessoas que estimam que viveriam melhor se trabalhassem menos, gastassem menos e tivessem mais tempo para si mesmas. Uma sondagem na escala de todo o país demonstrava que 28% das pessoas interrogadas tinham efetivamente escolhido reduzir sua atividade profissional e seu nível de consumo para levar uma “vida mais sensata”.


3. Inversão dos valores, recuo do político

Enfim, uma mutação cultural aconteceu. O problema não está, portanto, ali onde se costuma crer que esteja. Não está na dificuldade de fazer aceitar um estilo de vida no qual o trabalho emprego seria algo muito menos importante na vida de todos. Não está na identificação de cada um a seu emprego. Não está no “desejo imperioso” que têm todos de ocuparem em permanência um emprego de tempo integral. Não está no atraso das mentalidades incapazes de pensar uma vida mais distendida e multiativa. Está, ao contrário, no recuo do político em relação ao avanço das mentalidades. Está no fato de que a plenitude dos direitos econômicos (o direito ao rendimento integral), sociais (o direito à proteção social) e políticos (os direitos de ação, de representação e de organização coletivas) continua ligada apenas aos empregos, cada vez mais raros, ocupados de modo regular e em tempo integral. O problema está no risco de perder, junto com o emprego estável, qualquer rendimento, qualquer possibilidade de atividade, qualquer contato com o outro... Está no risco de considerar, por conseguinte, que o emprego vale em si mesmo: não por conta das satisfações que traz o trabalho, mas pelos direitos e poderes ligados apenas à forma emprego do trabalho.

Ora, assim que se torna fonte de direitos e, portanto, de cidadania, o emprego transforma-se ele próprio em um direito que, em virtude do princípio da igualdade dos direitos, deve ser acessível a todos os cidadãos. A utilidade (ou inutilidade) social do próprio trabalho é transcendida pela normatividade jurídica de sua forma emprego. O “direito ao trabalho” (sinônimo de direito ao emprego) é reivindicado antes de tudo como um direito político de aceder à cidadania social e econômica. Enquanto assim for, as atividades que se afastam da norma do trabalho regular e de tempo integral serão percebidas como inferiores, tendendo a privar o cidadão da plenitude de seus direitos, a negar-lhe os direitos e as vantagens que usufruem as pessoas “normalmente” empregadas. Por mais que a maioria das pessoas tomadas individualmente deseje por si mesmo o trabalho descontínuo, de tempo parcial, de tempo escolhido, ainda assim, ele é temido e recusado por muitos porque “vale menos” e porque soa como uma deficiência profissional.

1 - Cf. Rainer Zoll, "Nouvel individualisme et solidarité quotidienne", Paris, Kimé, 1992 ("Alltagssolidarität und Individualismus, Zum soziokulturellen Wandel", Frankfurt-am-Main, Surkamp, 1993).


2 - Voltarei a isto mais longamente quando tratar da “intervenção sociológica” de Touraine.


3 - Cf. Paul Grell, Anne Wéry, "Héros obscurs de la précarité", Paris, L’Harmattan, 1993.


4 - Cf. Karl H. Hörnig, Annnette Gerhard, Mathis Michailow, "Zeitpioniere. Flexible Arbeitszeiten, neuer Lebensstil", Frankfurt-am-Main, Suhrkamp, 1990.


5 - P. Grell, A. Wéry, op.cit., p. 164.


6 - Daniel Yankelovich, "New Rules – Searching for Selffulfillment in a World Turned Upside Down", Nova York, Random House, 1981. Uma extensa pesquisa realizada por Yankelovich em 1990 demonstra que 58% dos jovens entre 18 e 29 anos são de opinião que “não vale a pena exercer, salvo muito temporariamente, um 'job' que não seja completamente satisfatório”.


7 - Rainer Zoll, "Nicht so wie unsere Eltern", Opladen, Westdeutscher Verlag, 1989.


8 - David Coupland, "Generation X. Tales for an Accelerated Culture", Nova York, St. Martin’s Press, 1991.


9 - David Cannon, "Generation X and the New Work Ethic", Londres, Demos, 1994, p. 13; Finn Bowring, tese, University of Lancaster, 1996, p. 314s.


10 - Nota do tradutor: As “Grandes Escolas”, na França, correspondem aos centros universitários reputados pela excelência, em especial aquelas faculdades de direito, administração, ciência política, medicina e a escola politécnica.


11 - Alain Lebaube, “Premier travail”, "Le Monde Initiatives", 22 de janeiro de 1992.


12 - Alain Lebaube, “L’élite des ‘Grandes Écoles’ est fatiguée”, "Le Monde Initiatives", 23 de janeiro de 1991.


13 - Lebaube, “La mutation du travail”, "Le Monde Initiatives", 11 de maio de 1994.


14 - Ibid.


15 - J.-L. Patané, informático independente, declara de maneira bastante significativa: “Se um dia montar meu negócio, assim que a grana começar a entrar, largo um gerente lá e caio fora. Não tenho mais nada com a coisa”. Florian Rochat, "La saga du boulot", Lausanne-Paris, Pierre-Marcel Favre, 1986.


16 - "The Gallup Monthly", setembro de 1991.


17 - Yankelovich, “Young Adult Europe” (1994), The Yankelovich Monitor, 1971-1995.


18 - Citado por Roger Sue, "Temps et ordre social", Paris, PUF, 1994.


19 - Segundo uma pesquisa de British Social Attitudes Survey de 1993.


20 - Juliet Schor, “The New American Dream”, Demos 5, 1995.


21 - Vem daí a aparente contradição entre as respostas dadas nas pesquisas: de um lado, uma forte maioria de franceses responde (final de 1996) que seria “uma má coisa” se o “trabalho” ocupasse uma parte menor na vida de cada um. De outro lado, também uma forte maioria diz-se favorável à semana de quatro dias e (61%) à aposentadoria aos 55 anos.

 
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