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Mas as conseqüências desta mutação introduzida pela matemática são imensas, uma vez que ela forneceu acesso a processos que ocorrem em dimensões radicalmente diferentes e em velocidades radicalmente diferentes. E o problema é que esta categoria de interpretação não foi difundida, o que é algo que me preocupa muito: como reintegrar estas categorias para que elas sejam compatíveis?

É evidentemente muito ingênuo supor que o ateliê do artista permite, ou permitia, uma confrontação direta com a matéria. Mas é também muito interessante tomar essa metáfora do trabalho do artista e aplicá-la a uma matéria que tem novas camadas, novas categorias de conhecimento. Este é o tema, o grande desafio.

O problema é não entrar em um nível de erudição onde tudo se obscurece, pois aí então voltamos a uma outra inacessibilidade. A questão da gestualidade é um tema para ser compartilhado com uma cultura inteira: como mudar todo o sistema escolar em um país como o Brasil para integrar esta dimensão?

Então, esse enfrentamento com o resíduo da matéria tecnológica me parece um desafio muito interessante e fecundo, e é um teatro. A autonomia do sujeito frente a esses modelos de interpretação é que é problemática.


Estou há cerca de dez anos interessado na arte que se faz com as chamadas novas tecnologias e neste tempo pude observar que há um movimento muito forte, inclusive aqui no Brasil, por exemplo através da PUC-SP, com vistas à legitimação a qualquer custo deste tipo arte. Mas, ao mesmo tempo, dentro deste universo, é preciso reconhecer a existência de projetos políticos, estéticos e epistemológicos diferenciados e com freqüência antagônicos. Como você se relaciona com a arte feita através das chamadas novas tecnologias?

Delacroix: Aqui há duas noções fundamentais para mim: em primeiro lugar, economia de meios; em segundo, a noção de autonomia. E portanto eu retorno à questão da gestualidade pois há muitos trabalhos feitos com as novas tecnologias que demandam uma supermediação de logística e de espaços que não estão ao alcance de um artista tradicional.

É certo que há a necessidade de desenvolver uma relação com um novo paradigma da percepção que está associado ao desenvolvimento da tecnologia. Mas, ao lado deste espaço de arte e tecnologia que tem a sua legitimidade, seu encanto e sua própria poesia, é preciso que também exista um espaço que permita a economia de meios. E isso se reconquista com uma circulação de conhecimentos, pois isso oferece acesso a uma matéria enorme que está lá, mas que não é percebida.

Esta sucata eletro-digital-computacional não é lixo, pois se trata de formas de conhecimento congeladas. Toda a história da aparição do computador digital está lá para ser retrabalhada por artistas, engenheiros e arquitetos como produção de valor simbólico.


Há certamente uma convergência entre o que você coloca e o que eu discuti no congresso na Unicamp, em respeito à arte genética ou transgênica: é possível, e talvez necessário, politizar sem necessariamente subscrever ao que há de mais sofisticado em termos de tecnologia. Isto certamente é algo que precisa ser debatido e levado em conta nas análises que são feitas dos trabalhos de arte e tecnologia.

Delacroix: Para dar um exemplo simples: muitos dos trabalhos especulativos sobre a virtualidade fazem uso da Internet. Ora, mas aqui está implicado um acesso bem pesado à tecnologia, com banda larga e tudo o mais, senão simplesmente o que é proposto não funciona. Assim, não se utiliza muito a possibilidade que é colocada pela intranet, e que pode ter origem em uma prática gestual muito direta, com a reutilização de sucata e sua montagem em rede.

Não é preciso pagar pelo acesso neste caso. Há uma ampla cultura que se pode explorar com a intranet: assim eu posso ver eventos culturais que podem ocorrer em comunidades remotas do Brasil, onde não há acesso a internet, mas que podem de qualquer modo entrar neste mundo por meio da montagem de sistemas e redes com sucata.


No colóquio falávamos de desvio de função, um tema que foi introduzido por Christian Pierre Kasper. Desvio de função e a chamada cultura hacker andam lado a lado. Como você se relaciona com a cultura hacker? Sente-se parte dela?

Delacroix: Comecei literalmente a hackear computadores em meados dos anos 80. Eu comprava kits nos quais faltavam partes, e assim as ferramentas que eu empregava se pareciam mais a um mosaico. Passei um ano desmontando um ambiente de programação Basic de um computador britânico que se chamava BBC somente para extrair alguns pedaços de código Assembler.

O código extraído foi então colocado dentro de uma outra linguagem chamada List e isso me permitiu desenvolver modelos com um computador muito pequeno, um Z80. Isto já era uma dose enorme de hacking. O problema é que não havia nesta época uma cultura underground para ser compartilhada como um teatro. Eu fazia isso completamente isolado.

Estarei em breve em Montevidéu com um estudante de engenharia e lá estaremos fabricando monitores eletrônicos. Neste projeto houve uma quantidade enorme de desvio de função: utilizamos motores de impressoras, partes de placas-mãe cortadas, reciclamos conectores internos de leitores de discos compactos. Os estudantes literalmente se viram fazendo hacking e isso tudo gerou um protótipo que poderemos agora clonar. Então, para mim, a cultura hacker não se relaciona com conflito. Trata-se literalmente de uma onda de reconquista da autonomia das pessoas frente à tecnologia.


Gostaria que você falasse de três relações, relacionando-as. Inicialmente, a relação entre Primeiro Mundo e o resto do mundo. Como você vê as potencialidades de seu trabalho nestes dois mundos diferentes? Em segundo, a relação entre teoria e prática. Em terceiro, eu gostaria que você falasse sobre a relação entre bit e átomo.

Delacroix: Em relação à primeira delas, Primeiro Mundo e o resto do mundo, quando olho para o Uruguai ou para a Argentina, não aceito a designação de Terceiro Mundo. Prefiro a designação de Primeiro Mundo fracassado. E o Brasil é Primeiro Mundo, mas ainda em gestação, um Primeiro Mundo fractal. A África, sim, em muitos e muitos lugares, é Terceiro Mundo, ou mesmo a Bolívia. Bom, mas há também Terceiro Mundo em Paris ou nas grandes cidades da Europa.

O mundo da arte tradicional, os ateliês e os artistas, tornaram-se também Terceiro Mundo, em todo o mundo. Eu vi isso nos Estados Unidos, inclusive. Enfim, formas miseráveis de enfrentar a multiplicação de poder que vem com o desenvolvimento tecnológico.

Eu prefiro a perspectiva Norte-Ssul. Ou melhor, para o Brasil e para o cone sul parece-me importante a tentativa de uma articulação Sul-Sul. Até o momento eu não vejo a possibilidade de muita colaboração Norte-Sul para a atuação conjunta no Sul. Assim, meu trabalho é feito com a esperança de favorecer este tipo de colaboração. Sobre a relação entre teoria e prática, sem dúvida esta experiência aqui com vocês me permite prosseguir com uma reflexão epistemológica.

A teoria que tenho que articular tem a ver com epistemologia, isto é, com o desenvolvimento do conhecimento, com a história das idéias. Enfim, como posso, através de minha cultura de físico, fazer análises da evolução de um grande sistema cultural, mas utilizando como ponto de experiência a minha prática artística, que então eu aplico a essa explosão de conhecimento tecnológico?

Eu tenho agora que voltar a ler muito mais, pois nos últimos anos eu passei muito tempo programando, realizando um enfrentamento direto, intenso e brutal com o lado prático da coisa, aprendendo com os estudantes.

Às vezes eu posso fazer um parênteses e ler um livro, por exemplo, Manuel Castels, que foi fundamental para formular vários aspectos teóricos desta trajetória. Ler Pierre Lévy foi um outro passo importante, e agora estou no Brasil descobrindo todo esse trabalho de semiótica que tem sido desenvolvido por aqui. Então, é vital para mim o encontro com vocês, para poder distanciar-me sempre da imersão, da urgência da prática. Finalmente, em relação ao tema dos bits e dos átomos, eu reconheço que é a primeira vez que tenho que refletir sobre isso.

Eu falei de minha fascinação pelo fato de que a curva demográfica começa a decolar com a irrupção das matemáticas, pois a matemática gera de um modo muito rápido máquinas mecânicas e, portanto, um outro tipo de capacidade de produção. É o começo da saúde pública, de outras práticas de higiene e de transporte, sendo que o surgimento do bit, uma pequena célula lógica que permite multiplicar e codificar a linguagem, pode ser visto como uma grande expressão deste processo.

Após a onda das máquinas mecânicas, prepara-se a onda das máquinas sensoriais e das máquinas de extensão da virtualidade. E aqui desenvolve-se uma capacidade computacional que dá acesso aos átomos. Tal capacidade computacional permite o desenvolvimento de ferramentas de observação de medidas que garantem acesso ao ordenamento dos átomos e da arquitetura molecular. Assim, passamos de práticas analíticas em grande escala para observar uma realidade complexa a uma situação em que estamos lá dentro, operando com a elementariedade, a partir de onde podemos gerar algo. Assim, volta-se à epistemologia.


Este problema se coloca também para a biologia contemporânea...

Delacroix: Também. E aqui podemos retornar à diferenciação Norte-Sul, pois, no Norte, esta consciência, a assimilação deste salto, está muito mais desenvolvida. É aqui que reside o desafio de atuar e de conectar as ilhas de desenvolvimento que existem de modo muito forte no Brasil às ilhas muito maiores que já existem no Norte, para atuar em uma escala muito maior. Todos falam de globalização, mas ela é também uma fonte de desequilíbrios. O que hoje enfrentamos é o custo dos desequilíbrios, o custo da marginalização.


O software livre, no Brasil, tornou-se recentemente instrumento político. Assim, fala-se muito em “liberdade”, mas, por outro lado, sabe-se que o acesso ao conhecimento na tecnociência não pode ser resolvido através, somente, da instalação de programas de código-fonte aberto. Não corremos, assim, o risco de substituir a análise e a discussão de um processo por uma problemática de produto?

Delacroix: Eu tenho percebido que esta maneira de polemizar alternativas -entre software proprietário e software livre- acaba criando um mundo de rótulos, de produtos, que atrapalha o espaço para reflexão sobre o processo. Para mim, o software livre é uma evidência tão grande que não é preciso polemizar. O que é necessário é dar autonomia às pessoas para que elas usem os recursos existentes para fazer escolhas adequadas. Há espaço para diferenciação.

O software livre permite difundir um acesso a este tipo de conhecimento sem carga de enlouquecimento. Isto dito, me parece muito importante agregar ao desenvolvimento do software livre a capacidade para mudar de um sistema para o outro. Não é possível substituir um tipo de analfabetismo por outro, pois senão você acaba criando pessoas que manipulam um certo tipo de software livre mas que não podem participar do mercado. Não se trata de um problema simples.

O desenvolvimento do software livre é uma evidência e uma prioridade absoluta, mas eu simplesmente não vejo a necessidade de substituir um tipo de fetichismo por outro. Trata-se do amadurecimento do tecido social em um país tão grande como o Brasil, e me parece que não é necessário polemizar alternativas.


E-mail de Etienne Delacroix - eti@mit.edu


André Favilla

É artista e pesquisador interdisciplinar, com doutorado em mídia e comunicação pelo Goldsmiths College (Universidade de Londres). Atualmente é professor de design da Facamp (Faculdades de Campinas) e membro do grupo de pesquisa CteMe. E-mail: andreluisfavilla@yahoo.com.



 
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