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novo mundo
DISPOSITIVOS

Velhas máquinas, novas potências
Por André Favilla

Para o físico e artista Etienne Delacroix, com as tecnologias atuais a arte tradicional tornou-se uma espécie de Terceiro Mundo

Ao longo dos últimos 20 anos, a chamada arte digital, computacional, infográfica ou mesmo tecnológica -aquela produzida com o emprego de tecnologias digitais, em particular com computadores- multiplicou-se. Em todo o mundo, e inclusive no Brasil, a despeito de sua posição econômica periférica, esta forma de arte tem sido discutida, criticada, celebrada e exibida com crescente interesse. Mais do que isso, a arte tecnológica parece ter adquirido muito rapidamente o status de arte, isto é, sob a pressão de artistas, críticos, teóricos e curadores, ela institucionalizou-se.

Trata-se, é claro, de um processo legítimo. Mas, sob muitos pontos de vista, este processo de institucionalização trouxe consigo novos problemas. Sobretudo, é preciso lembrar que a arte tecnológica tem como prerrogativa o acesso a tecnologias caras, cujo processo de obsolescência é programado. Isto cria problemas para artistas, é certo, mas também para espectadores, visto que é preciso ter acesso a certos meios e dominar certos códigos para navegar nesta nova forma de arte.

A tensão entre inclusão e exclusão digital é portanto perene no terreno da arte tecnológica, e assim esta tensão deveria ser considerada. O problema, no entanto, é que raramente isto ocorre. Uma notável exceção é o trabalho realizado por Etienne Delacroix.

Belga, mas com longas passagens pela França, Estados Unidos e, mais recentemente, pelo Uruguai, Delacroix opera no campo da interdisciplinaridade. Formado em física, estendeu seus estudos até o pós-doutorado. Em paralelo, sempre nutriu grande interesse pelas artes e também pela música, a ponto de ter abandonado sua carreira acadêmica para levar, durante 15 anos, uma vida de artista em Paris.

Neste período, entre os anos 80 e 90, além de pintor, Delacroix era também um “bricoleur”, pois desmontava e remontava computadores na tentativa de extrair destas máquinas novas possibilidades.

Depois de muito trabalho, o emprego de computadores, aliado ao desenvolvimento de softwares, permitiu a Delacroix decompor seus gestos de pintor, a partir de onde ele extraiu “morfemas”, isto é, conjuntos de formas elementares que eram então tomados como base para um processo generativo controlado por computador. O problema da “autoria” da obra de arte era aqui em parte deslocado, uma vez que cada uma das novas obras resultava de uma complexa relação de “feedback” entre gestualidade e programação.

Delacroix, no entanto, permaneceu à margem do processo de institucionalização da arte tecnológica. Em 1998, ele se mudou para Boston e trabalhou no MIT - Massachussetts Institute of Technology, onde propôs a implementação daquilo que ele chamou de “workshops nômades”. O principal objetivo de tais workshops seria a criação de uma interface de baixo custo entre a gestualidade do artista tradicional (aquele que trabalha ou trabalhava no ateliê) e os fundamentos das ciências da computação e da engenharia elétrica.

A matéria-prima para o projeto, como Delacroix observa, é abundante: de um lado, estudantes de engenharia e também de computação, artes, comunicação, design, arquitetura e música; de outro, a grande massa de poder computacional que a cada ano se torna obsoleta e é simplesmente descartada como lixo.

Curiosamente, foi somente no Instituto de Engenharia Elétrica da Universidad de la Republica (Udelar), em Montevidéu, que Delacroix finalmente encontrou as condições para a implementação de seu projeto, em 2001. Agora batizado como “TAP – Taller de Arte y Programación” (Estúdio de Arte e Programação), aos poucos o projeto tornou-se parte do currículo do curso de engenharia, atraindo, no entanto, estudantes de vários outros cursos da mesma escola.

Nos ateliês, computadores “obsoletos” ou mesmo inoperantes são tomados como matéria bruta e desmontados pelos estudantes. Todos os dispositivos que funcionam são selecionados e reutilizados na construção de novos dispositivos de hardware. Estes serão usados não somente para a construção de computadores, mas também, por exemplo, para a realização de instalações de arte em grande escala.

No dia 25 de outubro de 2004, Delacroix esteve na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a convite do grupo de pesquisa CTeMe (Conhecimento, Tecnologia e Mercado), que é liderado pelo sociólogo Laymert Garcia dos Santos. Ele veio para participar do colóquio “Arte, Tecnociência e Política”, organizado pelo CTeMe e por Submídia e apoiado pelo Programa de Doutorado em Ciências Sociais do IFCH – Unicamp.

Na manhã do dia 26, encontrei-me com Delacroix para entrevistá-lo juntamente com dois colaboradores: Pedro Peixoto Ferreira, doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp e coordenador do grupo de pesquisa CTeMe, e Chico Caminati, cientista social e membro do grupo Submídia. Leia a seguir a entrevista.


Poderia falar sobre o projeto que você pretende realizar no Brasil?

Etienne Delacroix: Há muitos anos estou trabalhando entre dois mundos que não tem muita comunicação entre si: de um lado, a cultura “dura”, no meu caso, a cultura científica da física, e, de outro, a cultura do ateliê, que tem suas origens em minha prática como pintor. Isto me deixou com a percepção de que não havia lugares de encontros concretos entre estes dois mundos, onde artistas plásticos e jovens engenheiros pudessem literalmente confrontar as suas práticas.

Foi somente no Uruguai, após uma série de tentativas, que pela primeira vez encontrei espaço em uma universidade para promover tais encontros. O TAP tem crescido de modo muito rápido: em três anos passamos de 40 para 100 estudantes e, depois, para 150. Agora temos mais de 200...

Devido à minha participação em conferências de software livre e em fóruns sociais mundiais pude conhecer melhor o Brasil e, então, me dei conta que tal projeto teria que ser articulado regionalmente. Assim, ele se tornaria muito mais interessante, funcionando como uma sonda para intercâmbios culturais e acadêmicos ao tratar de uma problemática específica da América Latina, isto é, a marginalização tecnológica das pessoas.

Esta marginalização se reflete em uma grande dificuldade para favorecer a circulação de conhecimentos reais e, portanto, em uma dificuldade para gerar tecidos de invenção e de pesquisa em um contexto de cultura mais popular. Então, na medida do possível, eu comecei a estabelecer contatos com universidades no Brasil e estou aqui para tentar montar, antes de mais nada, uma pequena rede de cumplicidade intelectual sobre a problemática de uma interface entre a tradição do ateliê do artista e a prática da engenharia.


Há dois aspectos que parecem fundamentar o trabalho que é feito no TAP. Em primeiro lugar, a ênfase em processo em vez de produto. Em segundo, a idéia de interdisciplinaridade. Como estes elementos se relacionam em sua opinião?

Delacroix: A metodologia de trabalho no ateliê parte do princípio de que o computador é um artefato bem particular e que tem sido produzido brutalmente, isto é, numa enorme quantidade em muito pouco tempo. Trata-se de uma massa de poder computacional que surge no mundo e que muda totalmente a organização de produção de valor. E, de fato, todas as partes da sociedade literalmente se encontram neste objeto, pois o computador é o coração de uma mutação sistêmica muito grande.

O trabalho no ateliê mistura estudantes de várias culturas e oferece a todos a oportunidade de olhar para este artefato em todos os aspectos. É preciso abri-lo e ver que dentro desta caixa preta há uma enorme paisagem de componentes e dispositivos, enfim, uma matéria eletro-digital-computacional que cada vez mais se estende a todo o nosso entorno.

Então, na prática do ateliê nós aprendemos a olhar para esta paisagem e a desenvolver estratégias para nos apropriar daquilo que funciona. Assim, de um lado, é preciso desenvolver estratégias -gestuais, de atenção e de vocabulário- até que os alunos possam ter autonomia para instalar sistemas e redes e, assim, criar ambientes que são equivalentes ao laboratório de computação tradicional, mas feitos por meio de uma prática expressiva.

De outro lado, é preciso também documentar o processo -algo que é feito pelos alunos com a programação de páginas web. Isto permite misturar os dois lados, o físico e o virtual, o lado do hardware e o do software. Nesse contexto, é muito interessante ver a diversidade de conhecimento que existe no grupo: há gente que sabe mais de eletrônica, outros de programação, outros que têm capacidade de fabricação manual muito mais desenvolvida, ou ainda aqueles que, como os arquitetos, sabem como organizar espaços.

A partir deste ponto se organiza uma atividade em pólos, mas que compartilha essencialmente o mesmo fundamento: como olhar para o computador como um meio bruto? Como aprender a contar histórias de conhecimento apropriadas?


Nesse contexto, gostaria de saber qual é a sua percepção da sobrevivência deste aprendizado nos alunos, uma vez que eles, em sua grande maioria, vão encontrar sua sobrevivência no mercado, ou seja, em um sistema cujas demandas por especialização com freqüência tornam-se mais fortes.

Delacroix: Uma coisa é clara em minha mente: trata-se, em todo caso, de uma contribuição muito útil aos engenheiros, quaisquer que sejam os seus destinos, pois nos ateliês eles mudam de uma maneira muito forte, uma vez que o desafio humano é imenso.

Partindo de uma perspectiva muito abstrata, conceptual e axiomática, em que há uma seqüência muito rígida para tudo, os estudantes de engenharia encontram outros estudantes que não falam a mesma língua, e eles precisam atuar nesse contexto. Isto os introduz a um novo tipo de liderança.

Ora, é preciso lembrar que os engenheiros são o coração do desenvolvimento industrial e econômico de um país. O ateliê, portanto, deixa neles um espaço de imaginação, de possibilidade e de interação humana que normalmente eles não recebem. Somente isso já terá conseqüências em suas carreiras futuras.

De outro lado, penso que, uma vez que essa possibilidade de imaginar que seus conhecimentos técnicos possam também desenvolver-se em outros contextos, isto é, para além da cadeia problema-solução-produto, eles terão sempre um canal aberto para participar de outros aspectos dos problemas de educação e de inclusão digital, que em um país como o Brasil são imensos.

Assim, se cada pessoa que participar da liderança deste país tiver recebido este tipo de experiência, ela sem dúvida terá mais flexibilidade e mais imaginação para participar da investigação de soluções. O que nós estamos fazendo, dito de outro modo, é um pouco utilizar a técnica do teatro. O ateliê do teatro é uma experiência de agilização muito dinâmica em que as pessoas têm que responder a situações de tensão. E aqui se trata de fazer isso com o conhecimento mesmo e com a mistura de níveis de conhecimento, o que é de fato uma situação social real.


Você parece lamentar muito a introdução e multiplicação dos dispositivos técnicos e depois eletrônicos e digitais de produção simbólica, a ponto de ter qualificado o fim da cultura do ateliê como “uma tragédia”. A partir deste ponto parece que se estabelece em seu argumento uma dicotomia entre práticas que são diretas, ou não-midiatizadas, como aquela produzida no ateliê do artista, e práticas midiatizadas, que é justamente um ponto que gostaria de questionar. Qual é exatamente a operacionalidade da distinção entre manipulação midiatizada e não-midiatizada para você?

Delacroix: A minha percepção do artista privilegiado mudou novamente, pois percebi que a irrupção da tecnologia digital-computacional introduziu precisamente um mundo de categorias às quais ele não tem acesso. Então, o mundo da arte se viu essencialmente marginalizado, o que tem conseqüências para o privilégio cultural, que é essencialmente uma capacidade maior de simbolização e, portanto, uma capacidade maior de interpretação de sua própria gestualidade.

Está muito claro que a virtualização começa com a linguagem -Pierre Lévy discute isso de maneira brilhante. Mas aqui há algo que é muito importante para mim e que tem origens na minha experiência como físico, não somente na minha prática de ateliê.

Antes desta mutação perceptual que começou com as matemáticas analíticas (tudo isso se inicia para mim com Newton, Leibniz e Descartes, entre outros, pois é ali que a linguagem se enriquece de novas camadas de descrição do espaço e do tempo), a maioria das atividades no mundo era compartilhada por todos. As pessoas podiam imaginar, mesmo se não sabiam fazer, o que era a agricultura, o que era a medicina -neste caso, fruto de uma habilidade muito concreta de entrar no corpo.

 
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