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browser.art
Por Giselle Beiguelman



Programas desafiam a internet estática

Que me perdoem os mais puristas, mas browsear é preciso. Difícil arrumar um sinônimo em português. Verbo antigo -remonta ao século 15-, "to browse" quer dizer ler descompromissadamente, folhear, entrar em lojas só para espiar, beliscar comida, olhar para várias coisas dispersamente, procurando algo para se concentrar.

O verbo deu origem, em meados do século 19, a um substantivo (browser), pouco usado até a criação do Mosaic (primeiro programa com interface gráfica para navegação na World Wide Web), nos anos 90. Foi só depois da Guerra dos Browsers (1997-98, lembra?) que se tornou sinônimo de navegador (sic) e se foi impondo o padrão biblioteca oitocentista para a internet.

Mas ainda é possível flanar on line e fugir à lógica do "infotainment". Até mesmo porque o browser não é suporte, mas interface de leitura. E, como não dá para pensar em um mundo da leitura sem pressupor uma leitura de mundo, a criação de browsers que dispensam recursos de paginação desponta com uma das tendências mais interessantes da web arte.

Não há metáfora mais perigosa e rasa do que a que aproxima a tela da página. Mais do que denunciar falta de vocabulário, denota pobreza semiótica, incapacidade de romper com um mecanismo de significação do mundo que opera por contigüidade e semelhança. Ou seja, aquela velha forma de alfabetização baseada no "J" que faz parte da figurinha da jarra...

O grande marco da "browser art" foi o premiadíssimo I/O/D, um programa de visualização das informações na Web, que transforma as palavras em diagramas dinâmicos. Lançado em 1997, já está na sua quarta versão e acumulou tantas considerções críticas, que dispensa mais comentários. É referência obrigatória, sensacional e ponto.

Divertidíssimo, e menos conhecido, é o Riot, de Mark Napier, que leva ao limite a experiência de estar em rede, porque mescla o conteúdo que você estiver acessando ao que está sendo consultado por dois outros internautas.

Caso ninguém esteja utilizando o Riot, não se preocupe. O programa se encarrega de embaralhar o código do site que estiver aberto, transformando o conteúdo existente em algo imprevisível.

Seja da maneira que for, a tela vira um palimpsesto de layers, com todos os links preservados, mas criando um processo irônico que implode os limites territoriais dos domínios (ou você esqueceu que os domínios são propriedades, como os outros lugares reais?) pela reciclagem da interface.

Preparada para lidar com a Web organizada como um gigantesco banco de dados de arquivos estáticos, a interface dos navegadores-padrão suprime a possibilidade da internet ser ela mesma uma aplicação inteligente. Isso é o que afirma Maciej Wisniewski, criador do Netomat.

Sem barras de navegação, sem comandos para voltar e avançar, sem campo para digitar a URL, sem links clicáveis. Sem lenço e sem documento, no Netomat os dados fluem. Você faz uma pergunta. O programa desempacota os arquivos de outros sites e os arremessa para sua tela, numa cadeia de imagens, sons e textos que se modifica a cada novo input do usuário.

Uma das últimas novidades do setor é o Wrong Browser do consagrado dueto Dirk Paesmans e Joan Heemskerk da Jodi. Programado em Director, é o "unfriendly" por excelência e com muito orgulho. Em quatro versões (.com, .co.kr, .nl e .org) ele apresenta, de forma randômica, sites cujos nomes sejam formados por três letras, tipo XZ9.com.

O Wrong Browser brinca com as diferentes combinações dessas três letras que compõem o nome, no âmbito de cada um desses tipos de domínio (.com, .co.kr, .nl e .org), trazendo o código fonte dos documentos que estão atrelados a esses endereços para a superfície e criando links aleatórios entre essas URLs.

O resultado é impressionante. A tela de computador se transforma num quadro de vários quadros, sem identidade visual reconhecível, pois nem mesmo os códigos são apresentados de maneira familiar. Não há campos específicos para digitação, a superfície é um todo que se move (ou locomove) sozinha, caso não sofra interferência do usuário.

Se o conteúdo que se revela mostra combinações aleatórias entre esse sites, o mesmo não ocorre com o seu perfil, digamos assim, etimológico, pois a escolha dos nomes curtos para compor a base do programa não é fortuita.

Por serem de fácil memorização, esses nomes de domínios valem dinheiro e muitos estão a venda por quantias substanciais. O engraçado é que ninguém compra... Formam assim uma espécie de massa de condomínios vazios, investimentos imobiliários que não decolaram, mas já redefiniram o valor do espaço.

E é isso, o passeio subversivo por esses sites, que enobrece o lúdico (e perverso) Wrong Browser.

Segundo seus criadores, o programa funciona como um carrossel. Só que, ao invés de sentar no seu cavalinho e circular sem sair do lugar, você fica pulando de um a outro. E, o melhor, esse círculo não tem fecho. Você pode adicionar, temporariamente, dados e provocar rearranjos automáticos e encontros acidentais. Ou seja, pode browsear...

Se tudo isso parece bobagem e não mereceu sua atenção, talvez seja o caso de você testar o que vem embutido no web movie "Sprinkling Menstrual Navigator". É um navegador prá lá de inteligente e especialmente concebido para você curtir sua tristeza. Enjoy it.

Benchmark

Jorge Luis Borges. "O Minotauro". Em: "O Livro dos Seres Imaginários" (Globo).
Roger Chartier. "A Aventura do Livro do Leitor ao Navegador" (Unesp).
Maria Ercilia. "Saudades da Bagunça. http://www.uol.com.br/internet/colunas/netvox/vox0406.htm
Marisa Lajolo. "Do Mundo da Leitura à Leitura do Mundo" (Ática).

link-se
I/O/D (1997)
Riot (1999)
Netomat (1999-2001)
Wrong Browser (2001)
Sprinkling Mentrual Navigator (2001)
Webster Dictionary
Data Dynamics
Saiba tudo sobre o 5o. Browser Day, em novembro, em Berlim

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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