|
busca
nos arquivos
|
1
estante
Marcelo Coelho Faço uma lista de leituras para quem gosta de listas.
“O sexo contém tudo, corpos, almas, Este trecho de um poema de Walt Whitman é o ponto de partida para o crítico Leo Spitzer estudar, num ensaio famoso, o recurso poético de fazer “listas” de coisas heterogêneas; Whitman, diz Spitzer, “aproxima violentamente umas às outras as coisas mais díspares, o mais exótico e o mais familiar, o gigantesco e o minúsculo, a natureza e os produtos da civilização humana, como um menino que estivesse folheando o catálogo de uma grande loja e anotando em desordem os artigos que o acaso tivesse posto diante de seus olhos”.
“Espartilhos, espanadores de penas, pentes verdes e vermelhos, velhas fotografias, réplicas de suvenir da Vênus de Milo, botões de gola para camisas há muito descartadas, estes históricos e danificados sobreviventes da alvorada da cultura industrial que aparecem reunidos nas moribundas Passagens ou Arcadas, ‘como um mundo de afinidades secretas’, eram as idéias filosóficas, como uma constelação de referentes históricos concretos. Mais ainda, como ‘dinamite político’, tais produtos datados da cultura de massa ofereceriam uma educação marxista-revolucionária para os sujeitos históricos da geração do próprio Benjamin, então vítimas recentes dos efeitos soporíferos da cultura de massa.” É assim que Susan Buck-Morss, professora de filosofia política da Universidade de Cornell, e autora de um indispensável estudo sobre Theodor Adorno (“Origens da Dialética Negativa”) descreve o grande projeto das “Passagens”, obra inacabada do crítico e filósofo Walter Benjamin (1892-1940). Ao longo de anos, Benjamin colecionou notas, citações e observações esparsas sobre a cultura urbana da Paris do século 19, tomando como ponto de partida as galerias comerciais cobertas, as “arcadas” ou “passagens” de que fala o título. O livro de Buck-Morss é um excelente guia nesse labirinto. O interesse de Benjamin pelo mundo dos fragmentos, pela atividade do colecionador, pelas ruínas, pelo surrealismo e pela alegoria barroca merece ser mencionado quando se pensa em listas do que quer que seja.
“Coisas que fazem o coração bater mais depressa: pardais alimentando seus filhotes. Passar por um lugar onde bebês estão brincando. Dormir num quarto onde acabaram de queimar incenso de boa qualidade. Perceber que o elegante espelho chinês que alguém possui ficou um pouco fosco. Ver um fidalgo parar sua carruagem na frente do portão da casa de alguém e instruir seus acompanhantes a anunciar sua chegada. Lavar o cabelo, fazer a toalete e vestir roupas perfumadas; mesmo se ninguém nos vê nesse momento, esses preparativos ainda assim causam prazer interior. É noite e esperamos uma visita. De repente somos surpreendidos pelo som dos pingos da chuva, que o vento joga contra as venezianas.” Esta é uma das várias listas de coisas (“coisas elegantes”; “coisas deprimentes”; “coisas que perdem ao ser pintadas”) elaboradas pela cortesã japonesa Sei Shonagon, no século 10, e que fazem parte de seu “Livro de Cabeceira”: reflexões e episódios dispersos, que não faz muito tempo inspiraram Peter Greenaway no filme de mesmo nome.
Este exemplo é mais conhecido. Borges cita as “remotas páginas” de uma enciclopédia chinesa, segundo a qual os animais se dividem em: “a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) amestrados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cachorros soltos; h) incluídos nesta classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com pincel finíssimo de pelo de camelo; l) etcétera; m) que acabam de quebrar o jarro; n) que de longe parecem moscas”.
“ (...) 2o inventário Este é um trecho do poema “Bens e Vária Fortuna do Padre Manuel Rodrigues, Inconfidente”, do livro “A Falta que Ama”, que Drummond publicou em 1968. Listas e longas enumerações em “crescendo” são essenciais à sua poética. Veja-se, por exemplo, esta passagem de “A Luís Maurício, Infante”, de 1952-53: “Imagina tudo: o povo, com sua música; o passarinho, com sua donzela; o namorado, com seu espelho mágico; a namorada, com seu mistério; a casa, com seu calor próprio; a despedida, com seu rosto sério; o físico, o viajante, o afiador de facas, o italiano das sortes e seu realejo; o poeta sempre meio complicado; o perfume nativo das coisas e seu arpejo.” Ou, em “Claro Enigma” (1948-1951), o poema “Cantiga de Enganar”, em que Drummond diz: “(....) se sobe
“Inventário do Circo Nerino feito por Roger Avanzi no final de 1964: Esta lista, de que selecionei alguns itens apenas, é o que aparece no final do longo depoimento de Roger Avanzi, o palhaço Picolino, a Verônica Tamaoki, no livro “Circo Nerino”. O constante embate entre a precisão e o imprevisto marcam o destino de cada personagem evocada.
“Numa conferência sobre o pêndulo e o movimento lida na Bauhaus no ano de 1929, Paul Klee propôs a construção de um aparelho silencioso: ‘tomemos um cabelo muito longo -um de Melisanda, por exemplo-, atemo-lo a um peso morto e deixemos que se balance preguiçosamente...’. A concepção do curioso e infatigável objeto completa-se acrescentando-lhe uma argola com uma cabeça ou um ovo, uma uva moscatel, um peixinho dissecado ou um ovo de crocodilo. Esta coisa rítmica, cuja elaboração e contemplação propõe Klee, é portátil: pode-se pendurar ao anoitecer nos galhos de uma figueira (árvore da luxúria), de um cadafalso tosco e enorme ou de uma estátua equestre pintada de vermelho (seria perfeito, mas impossível, que pendesse da lua).” Assim começam as especulações do escritor mexicano Hugo Hiriart (1942-) , num ensaio intitulado “Coisas”: ele fala do pêndulo, do alfinete, do tabuleiro, da marionete, da caixa de música... todo o livro é uma sequência de divagações fantasiosas sobre assuntos imprevisíveis: o cervo, a dedicatória, os diálogos ao telefone. Livro que infelizmente passou despercebido na época de seu lançamento. Marcelo Coelho
1
|