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dossiê
EM OBRAS - 25ª BIENAL

Pinturas, prestígios e políticas
Por Magnólia Costa


"Renegade Delirium" (2002), de Julie Mehretu
Divulgação

Para o curador da 26ª Bienal de São Paulo, o tema “Território Livre” exprime uma concepção estritamente estética da arte contemporânea. Nas palavras de Alfons Hug, "o território livre da estética começa onde termina o mundo do dia-a-dia. Artistas são guardas da fronteira de um reino em que a competência interpretativa da política e da economia não chegam" (“Bravo”, nº 84, set/04).

Dirigido por esse pensamento, Hug concentrou-se no "que há de qualidade e atualidade no contexto dos 55 países envolvidos" e pinçou no "mundo paralelo" das artes os "tesouros" deleitosos da pintura, "que vive um bom momento na Europa Central e na América do Norte. Recupera um caráter artesanal e individual na sua realização" (“Folha de S. Paulo”, 15/07/04). Essas palavras são um convite ao debate: os conceitos subjacentes a elas suscitam a discussão sobre a maneira como a arte -a pintura, em particular- é entendida hoje, permitindo questionar os critérios utilizados na seleção das obras expostas nesta Bienal.

Seria possível separar arte e vida? A curadoria da 26ª Bienal acredita que sim. No entanto, a idéia de desarticular arte e sociedade fragiliza a proposta curatorial, ao invés de sustentá-la. Não existe arte "pura". A prática artística orienta-se por valores estéticos para produzir também valores éticos, que permitem ao artista atuar e descrever sua atuação no mundo.

Mesmo quando ele explora as possibilidades de uma arte sem objeto -como a "arte pela arte"-, atua segundo valores do contexto em que se insere: a poesia de Mallarmé respira ares do niilismo “fin-de-siècle”, assim como o formalismo norte-americano dos anos 1950 recende macartismo. Na esteira dos exemplos históricos, pode-se dizer que o artista contemporâneo, seguindo a trilha de Courbet, discute por meio das obras as relações que ele próprio e a sociedade em que vive constroem com o mundo. As pinturas exibidas na Bienal demonstram isso.

A pintura de Eugenio Dittborn é a expressão mais flagrante de uma atitude politizada frente a arte. Dittborn, nasceu no Chile em 1943 e desde 1983 põe suas pinturas em circulação, despachando-as pelo correio para diversos museus, que as exibem ao lado das caixas utilizadas no transporte. Há nessa atitude uma referência à pouca visibilidade da arte chilena no circuito internacional e ao cerceamento da liberdade individual, imposto pela ditadura. No entanto, a restauração da democracia no Chile não destitui o trabalho de Dittborn de sua dimensão política.

As dezesseis “Airmail paintings” expostas na Bienal formam um imenso painel de tecidos de algodão toscamente tingidos de preto e providos de ilhoses para fixação. Seu aspecto desgastado dilui o efeito das imagens nelas aplicadas: serigrafias de desenhos e de retratos de internos de um hospital psiquiátrico, muitos dos quais de origem indígena, população discriminada pela sociedade chilena. Dittborn envia a museus do mundo inteiro aquilo que ninguém quer ver em seu país. O que mostra e a maneira como mostra nada têm de belo ou agradável.

Num registro distinto, mas também politizado, situa-se a pintura de Neo Rauch, artista que nasceu em 1960 e cresceu na antiga República Democrática Alemã. Como não ver nessas grandes pinturas escuras, povodas de imagens que remetem a anúncios publicitários extemporâneos, ecos do conflito Oriente-Ocidente que ainda está presente na sociedade alemã? Gente comum, feia e maltratada é mostrada no desempenho de atividades cotidianas que se articulam na tela como numa colagem surrealista. As discrepâncias de escala, o “non-sense” das ações e dos objetos figurados remetem a uma lógica absurda e a um passado sombrio que o mercado de arte alemão, ironicamente, supervalorizou.

Aliás, prestígio mercadológico é o que não falta ao belga Luc Tuymans, um dos pintores mais comentados na cena artística contemporânea. Nesta Bienal, Tuymans apresenta pinturas de colorido pálido e leitura difícil. Um esforço de percepção -e uma boa dose de imaginação- é necessário para ver nelas imagens do carnaval belga, célebre pelo comportamento violento dos foliões. Ao sobrepor as camadas de tinta, Tuymans encobre os motivos que lhe servem como ponto de partida e propõe ao espectador que os descubra ao rememorar fatos desagradáveis no exercício de reconhecimento das imagens, algo que os formatos medianos e a economia monótona de tons sobrepostos talvez tornem desencorajador.

As pinturas da dupla Adi Rosenblum e Markus Muntean são mais contundentes na mistura do prosaico com o patético. Cada uma das telas sem chassis mostra uma espécie de ampliação agigantada de um quadrinho de jornal, onde se vêem vários jovens aparentemente saídos de uma revista de moda. A atitude “blasée” das figuras contrasta com a cena natural onde estão dispostas, na qual poderiam estar se divertindo -o que não acontece. Aliás, nada acontece. O existencialismo barato do texto lido na base das pinturas dá às cenas um tom ameaçador que perturba a contemplação plácida sugerida pelo colorido suave. Isolamento, insatisfação, indiferença: sentimentos que o senso comum consagrou como característicos do jovem de hoje, sobretudo nos países ricos, e que são referidos por vários fotógrafos e videomakers com trabalhos expostos nesta Bienal.

Evidentemente, muitas pinturas exibidas na Bienal não explicitam as preocupações dos artistas com os males do mundo contemporâneo. Os trabalhos do alemão Albert Oehlen, por exemplo, convidam mais ao olhar desinteressado do que a uma reflexão sobre a realidade -o que não significa, porém, que elementos dela não apareçam em suas pinturas. Oehlen é um dos pintores mais influentes na Alemanha desde os anos 1980, propondo um neoexpressionismo de cores vibrantes, em contraste com o tenebrismo de Lüpertz e Baselitz, que inspirou diversos artistas brasileiros da chamada Geração 80.

Fragmentos de uma realidade banal envolvendo cenas domésticas, recortes de revista etc. são dispostos de maneira a não propor narrativas nem comentários objetivos. O formalismo de Oehlen, visto também em duas séries de pinturas expostas recentemente na galeria paulistana Fortes Vilaça, é característico do estilo internacional consolidado nos anos 1980, que dialoga abertamente com o processo de mundialização da economia e o debate pós-moderno.

Situa-se nesse viés a pintura da carioca Beatriz Milhazes, ícone da Geração 80 e uma das artistas brasileiras de maior êxito comercial no exterior. Como Oehlen, Milhazes muitas vezes parte de imagens desapercebidas no cotidiano (padronagem de tecidos, motivos de azulejos, papéis de parede) para formar composições atraentes ao olhar pela escala grande, o colorido intenso e a sugestão de movimento gerada na disposição de formas circulares e lisérgicas.

A preocupação com a beleza, no sentido do efeito harmonioso e agradável da composição, impõe-se na pintura de Milhazes de maneira tão intensa que desvia a atenção dos temas -e há temas. A execução refinada certamente está associada a essa preocupação, buscando atenuar o contraponto proposto pelas figuras de textura vinílica sobre as camadas de tinta que dão ao fundo uma aparência arruinada.

Refinadíssima, a execução de Julie Mehretu tem na beleza um efeito, não um propósito. Sua intenção é aproximar e fundir espaços, a despeito dos tamanhos e das funções que normalmente lhes são atribuídos. O procedimento é conceitual: riscos arquitetônicos de aeroportos e edifícios urbanos confundem-se com traçados de mapas numa sucessão de planos formados por camadas transparentes de tinta acrílica que, ao se sobreporem, fazem as imagens se articularem e perderem o significado original. Na última camada, recortes de material adesivo constituem traços que sugerem ao olhar movimentos circulares e centrípetos. Meheretu requer do espectador uma percepção apurada e vários deslocamentos, evitando o olhar fixo exercido à distância, comum diante de trabalhos grandes. A complexidade da composição propõe o entendimento que a artista tem do mundo contemporâneo: ambíguo, difuso e em constante movimento.

As pinturas propostas nesta 26ª Bienal indicam que as relações artista-sociedade e arte-realidade podem se configurar de muitas maneiras. Indicam também que a arte amplia o conceito de realidade quando se põe a analisá-lo intencionalmente. O belo não é o fim visado pela arte contemporânea, nem pela pintura em particular. Ele pode, no entanto, resultar da investigação artística do real, ainda que este real seja fantástico como os fósseis de animais fictícios pintados com preciosismo pelo catarinense Walmor Corrêa.

O artista, botânico, atua no limite tênue entre o real e o fantástico, o provável e o impossível, num momento em que a ciência evidencia a necessidade de se revisarem todos os valores, principalmente os éticos. O artista contemporâneo se fixa em todos os territórios do mundo e atua livremente quando se orienta por valores que contribuem para a reflexão sobre eles.


Magnólia Costa
É doutora em filosofia pela USP, professora de história e crítica de arte na Faap, na Faculdade Senac de Moda e no MAM.





 
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