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Temos aqui uma imagem emblemática da vida urbana, ligada à velocidade, poluição sonora, deslocamentos apressados. Mas em “Caja de música” todos esses aspectos têm o seu sinal invertido. A cena urbana encontra-se numa situação intimista; os carros parecem passar lentamente, surgindo como propulsores de um som singelo, que dura um tempo bem curto, como curto torna-se o deslocamento. A comunhão entre música e imagem e a repetição contínua de ambas geram uma atmosfera melancólica que a cena original não possui, como observa o próprio artista na entrevista concedida à Ana Paula Cohen neste dossiê.

Vale notar não só tais deslocamentos de percepção operados por “Caja de música” através de movimentos tão simples, mas também pensar no que significa essa escolha pela economia diante de um mundo marcado pelo excesso. Excesso de alguma forma mimetizado em megaexposições, como a Bienal. Assim, podemos entrever no partido de Macchi (muito bem exposto na entrevista citada) a opção por uma presença discreta em meio a um entorno superlativo, uma visão crítica que extrapola o âmbito do seu próprio trabalho e versa sobre uma dinâmica do mundo atual e de como o campo da arte se coloca diante dela.


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Buscou-se aqui mostrar ser possível haver uma interação rica com obras que se destacam nessa edição da Bienal sem que tenhamos que ter em mente a proposta do curador. Potencializar e partilhar poucos mas vigorosos encontros com certas manifestações, e ainda delinear um diálogo possível entre trabalhos muito distintos. Essas foram as tentativas postas em obra nessa breve intervenção.


Sobre os artistas:

Julie Mehretu
Nasceu em Addis Ababa, em 1970. Vive e trabalha em Nova York.

Exposições individuais selecionadas: 2004 - Matrix, University of Califórnia Berkley Art Museum. 2003 - Walker Art Center - Minneapolis. 2002 - Whit Cube - Londres.

Exposições coletivas selecionadas: 2003 - The Moderns, Castello di Rivoli, Turin. 2002 - Drawing Now: Eight Propositions, Museum of Modern Art, Nova York. Busan Bienalle.


Angela Detanico e Rafael Lain
Nasceram em Caxias do Sul, em 1974 e 1973, respectivamente. Vivem e trabalham em São Paulo e Paris.

Exposições coletivas selecionadas: 2004 - Nam June Paik Award, Kunststiftung NRW, Dortmund. Derivas, Galeria Vermelho, São Paulo. 2003 - GNS/ Le Pavillon, Palais de Tokyo, Paris. Intershop Südstattsüd, Kunstverein Karlsruhe. Modos de Usar, Galeria Vermelho, São Paulo.


Carlos Garaicoa
Nasceu em Havana, 1967. Vive e trabalha em Havana.

Exposições individuais selecionadas: 2004 - The Measure os Almost Everything. Palazzo delle Papesse, Siena. 2003 - Autoflagelación, Supervivencia, Insuborinación. Sala Montcada, Fundació la Caixa, Barcelona.

Exposições coletivas selecionadas: 2003 - Letter to Censors, Artist`Statements at Art Miami-Basel. 2002 - Documenta 11. Kassel.


Catherine Opie
Nasceu em Sandusky, em 1961. Vive e trabalha em Los Angeles e Nova York

Exposições individuais selecionadas: 2004 - Catherine Opie: Surfers, Regen Projects, Los Angeles. Skyways and Icehouses, Walker Art Center - Minneapolis. Catherine Opie - Museum of Contemporary Art, Los Angeles. 2002 - Wall Street, Stephen Friedman Gallery, London.

Exposições coletivas selecionadas: 2004 - The Whitney Biennial - The Whitney Museum of American Art - Nova York. Art, Lies and Videotape, Tate Liverpool. 2002 - En Route, Serpentine Gallery, Londres.


Jorge Macchi
Nasceu em Buenos Aires, em 1963. Vive e trabalha em Buenos Aires

Exposições individuais selecionadas: 2003 - Buenos Aires Tour, Galeria Espacio Distrito Cu4tro, Madrid; Galeria Luisa Strina, São Paulo. 2002 - Fuegos de artifício, Galeria Mirta Demare, Rotterdam.

Exposições coletivas selecionadas: 2003 - Panorama da Arte Brasileira (Desarrumado) -Bienal do Mercosul, Porto Alegre; Bienal de Istambul, Turquia. 2002 - Reality Check, Galeria Hengevoss-Dürkop, Hamburgo.

Luisa Duarte
É jornalista e crítica de arte. Conclui neste ano pós-graduação em arte e filosofia no Departamento de Filosofia da PUC-Rio.



 
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