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cosmópolis
CENÁRIOS

A metrópole e o interior
Por Jean Marcel Carvalho França

Desde o século 19, as grandes cidades são descritas pelos romancistas como o lugar da realização existencial dos homens

“A Paris de Alexandre Dumas ou de Paul de Kock, uma Paris de estudantes e costureiras, na qual podia ele à vontade correr a suas aventuras, sem fazer escândalo como no diabo da província.” Era desse modo que o “herói” do romance "Casa de Pensão”, o provinciano Amâncio, rapaz rico e de caráter “moldável como a cera”, imaginava a renomada sede da monarquia brasileira, o Rio de Janeiro.

Do mesmo modo que o jovem maranhense, dezenas de outros interioranos que habitavam o mundo dos romances oitocentistas viam a “Corte”, mais tarde “Capital Federal”, como um lugar de múltiplas possibilidades, possibilidades amorosas, na perspectiva do deslumbrado Amâncio e de muitos outros, mas também possibilidades econômicas, intelectuais, políticas e, a despeito do tom conservador do romance oitocentista local, existenciais.

É certo que, como em tantos outros pontos, os romancistas e dramaturgos brasileiros não destoaram de seus congêneres europeus, os quais, ao longo do século XIX, promoveram um verdadeiro culto às metrópoles em suas obras, de Londres a Moscou, passando naturalmente por Paris. Por aqui, como anuncia o interiorano Amâncio, o Rio de Janeiro, a “Paris dos trópicos”, como gostavam os cariocas de outrora, ocupou tal lugar e, ao longo de todo o século XIX, praticamente não teve concorrentes. Incontáveis são os romances urbanos brasileiros do Oitocentos que têm a cidade e sua agitada vida social como cenário, um cenário ativo, que determina as possibilidades da trama e os contornos de seus personagens.

Os estudantes de medicina de Macedo, por exemplo, aqueles que dão vida à ingênua e popular trama de "A Moreninha", sem dúvida não poderiam viver num monótono e ermo lugarejo próximo, digamos, à fazenda da bela Inocência, do romance homônimo de Taunay. Repúblicas de estudantes universitários no Brasil ficcional oitocentista, a propósito, somente em quatro cidades: Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Todas, excetuando talvez São Paulo, já com ares de "cidade agitada".

É também pouco provável que o encontro casual, ocorrido no anônimo entra e sai de um bonde, entre Romualdo -das "Histórias brejeiras", de Artur Azevedo- e uma bela "mulatinha" que põe fim à sua vida de marido fiel pudesse ocorrer nas ruas pouco movimentadas da Barbacena de Rubião -do romance "Quincas Borba", de Machado de Assis. E, certamente, se residisse nesse pacato lugarejo, o narrador de "Cinco Minutos", de José de Alencar, não conheceria a sua futura esposa, a quem teve a felicidade de encontrar num bem urbano bonde para o Andaraí.

A metrópole dos romances, todavia, não era pródiga somente em possibilidades amorosas. Em qual outro lugar, senão na sociedade carioca, sociedade dinâmica e variada em demasia para que uns soubessem da proveniência dos outros, a filha de uma costureira, Aurélia Camargo -a heroína do romance "Senhora", de Alencar-, poderia, depois de receber uma gorda herança do avô, estrear nos salões como uma verdadeira rainha? E é, sem dúvida, graças ao mesmo anonimato propiciado pela intensa circulação de gentes e coisas que Lúcia -do romance "Casa de Pensão", de Aluísio de Azevedo-, com o auxílio de sua escrava, pode realizar um aborto com relativa tranqüilidade e muita discrição.

Nada que cause grande surpresa, afinal, o mundo urbano, com seu constante "lufa-lufa", com suas ruas movimentadas, com seus inúmeros valhacoutos e cortiços, com suas pensões obscuras surgindo do nada, com seus teatros e casas noturnas, restaurantes e bailes, grêmios recreativos e reuniões sociais, era propício ao aparecimento e à sobrevivência daqueles seres de impulsos quase patológicos, daquelas meninas precocemente apresentadas à vida mundana, daqueles solitários e celibatários de comportamento suspeito, daquelas histéricas que não resistiam aos estímulos da vida moderna, daquelas educadoras estrangeiras de passado e moral duvidosos, daquelas prostitutas com trágicas histórias de vida, daqueles conquistadores e aventureiros que desencaminhavam moças casadouras, em suma, era propício ao aparecimento de estropiados e pervertidos de toda sorte. Mas o que seria das tramas ficcionais sem tais tipos? Que condições haveria para moralizar -um dos propósitos centrais de boa parte dos romances brasileiros oitocentistas- num ambiente sempre igual a si próprio, num ambiente, ao contrário da corte, desprovido de uma gama variada de desvios e desviantes a descrever e a condenar?

É verdade que a singela prosa de ficção brasileira viveu menos dos estropiados do que dos ajustados. Todavia, mesmo estes -médicos e advogados bem sucedidos ou remediados, estudantes descobrindo a vida adulta, comerciantes ascendentes, homens de estado, escritores, artistas e uma longa série de outros tipos urbanos-, onde poderiam ser encontrados, melhor, ambientados com verossimilhança a não ser no espaço plural da corte? Em larga medida, no mundo ficcional brasileiro do Oitocentos, vinha-se do interior e, por vezes, para lá se retornava para curar-se de uma doença, recuperar-se de um trauma ou para amargar um fracasso. Viver, porém, isso se fazia na metrópole; aí, sim, as potencialidades de uma existência poderiam ser plenamente exploradas.

É na metrópole que, com mais ou menos agruras, Isaías Caminha adentra no jornalismo, que Rubião, mesmo sem entender muito bem as "regras do jogo", descobre o admirável mundo novo dos salões e que o rapazote Sérgio, interno num colégio, o Ateneu, inicia-se na vida adulta. É aí, também, que advogados de modestas posses podem ascender socialmente e arrumar um bom casamento, ou que um funcionário público de escalão médio e viúvo, como Luís Garcia, pai de Iaiá Garcia -do romance homônimo de Machado de Assis-, pode oferecer à filha uma educação liberal e encaminhá-la na vida, ou, ainda, que um imigrante pobre e rústico, como João Romão -do romance "O cortiço", de Aluísio de Azevedo-, consegue, depois de ser sócio de uma escrava, acumular um bom pé de meia e posar de respeitável comerciante.

É na grande cidade, em suma, que aqueles "talentos" que provavelmente definhariam "no diabo da província" são plenamente desenvolvidos e, com um pouco de sorte e jeito, reconhecidos.

De certo modo, é isso que, há mais ou menos um século e meio -o cenário pode ser o Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, São Paulo, Porto Alegre ou qualquer outra grande cidade-, uma larga parcela dos romancistas brasileiros dizem aos seus leitores. Ora, mas a metrópole ficcional é também o espaço da violência, da solidão, da desagregação psicológica e da miséria degradante? Por certo que sim, todavia, o lado obscuro da grande cidade é uma espécie de preço a pagar por tantas possibilidades de vida, pelos inúmeros e intensos acontecimentos que a variedade e o anonimato permitem ao indivíduo experimentar. Pois, então! Conta-se isso ao leitor durante mais de um século e depois lamenta-se que o interior não avance culturalmente, que aqueles desejosos de vencer na vida se encaminhem "desordenadamente" para os grandes centros e que aos sonhadores acomodados no seu pequeno torrão natal reste somente carregar o estigma de "perdedores", ou ainda que os soberbos habitantes das metrópoles olhem para os interioranos como se estes experimentassem somente metade da vida, talvez até menos.


Jean Marcel Carvalho França
É professor do Departamento de História da UNESP-Franca e autor, entre outros, de "Literatura e Sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista" (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999) e "Outras Visões do Rio de Janeiro Colonial" (José Olympio, 2000).

 
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