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Mas essas mesmas qualidades são responsáveis pelos defeitos e pelos limites éticos e estéticos da telenovela. Por ser tão cotidiana e acompanhar tão de perto o ambiente social de seu tempo, ela é a própria encarnação da ideologia. Para atingir um público tão extenso e diferenciado, a telenovela tem que corresponder à média da chamada opinião pública e não pode romper com as expectativas do público (que ela mesma criou) para não perder audiência.

A moral da telenovela é sempre a moral média da classe média brasileira. Suas ousadias estéticas ou temáticas costumam ir se diluindo na medida em que se desenvolve a história, e a resolução dos pontos polêmicos que ela aborda nunca fere o senso comum. O realismo da telenovela corresponde ao que Engels escreveu sobre o folhetim em “A Sagrada Família”: ela reproduz a realidade moral e ideológica da sociedade a que se dirige.


Você parece apreciar especialmente o conceito de “espetacularização”, de Guy Debord, para o entendimento do fenômeno televisivo. A leitura de Debord ultrapassa, atualiza ou confirma as análises da “indústria cultural” feitas por Adorno e Horkheimer?

Kehl: Quem me mostrou a radicalidade do conceito de “Espetáculo” do Debord foi o Eugênio Bucci. É importante deixar esse reconhecimento, pois acho que ele trabalha com isso com mais propriedade que eu. E nós tivemos exatamente essa conversa a que você se refere: se são dois modos diferentes de pensar, ou se um é consequência do outro.

Quando o Adorno pensou a indústria cultural, logo depois da Segunda Guerra Mundial, a televisão estava bem em seu início, tanto que ele tem um pequeno parágrafo sobre ela. Diz que a televisão é uma síntese do cinema e do rádio e já prevê um potencial um tanto diabólico para ela. Barthes, em “Mitologias”, não toca na televisão.

É como a parábola dos sete cegos e o elefante, um pega pela pata, outro pela tromba, e nenhum deles consegue uma percepção total do objeto. Talvez porque esse objeto -não apenas a TV, mas a produção do imaginário que se escoa por diversas mídias- seja tão camaleônico, tão avesso a uma síntese. Adorno previa uma espécie de totalização do mundo através da indústria cultural. Embora eu concorde com isso, sempre penso que a lógica adorniana acaba um pouco por nos sufocar, talvez até apagando a dialética. Não sou filósofa para fazer uma crítica ao Adorno, mas é quase como se ele acreditasse no fim da história, como se se empolgasse com o próprio mecanismo de análise que ele descobre e vai fazendo com que ele se torne único.

De qualquer maneira, quando vem a televisão, tecnicamente ela tem um potencial de realizar a totalização, em sentido negativo, apregoada pelo Adorno. Mas creio que não se dê essa totalização, porque aquilo que o mecanismo de análise do Adorno não contempla, e talvez meus textos também não, é a necessária contradição dessa máquina. Ela tem que se alimentar justamente do novo, e assim acaba trazendo para dentro de si alguma contradição. Quando o “Casseta & Planeta” faz crítica ao telejornalismo da Globo, esta crítica não é totalmente neutralizada.

Sou muito criticada a respeito de minhas análises, pois acham que estou querendo voltar a uma era pré-televisiva ao pensar a TV e as suas consequências sobre a subjetividade. É evidente que isso é impossível, a televisão é um instrumento democrático muito poderoso. A questão é pensar, discutir a TV, não deixar que tudo passe em branco, como se fosse um dado da natureza humana. E também refletir o tempo todo sobre a relação da TV com a concentração de capital.


Carlos Eduardo Ortolan Miranda
É tradutor e crítico, mestrando em filosofia na USP.

 
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