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três palavras
Walnice Nogueira Galvão Por que gostamos de algumas palavras e implicamos com outras? A que memórias afetivas, a que associações insuspeitadas, se deve tamanha arbitrariedade? Para Freud, arbitrário é que não é. Todo capricho, ojeriza ou deformação que diga respeito a palavras, tem sua razão de ser no inconsciente e seus mecanismos de manipulação de experiências. Os linguistas, por sua vez, não se cansam de explorar o funcionamento da camada dos significantes, especulando como se contaminam, percorrem meandros ou trocam de lugar, sem que seja necessário aprofundar a explanação até um patamar psicanalítico. Os poetas, então, têm aqui uma fonte de deleite perpétuo. Brincam com as palavras desde que a escrita começou, e provavelmente antes disso em jogos orais. Pelo menos, é o que se pode verificar ainda hoje nas afluentes ágrafos da literatura. Não só os poetas, os prosadores também. Considere-se James Joyce e o palavrão de cem grafemas, que surge várias vezes em "Finnegans Wake", quando o gigante Finn leva um tombo. Em sua aparição inaugural, logo na primeira página, sugere um trovão e um cataclismo: bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonner ronntuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk!. Guimarães Rosa deu-se ao luxo de compor derivações inusitadas, como o nome do vaqueiro Moimeichego em "Cara de Bronze", a que chegou, conforme explicou a seu tradutor e correspondente Edoardo Bizzarri, adicionando pronomes de primeira pessoa em várias línguas (Moi+me+ich+ego). Pronunciados segundo a prosódia brasileira, tornam-se irreconhecíveis. Joyce também se entregara a malabarismos do mesmo jaez, procedimento a que recorreu inúmeras vezes, como quando compôs o onomástico Mamalujo a partir da primeira sílaba dos quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João.
Quando quiser insultar alguém, chame-o de sevandija. A palavra, que podemos aprender na literatura infantil de Monteiro Lobato, é da melhor cepa lusa e denomina qualquer inseto imundo, desses que vegetam debaixo de uma pedra ou nas frinchas cheias de umidade e bolor das paredes. Imaginem baratas, percevejos, centopéias, piolhos-de-cobra, marias-fedidas, minhocas, barbeiros... Mas também pré-existe, abonada em dicionário, sua acepção metafórica, em que os atributos dos animálculos são aplicados aos seres humanos, e qualificam indivíduos torpes ou vis. É um insulto e tanto.
Entretanto, há ocasiões em que convém ser mais sutil. Para essas, recomendamos o uso do termo desbussolado. Não é nada demais, apenas indica que alguém perdeu a bússola, mostrando-se desorientado. Mas, por artes dos sons e silêncios, parece coisa muito pior. Aliás, nem figura nos dicionários, nem no "Aurélio", nem no "Houaiss". É puro galicismo ("débussolé"), embora autores castiços como o ensaísta português Antonio Sérgio, de impecável classicismo, o utilizem. Deve-se empregar nos casos em que uma retirada estratégica seja recomendável. Sempre se pode dizer que houve engano, que a intenção não era essa, que o vocábulo absolutamente não significa o que parece -e retirar a ofensa.
Já uma das palavras mais lindas que existem é aleluia. Convida ao devaneio, sugerindo conexões milenares que não têm a menor base mas muito alegram. A palavra é bíblica, do Velho Testamento, e quer dizer “louvar com júbilo” (subentendido, a Iavé, cujo nome é impronunciável). Devido a essa origem, existe em muitas línguas, sem alterações. Para mim, deve ser onomatopaica. Observe-se qualquer ritual de agora, como por exemplo a cerimônia de matrimônio, em que mulheres árabes ou africanas proferem um alarido de boca em u e língua tremulante. Thomas Mann tentou verter um equivalente do que leu na Bíblia ao escrever a saga de "José e seus irmãos", quando diz que os pastores, em sua exultação, bradavam “lu, lu, lu”. Daí deve provir também o verbo "ulular" em português, que quer dizer aproximadamente a mesma coisa: as mulheres árabes ou africanas "ululam" nessas ocasiões. Penso que foi uma similaridade que Edgar Alan Poe percebeu, quando criou o Ulalume. Nada disso tem comprovação científica, é tudo invenção de quem assina estas linhas. Walnice Nogueira Galvão
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