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Depois do hiper
Por Cícero Inácio da Silva

Especialista em hipertextualidade, George Landow fala sobre a escrita na era da internet

George Landow é um dos pioneiros na crítica de textos em suportes eletrônicos conhecidos, na atualidade, como hipertexto ou hipermídia. Seus primeiros artigos e livros sobre o assunto datam de 1991 e têm grande importância como reflexão sobre a escrita e a recepção com o uso das tecnologias digitais.

Landow discute os efeitos da mídia eletrônica na criação literária, dialogando com autores como Paul de Man, Jacques Derrida, James Joyce, Gilles Deleuze, Michel Foucault, entre outros, o que o deixa numa posição diferente daquela que, por exemplo, trata de temas como “o fim do livro” pelo viés profético e “futurológico” que tem acometido grande parte da crítica a respeito do uso da tecnologia.

Atualmente, George Landow é professor de inglês e história da arte na Brown University, em Providence, nos Estados Unidos. A lista de suas publicações é extensa. Dentre elas destacam-se os seguintes livros: “Hypermedia and literary studies” (MIT, 1991) e “Word: text-based computing in the humanities” (MIT, 1993), ambos em parceira com Paul Delany, “Hypertext: the convergence of the contemporary critical theory and technology” (Johns Hopkins UP, 1992), “Hypertext in Hypertext” (Johns Hopkins UP, 1994), estudo que foi ampliado e posteriormente publicado como “Hypertext 2.0” (Johns Hopkins UP, 1997).

Além disso, Landow é editor de “Hyper/text/theory” (Johns Hopkins UP, 1994), uma coletânea com textos críticos de Gregory Ulmer, Espen Aarseth, entre outros.

Apesar de ser um autor referencial, nenhum de seus livros foi traduzido no Brasil. Uma explicação possível para essa lacuna seria sua postura crítica que não se deixa afetar tão facilmente pelas “transformações” oferecidas/provocadas pela era “tecnologial.”

Em entrevista concedida por e-mail, ele fala sobre hipertextualidade, sua obra e, acima de tudo, a recepção do texto na contemporaneidade.


No seu livro “Hypertext 2.0”, você defendia a não distinção entre hipermídia e hipertexto. Atualmente você manteria essa posição? Por que?

George Landow: Os textos de computador -sejam eles hipertextos ou não- podem facilmente incluir imagens e textos alfanuméricos, já que, em computadores, é possível armazenar tanto palavras como imagens na forma de códigos. A interconexão destes textos ou de combinações de textos e imagens já é o hipertexto (e a hipermídia). Não vejo como faria sentido distinguir entre os dois. Por outro lado, deveríamos fazer uma distinção entre o hipertexto e o texto animado, como os criados com (os softwares) Flash ou Director.


A hipermídia, de certa forma, é vista na atualidade como mais uma ferramenta que permite um arquivamento e uma relação temática entre conceitos do que propriamente uma linguagem. Como pensa a relação entre tecnologia e linguagem? Como pensa a questão da máquina? Será possível uma máquina escrever? Ou a própria escritura já é uma máquina?

Landow: Eu vejo a escritura como uma das primeiras e mais importantes tecnologias desenvolvidas pelo homem, e cada um dos seus conjuntos de ferramentas -buril e argila, pena e pergaminho, talhadeira e pedra, impressão e papel, teclado e tela de computador- afeta a leitura, a escrita e nossas concepções destas.

A leitura e a escritura são sempre materiais, mesmo que o texto do computador seja codificado e virtual. Nós criamos e percebemos nele arranjos físicos muito específicos, através de práticas físicas muito específicas.


O hipertexto e a hipermídia nas redes (WWW) eram vendidos como a possibilidade de democratização da informação, quase como o fim da lógica da propriedade sobre o conhecimento. O que vemos atualmente não é bem isso. Você acha que qualquer informação é “democratizante”?

Landow: Sim e não. Weblogs (blogs) apresentam informações técnicas e escolares, de ótima qualidade, criadas por um grande número de indivíduos que não estão inseridos em instituições acadêmicas. Além disso, muita informação sobre medicina e assuntos acadêmicos encontra-se livremente disponível na WWW, o que democratiza, de forma dramática, alguma informação.

O fato de a hipermídia tender a ser mais democratizante que o material impresso não significa que ela automaticamente crie uma democracia política ou mesmo um sistema educacional mais democratizado -neste último caso, os professores precisam se abrir para as possibilidades de práticas educacionais focadas no aluno e para novos métodos de ensino.


Com a possibilidade de todos os sujeitos no mundo se tornarem “autores” e, portanto, também editores, como você pensa a questão da credibilidade da informação “democratizada” e o compartilhamento dessa autoria efêmera?

Landow: Na minha opinião, o problema não é significativamente agravado pela internet: grandes bibliotecas sempre tiveram grandes quantidades de trabalhos de baixa qualidade, ou repletos de falhas. Eu acredito que nós devamos desenvolver diversas classes ou níveis de autenticação, dependendo das necessidades do leitor. Grupos de acadêmicos, cientistas, técnicos e aqueles com conhecimento sobre a disciplina deverão dar uma primeira autenticação aos trabalhos publicados on-line, ou o valor dos trabalhos será medido por revisores identificados.

Há vários anos cientistas trabalhando no campo da física de alta energia vêm publicando seus trabalhos na WWW, antes de sua impressão. Muitos físicos já me disseram que o único motivo pelo qual consultam estas versões eletrônicas não-vetadas e pré-impressões é por serem capazes de decidir se um ensaio, uma teoria ou um experimento pareça ser digno de leitura. De forma similar, muitos indivíduos consultam avaliações on-line de filmes, ou outras informações referentes a seu hobby ou lazer, que são criadas de forma muito mais democrática que as versões impressas.


Tradução de Priscila Adachi.


Cícero Inácio da Silva

É professor da PUC – SP e responsável pela disciplina Hipermídia e Interatividade na Pós-graduação em Comunicação, Arte e Tecnologia da Belas Artes de São Paulo. É autor de “As mulheres de Derrida” (Witz Editora), “Hipermidialogia” (Espectros Editorial),entre outros. Site: www.pucsp.br/~cicero



 
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