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dossiê
AUDIOVISUAL

A esquizofrenia das imagens
Por Esther Hamburger

O mundo está em guerra. Uma guerra que aparece aos brasileiros como localizada em rincões remotos do planeta. Mas que, bem ajustada à estrutura de rede, pode irromper a qualquer momento, em qualquer lugar.

Por enquanto, a guerra diminuiu o número de vôos, mas não eliminou o turismo internacional. Ao contrário, aviões hiperlotados de turistas de todas as idades continuam a cruzar os céus brasileiros em direção à Europa e aos Estados Unidos.

A guerra que nos chega todo dia nas imagens obrigatórias em qualquer telejornal nacional nos assegura de que, para além da nossa própria violência, ao menos no que tange ao conflito internacional, estamos bem resguardados.

Vemos as reportagens do correspondente da Rede Globo baseado no Líbano. Sua voz em off avaliza imagens de diversos pontos de conflito no Iraque. Somos informados que os sunitas atacam quase que diariamente nas proximidades de Bagdá. Vemos escombros e fumaça ao longe em uma paisagem urbana apresentada como Basra.

Mais dramático do que essa paisagem apocalíptica que se repete diariamente, são as imagens do apelo da senhora britânica radicada há 31 anos no Iraque, seqüestrada. O caso dela parece seguir o caso de seu compatriota recentemente assassinado.

De frente para a câmera da emissora árabe Al Jazeera, em um plano básico, bastante próximo, a senhora inglesa, casada com um cidadão iraquiano, funcionária de uma organização de ajuda internacional, chora, implora, emocionada.

Como se o conhecido logotipo da emissora, presente no canto direito inferior do quadro não bastasse, o repórter reforça a procedência das imagens. A câmera da Al Jazeera funciona literalmente como uma janela para o mundo. Talvez seja mais acurado dizer, para a porção ocidental do mundo.

Enquanto assisti ao apelo desesperado de Margareth Hassan, me perguntava se essas imagens estariam também sendo transmitidas nos países de fala árabe. Afinal elas abalariam a atmosfera aparentemente estável que a televisão de lá -ao contrário da de cá- revela.

Sem escombros, bombas, decapitações ou imagens de muçulmanos presos ou capturados. O mundo que a Al Jazzeera mostra todo o dia em sua edição árabe é diferente do que estamos acostumados a ver nos noticiários televisivos ocidentais.

O planeta é Terra, o tempo é contemporâneo. A tecnologia de gravação e exibição de imagens naturalistas também. Mas a telinha se debruça sobre paisagens e realidades quase opostas aqui e lá.

Muitas vezes vemos o logotipo da emissora sediada no Qatar em emissões da Bandeirante, Record, Globo, CNN ou BBC. Afinal nada como câmeras locais, na língua local, para captar eventos no calor da hora. Na guerra do Iraque aprendemos a reconhecer nas imagens da Al Jazeera -marcadas por um grifo que lembra uma gota desenhada com capricho- relatos confiáveis, produzidos por jornalistas comprometidos.

A emissora se consolidou no mundo árabe como uma espécie de canal privilegiado de construção de uma imagem visual alternativa ao “Orientalismo”, para usar a expressão de Edward Said, que se veicula no ocidente.

Nas transmissões em árabe não vemos imagens de árabes feridos, humilhados ou em posição de ataque terrorista. As paisagens exibidas salientam a estabilidade de países prósperos, habitados por mulheres que aparecem como apresentadoras de TV, guardas de trânsito, motoristas e executivas desfazendo, a expectativa convencional de violência e barbárie homogêneas.

Essa esquizofrenia das imagens é assustadora. Tem a ver com o clima de guerra de guerrilha que tomou conta do mundo depois dos atentados de 11 de Setembro e que, às vésperas das eleições presidenciais norte-americanas, enseja manifestações fundamentalistas radicais de parte a parte.

O mapa dos fluxos globais de conteúdos diferenciados desenha uma geografia político-cultural ainda pouco conhecida. É como se o mundo globalizado permitisse a convivência momentânea de realidades virtuais conflitantes, alimentando assim um espírito beligerante, que, ao contrário do que imaginamos, não está tão distante quanto parece.


Esther Hamburger
Esther Hamburger é antropóloga, professora do departamento de cinema, televisão e rádio da Universidade de São Paulo (USP) e editora de "Trópico".

 
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